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  O MOMENTO BRASILEIRO

Jornal DCI , terça-feira 1º de fevereiro de 1977


As razões para a inflação declinar

O mês de janeiro, tradicionalmente, apresenta índices de alta de preços mais altos que os demais, devido aos reajustes também tradicionalmente programados para o primeiro mês do ano. Por isso mesmo, pode parecer temeridade afirmar-se que é este o momento de os técnicos oficiais, empresários e a opinião pública em geral deixarem de raciocinar em termos da “inflação velha”, de 46% ao ano, ocorrida durante todo o ano de 1976, e atentar para os resultados de outubro, novembro e dezembro, quando a alta de preços esteve sempre abaixo dos 2,5% (v. artigo anterior, “Quem ama a inflação velha”, na edição de 26/1/77). Não há temeridade, na recomendação: ao contrário, exatamente, porque o comportamento do mês de janeiro poderá fugir à tendência dos últimos três meses, é o momento indicado para uma intensa divulgação dos fatores que poderão influenciar positivamente os preços durante todo o ano de 1977. É lamentável, que ministros e técnicos oficiais se desdobrem tanto, em milhares de contatos, almoços, homenagens, reuniões com classes empresariais para explicar, por exemplo, a "racionalização" do uso do combustível, e não mostrem o mesmo empenho em criar um clima favorável ao declínio da inflação, no País. Pois o fato ê que o mês de janeiro, com índices mais elevados, pode até "empurrar para cima" a inflação dos meses seguintes: com a divulgação dos resultados do mês, haverá certamente um impacto psicológico negativo, generalizando-se a convicção de que "tudo voltou a subir de novo". A partir daí, os reajustes de preços "por conta da inflação que vem vindo" acabarão por puxar os índices também dos meses seguintes.

No entanto, as perspectivas de menor inflação nos primeiros meses de 1976 são uma realidade — que corre o risco de ser desperdiçada.

PRESSÕES MENORES

A crença na persistência de altas taxas de inflação pode ser alimentada a partir de esquecimento de alguns dados positivos, e de equívocos em relação a alguns outros:

Matérias-primas – em conseqüência do depósito prévio e da elevação de impostos de importação, as matérias-primas importadas tiveram seu custo aumentado em 100 até 200 ou 300% em 1976. Hoje, embora permaneçam a níveis elevados, seus preços já não avançam expressivamente (porque o ponto máximo foi atingido), salvo os casos de especulação. Haverá, assim, menor pressão sobre os custos das empresas — e sobre os índices inflacionários.

Salários — a imprensa, sempre tão preocupada em divulgar curvas de gráficos mostrando a perda do poder aquisitivo dos salários desde a I República, não deu o destaque devido, ainda, à conclusão de um órgão ultra-insuspeito, o Dieese – entidade que realiza estudos e levantamentos estatísticos (inclusive o custo de vida para a classe operária paulista) para sindicatos. Insuspeito, portanto, o Dieese mostra que de maio último, desde quando foi decretado, o salário mínimo vigente no País teve seu poder aquisitivo deteriorado em menos que 15% até dezembro, isto é, em oito meses. Isto significa que, mesmo com taxas maiores de aumento de preços, em janeiro, e mesmo em fevereiro, março e abril, o reajuste do salário mínimo tenderá ser substancialmente inferior ao do ano passado, já que ele é reajustado de acordo com a perda do poder aquisitivo resultante da alta de preços (mais um percentual “extra”, concedido ou não pelo Governo, como forma de aumentar, em termos reais, o poder de compra do assalariado). Sabendo-se do impacto psicológico dos reajustes de salário mínimo, este é um dado que não poderia estar sendo omitido nas análises pessimistas que andam por aí, sobre as perspectivas da inflação. E essa tendência de menor reajuste para o mínimo é o melhor exemplo dos perigos de raciocinar em termos de “inflação velha”: quando se diz que a “inflação em 1976” foi de 46%, pensa-se logo que o salário mínimo (e demais salários) deverão ser reajustados a esses níveis, este ano. No entanto, os reajustes se fazem de acordo com a inflação dos doze meses anteriores a sua fixação, e, no caso do salário mínimo, o reajuste de 1976 surgiu exatamente após as elevadíssimas taxas de custo de vida dos quatro primeiros meses do ano – isto é, essas taxas já foram consideradas no seu cálculo, em 1976. Para 1977, o que vai contar no reajuste serão exatamente as baixas taxas do segundo semestre – e as que se verificarem de janeiro a abril (que ainda há tempo para conter).

