O Brasil de Aloysio Biondi Obra Vida Projeto

  Dois irmãos - Parte 1
Entrevisa com Washington Novaes

Equipe de O Brasil de Aloysio Biondi

Entrevista realizada em 2004 por Aloísio Milani, Antonio Biondi e Rodrigo Savazoni

O que se segue é uma história da relação de Aloysio Biondi e Washington Novaes, na voz do segundo. A história de dois homens que se conheceram meninos, na redação da Folha da Manhã, nos promissores anos 50.

Por décadas, foram inseparáveis companheiros de jornalismo e de vida – porque sabiam que uma verdadeira colaboração jornalística só é possível quando há entre os pares algo além de mero coleguismo profissional.

Esse estreito e cotidiano convívio laboral se encerrou mais ou menos na mesma época em que o Brasil começou a recuperar sua democracia, lá por meados dos anos 80 (a última vez que estiveram juntos em uma redação foi no Diário da Manhã, em Goiânia).

O companheirismo e a amizade, no entanto, persistiram até a morte prematura de Aloysio, no fim dos anos 90.

Extraída na varanda bucólica da casa de Novaes na capital de Goiás no dia 21 de janeiro de 2004, a conversa na seqüência transcrita apresenta a trajetória de Aloysio: as vitórias, as derrotas, a generosidade, os acertos, os erros, a rebeldia, a inconseqüência, a correção, a decência, a erupção...

Foi a forma que encontramos de começar a dividir com vocês a vida e a obra do mestre Aloysio Biondi, jornalista que pensou um Brasil diferente e lutou por ele. O mergulho persiste nas demais páginas deste sítio de esperança. O texto está dividido em quatro partes: I – Primeiros Anos
II – A Ditadura
III – A Democracia
IV – Últimos Anos


I – Primeiros Anos

Final da década de 50. Aloysio chega a São Paulo, vindo do interior, da família italiana. Caconde, depois São José do Rio Pardo. A capital. O jovem Biondi se revela um prodígio, nos dizeres de Novaes. Aos 21 anos, ocupa alto cargo em jornal de renome. É pelas mãos de Biondi que Novaes se inicia na profissão. E nesse encontro de mãos, em aperto sincero, que a amizade de uma vida é selada, como contamos daqui por diante.

Vamos começar traçando uma grande linha do que foi a história de vocês dois juntos, os momentos mais importantes, os momentos mais difíceis...Acho que o primeiro momento é mesmo a dupla chegando na Folha de São Paulo. Washington Novaes – Em 1957, eu estava no último ano da Faculdade de Direito e era bancário, trabalhava como bancário para me sustentar, no Banco Noroeste. Aí, saí do Banco Noroeste e precisava de um outro trabalho para continuar ganhando a vida e um companheiro de pensão me falou que estava havendo um teste para o Última Hora, para revisor da Última Hora. Naquele tempo os jornais ainda tinham revisor, hoje não têm mais. O revisor é que recebia os textos que iam da redação para a oficina e na oficina eles eram compostos em chumbo, no linotipo, e então se fazia uma prova disso aí e o revisor ia ver se tinham feito direito, de acordo com o original que tinha vindo da redação. Fizemos o primeiro teste para a Última Hora, mas a Última Hora pagava muito pouco. Depois ele me falou que a Folha ia abrir também. Então fomos fazer teste na Folha. E, por estranho que pareça, quem aplicava este teste na Folha era o Aloysio. Ele era nessa época subchefe do departamento de sucursais, correspondentes e representantes do jornal. Então ele tratava com noticiário do interior de São Paulo, dos estados e das sucursais que o jornal tinha, que naquela época acho que era só o Rio. Então eu fiz o teste.

Conheci o Aloysio no dia do teste. Ele que aplicou, entregou as provas e tal, e uns dois ou três dias depois eu telefonei e soube que tinha sido aprovado. Ele me convocou então para ir lá no jornal. Eu fui e comecei a trabalhar como revisor da Folha da Tarde. Naquela época a Folha eram três jornais: a Folha da Manhã, a Folha da Tarde e a Folha da Noite, que foram unificados só em 1963, por aí. Aí, comecei a trabalhar como revisor da Folha da Tarde. Eu entrava às nove da noite e saía às três da manhã.

Quando tinha o quê, um mês e meio, dois meses que eu estava trabalhando lá, o Aloysio me chamou um dia e me perguntou se eu não gostaria de fazer um teste na redação para trabalhar como redator. Ele tinha gostado do meu teste, e o chefe da revisão também tinha dado um bom depoimento, então eu fui fazer um teste para trabalhar com ele à tarde, como redator. Na época se chamava copydesk. Então eu passei a acumular, a trabalhar à tarde como redator e depois à noite trabalhava como revisor. E aí nessa época eu só dormia no fim de semana porque eu saía do jornal às três, tinha que ir para a pensão, não tinha mais ônibus nessa hora, ia a pé...

Onde ficava a pensão? Washington – A pensão ficava ali na Bela Vista, ali em uma travessa da Frei Caneca. Então eu ia a pé da Folha até lá, chegava umas quatro da manhã e antes das sete já tinha que levantar porque às oito tinha que estar na Faculdade de Direito, eu estava no último ano da Faculdade de Direito. Aí fiquei uns dois anos e uns dois meses nessa, acumulando, aí o Aloysio aprovou e então eu deixei a revisão e fiquei trabalhando só com ele.

O Aloysio era muito novo, ele era mais novo que eu, o Aloysio acho que era quase dois anos mais novo que eu. Nessa época eu tinha 23 então ele devia ter 21 anos mais ou menos. Mas ele já era uma pessoa muito madura profissionalmente. Ele como subchefe desse departamento produzia todo esse noticiário de sucursal, do Rio, dos correspondentes no interior, e foi nisso que eu comecei a trabalhar, com o noticiário dos correspondentes do interior.

