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  “Reciclagem” da economia, estratégia não abandonada

Jornal Gazeta Mercantil , sábado 26 de outubro de 1974


Já ao lançar o plano Trienal de 1967, a equipe do atual ministro Reis Veloso apontava no texto introdutório que, freqüentemente, no Brasil, a política de planejamento acabava sendo sacrificada por medidas imediatistas, que desviavam o país de seus objetivos a longo prazo. Haveria esse risco nas últimas providências para reativar a economia?

Conforme as explicações oficiais, a estratégia de longo prazo não deverá ser sacrificada. Houve uma alteração tática, para enfrentar uma conjuntura em que já se delineava uma possível recessão para alguns setores, criando-se um clima perigoso dentro da classe empresarial. Mas o estímulo ao consumo não implica no “retorno ao consumismo”.

Essa reviravolta seria impossível. Conforme apontava há uma semana o próprio ministro da Fazenda ainda que em outras palavras, o Brasil estimulou um processo de industrialização às avessas, nos últimos anos. Com isso, está agora enfrentando problemas que geram dois pontos críticos, segundo a própria análise do ministro da Fazenda: como as indústrias básicas não foram desenvolvidas no mesmo ritmo, há hoje escassez de materiais e bens essenciais. Essa escassez provoca alta de preços (pela pressão da demanda), como primeira distorção, e necessidades de importação, como segunda distorção. Inflação e déficit cambial, eis os resultados do “modelo consumista”, que o país não pode, por isso mesmo, manter. Uma “opção” sem escolhas.

O FUTURO CHEGOU

A “reciclagem” da economia é inevitável, portanto. O governo poderia, se radical, até mesmo buscar uma redução na produção dos bens de consumo, que desencadeiam aquelas pressões. Sabendo porém dos traumas econômicos que as diretrizes provocariam, limita-se a prever taxas mais reduzidas de crescimento para esses setores.

A “reciclagem” se faz, assim, ao longo do tempo, não abruptamente e, por isso mesmo, a queda na produção que se verificava exigia ação firme.

A opinião pública, e a coletividade empresarial, teme que o abandono do “modelo consumista” leve a fracassos, ou à recessão aqui e no resto do mundo. Os atuais problemas da industria automobilística mundial, por exemplo, são encarados como prenúncios de catástrofe. No entanto, o que ocorre simplesmente, é que a sociedade consumista das últimas décadas ainda não entendeu que pode haver uma “recessão” para os bens de consumo, sem forçosamente haver uma “recessão” da economia, como um todo. Num exemplo simples, os investimentos que a siderurgia mundial exige nos próximos cinco anos, para atender precariamente à demanda projetada para isso, monta a nada menos de 440 bilhões de dólares - isto é, um suporte de peso para o crescimento da economia mundial, ainda não entendido, para que sobrem recursos para o desenvolvimento de outros setores.

E a volta à inflação, por força da nova política salarial? Estão aí os dados oficiais, a mostrar que a folha de salários dificilmente chega a representar 15% do valor da produção das empresas. Um abono de 10% significa, portanto, um acréscimo de apenas 1,4% no custo dos produtos. O país precisa ter esse dado na cabeça, para evitar que a mentalidade inflacionária se reimplante, por inadvertência, fazendo os preços subirem indevidamente, por força de uma pressão salarial – que não existe.



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