E MENOS PRESSÕES

Matérias-primas e salários não são os únicos pontos, em que as pressões serão menores — mas eles merecem destaque por terem poderosa influência sobre a formação dos custos das empresas, que, portanto, não serão forçadas a reajustes tão substanciais nos preços de seus produtos. Ha mais, porém:

Preços das empresas — quando se fala ainda na "inflação velha" de 46% em 1976, imagina-se, mais uma vez, que as empresas precisarão reajustar seus preços na mesma proporção em 1977. Ora, esquece-se, nesse raciocínio equivocado, que as empresas vão reajustando seus preços ao longo do ano, à medida em que a inflação atinge seus custos. Mesmo no caso de produtos cujos preços são controlados pelo CIP, há reajustes trimestrais (um bom exemplo: a indústria automobilística). O que falta reajustar neste começo de 1977, portanto (e no restante do ano) será, no máximo, o equivalente ao aumento dos custos no último trimestre. E não se pode esquecer que, exatamente nele, os índices de inflação estiveram abaixo dos 2,5%.

Correção monetária – outro dado que tem forte impacto psicológico, criando um clima inflacionário. Mas seus índices estão em declínio, na casa dos 2% para janeiro e fevereiro, já que são calculados com base nos índices de preços no atacado dos meses mais recentes (final do ano passado).

NÃO DESPERDIÇAR

Deixou-se para o final, de propósito, quatro outros possíveis focos de inflação: taxas de juros, custo dos serviços públicos, preços dos produtos agrícolas e custo dos combustíveis.

Taxas de juros: há mil argumentos para demonstrar que as escorchantes taxas de juros no Brasil são uma aberração, não têm paralelo em todo o mundo nem justificativa em qualquer teoria econômica (essas razões foram analisadas no artigo “Então, a ordem é alimentar a inflação”, publicado no dia 27/1/77 à página 5 deste jornal). Mais um dado a revelar sua absoluta desfaçatez: a queda da correção monetária, adotada nos últimos anos como um dos instrumentos para "determinar" o custo dinheiro. Agora, até esse paralelo já foi abandonado.

Produtos agrícolas: as grandes safras provocaram uma queda nos custos da alimentação (ou no seu ritmo de crescimento), no último trimestre, segundo dados oficiais. Há, porém, episódios isolados de especulação com alguns produtos, com a tentativa de retenção (sonegação) e alta artificial de preços. O problema do feijão parece encaminhar-se para a solução, e, em São Paulo, o produto finalmente era (re)encontrado nos supermercados este final de semana, aos preços de tabelas Cr$ 6,50 o quilo. Mas em outras áreas a tentativa de especular permanece. Até hoje, tem-se procurado combater a especulação por vias indiretas: se há escassez artificial de arroz, por exemplo, “corta-se” o crédito de todos os produtores, para força-los a vender sua safra, para fazer dinheiro, capital de giro. A tática é absolutamente absurda. Punem-se milhares de produtores, atirando-os nos braços do especulador, a pretexto de desentocar estoques que alguns poucos estariam retendo. É evidente que essa política tem que ser abandonada. Caracterizada uma situação de escassez artificial, as autoridades deveriam prontamente acionar outros mecanismos, já usados no passado, contra os especulares. Por mais desagradável que a decisão seja, ela certamente contaria com o apoio das próprias classes empresariais, que não querem ser confundidas com os especuladores, que além de tudo prejudicam os empresários que atuam dentro dos padrões éticos. O Governo hesita em adotar essas medidas drásticas, mas a atitude não tem a menor justificativa.

OPORTUNIDADE PERDIDA

Para os serviços públicos, foi estabelecido o reajuste máximo de 25% em suas tarifas, em 1977 (únicas exceções: Rede ferroviária Federal e Correios). Além disso, a eliminação da cobrança da cota de previdência sobre as contas de gás, luz, água e telefones reduzirá, na prática, aquele aumento, em alguns casos pela metade, isto é, ele não irá efetivamente além dos 12,5%. Essa "redução nos aumentos" mostra como o Governo, por não demonstrar preocupação com a área de comunicações, perde oportunidades para “esvaziar” o clima inflacionário. Nada foi dito até hoje sobre essas reduções, que estão senão totalmente ignoradas pela opinião pública (ainda há tempo de fazer sua divulgação intensa, já que elas vigoram agora em fevereiro).

Resta, apenas, o problema da cobrança do "empréstimo restituível" sobre a gasolina e óleo combustível. Ela não será computada diretamente no índice de preços mas, no caso do óleo combustível, fatalmente terá influência sobre os custos de alguns setores. É verdade que as empresas poderão fazer economia do combustível por causa do "sobre-preço", e, com isso, reduzir seus gastos, neutralizando em parte a pressão sobre os preços de seus produtos. Mas, de qualquer forma, ao menos em relação ao óleo combustível, ainda há tempo para verificar se o "empréstimo" foi mesmo a melhor saída, neste momento — ou se sua cobrança pode ser adiada por algum tempo, para não prejudicar a tendência declinante da inflação.



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