E era um tempo em que você não tinha nada, ainda não tinha telex, não tinha computador, não tinha nenhuma dessas coisas, então o correspondente mandava a notícia por carta, ele colocava a carta no correio e a carta chegava lá e com base nessas cartas a gente preparava o noticiário, fazia o noticiário do interior. E o Aloysio era rigorosíssimo, exigentíssimo, tinha que a partir daquelas cartas produzir notícias primorosas, interessantíssimas, muito bem escritas... era proibido ter gerúndios no texto...

Então o cara botava lá "pavimentou a rua 15 de novembro aqui em Piracicaba" e a partir disso você tinha que produzir uma notícia. E ele produzia também os editoriais, que eu acho que era uma ou duas vezes por semana, tinha um editorial que era referente a coisas do interior do estado.

E esse trabalho não era relacionado à Folha da Tarde, esse trabalho era para os três? Washington – Era para os três, mas era principalmente para a Folha da Manhã. Aí ele produzia editoriais sobre temas do interesse do interior. Ele já era assim muito respeitado na redação, era considerado mesmo um prodígio nessa época, principalmente pelo Mário Mazzei Guimarães, que foi editor de economia e depois editor-chefe da Folha. O Mazzei está vivo e inclusive vocês deviam procurá-lo, que o Mazzei conhece o tempo do Aloysio.

Bom, então eu fiquei ali trabalhando e aprendendo com o Aloysio essa coisa durante algum tempo e aí houve uma separação, porque o Mário Lobo, que era tio do Aloysio, assumiu a secretaria da Folha da Manhã, a secretaria da redação, e me chamou para trabalhar com ele como redator da secretaria da redação.

Mas nós continuamos muito amigos, e nos encontramos muito, quase todo dia. Aí, em 59, em saí da Folha, porque houve muitas mudanças na Folha, e o Hideo Onaga, com quem eu trabalhava já nessa época na chefia da reportagem saiu e eu saí também. E fui para o Estadão. E o Aloysio ainda ficou um tempo na Folha.

Era um tempo muito diferente. Os jornais eram muito diferentes. Era outra visão do jornal, outra visão do mundo. Mas o Aloysio já tinha essas marcas de ser uma pessoa muito responsável, muito voltada para o interesse público.

Aí, depois de algum tempo que eu já tinha saído da Folha, ele saiu também, e foi dirigir uma revista chamada Direção, que era do grupo que produzia também uma outra revista chamada Dirigente Industrial.

No período ainda da Folha, em que vocês estiveram juntos, não necessariamente na redação, quem você acha que são as outras pessoas importantes? O Hideo Onaga... Washington – o Hideo Onaga* era o chefe do departamento de reportagem da Folha. O Mário Lobo era o secretário da Folha, tio do Aloysio, que morreu muito cedo, ele morreu em 1959, com 37 anos de idade, e era uma figura notável. O chefe do Aloysio, o chefe do departamento de sucursais da Folha era o França, mas França era o apelido dele, o nome dele mesmo acho que era Francisco Decélio César. O editor de esportes era o Aroldo Chiorino. De gente que ainda está viva e que conheceu o Aloysio nessa época tem o Zé Hamilton Ribeiro, que é o editor do Globo Rural, o Audálio Dantas...

* Hideo Onaga faleceu em 2007

O Audálio era dessa mesma equipe? Washington – Ele era dessa mesma equipe.

Ele era redator também? Washington – Ele era repórter. O Audálio Dantas, que depois foi deputado, foi uma porção de coisas, que está vivo ainda. Quem mais... O Pimenta (Pimenta Neves, ex-diretor do Jornal O Estado de S. Paulo preso por assassinar sua namorada), o Pimenta é dessa época também. Deixa eu ver quem mais que eu me lembro desse tempo aí.

Mas quem que eram os mais próximos assim, vocês chegavam a ter uma turma ou não? Washington – Não, teve muita gente que passou pela mão do Aloysio e que ele ajudou a formar. Uma delas é o Raul Martins Barros, que chegou a editor do Jornal da Globo em São Paulo. O Raul era uma espécie de menino prodígio, que se candidatou em um concurso que a Folha fez sem dizer que era menino. Aí, no dia do concurso apareceu aquele menino lá, que tinha uns doze, treze anos.

Então, deram um trabalho para ele meio como boy, como contínuo, ele trabalhava lá com o Aloysio. Depois, ele saiu da Folha, foi pro Estado, onde eu o reencontrei, nessa época numa função que hoje não existe é claro. Naquela época o noticiário da sucursal do Rio de Janeiro era passado para São Paulo por telefone. Tinha um cara que ficava lendo lá no telefone, numa ponta, e na outra um que ficava datilografando. E nessa época então o Raul era datilógrafo.

O Woile Guimarães, que depois se tornou um jornalista destacado, trabalhou em muitos lugares, foi editor regional da Globo em São Paulo, também teve um cargo importante no Jornal Nacional e hoje é dono de uma produtora que se chama GW.

Quem era muito amigo nosso nesse tempo também era o Aldo Pereira, que depois acho que deixou de ser jornalista, acho que ele mora em São José dos Campos, alguma coisa. No velório do Aloysio a filha dele veio falar comigo.

Nessa época o Aloysio morava numa república num edifício ali da Avenida São João e os grandes amigos dele, o convívio maior dele, era o pessoal de São José do Rio Pardo, que tinham sido amigos de infância e adolescência dele e moravam ali juntos.



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