Jornal Folha de S.Paulo , domingo 7 de fevereiro de 1982
Qualquer dia destes, o brasileiro abre o jornal e enche os olhos com boas notícias: "O presidente da República assinou decretos extinguindo o Ministério da Agricultura e todas as empresas de pesquisas e abastecimento etc. a ele ligadas; o Ministério das Minas e Energia e seus órgãos técnicos; o Conselho Nacional de Pesquisas e, ainda, os Estados do Amazonas, Pará e Maranhão, numa primeira etapa, e, dependendo de estudos em andamento, também os Estados de Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso.
A medida presidencial, sugerida pelo ministro do Planejamento, Delfim Neto, tem vários objetivos simultâneos - prossegue o noticiário - acelerar a desestatização, com a extinção de ministérios e órgãos desnecessários; promover o rápido desenvolvimento de regiões do País; acelerar o avanço tecnológico e expandir as exportações do Brasil."
Ao prosseguir na leitura, o cidadão brasileiro verificará que aqueles ministérios, órgãos e governos estaduais realmente são absolutamente inúteis, um desperdício, pois todas as atividades que eles vinham desenvolvendo podem ser perfeitamente executadas por governos estrangeiros, de países desenvolvidos, "muito mais aptos e preparados para saberem o que convém realmente ao Brasil", nos termos do decreto presidencial. "A transferência do poder de decisão, para governos ou organismos estrangeiros, será estabelecida mediante convênios a serem preparados pelo secretário do Planejamento, Delfim Neto, autorizado desde já a realizar periódicas viagens ao exterior com esse objetivo."
Esse programa de "internacionalização" do Brasil, que muitos tentarão confundir com "desnacionalização", já está em andamento, em diversas áreas. Alguns fatos ocorridos no curto espaço de uma semana mostram que os decretos presidenciais são uma possibilidade menos remota do que se pensa.