Jornal Diário Popular , quarta-feira 12 de julho de 2000
Qualquer notícia positiva sobre criação de empregos ou reação nas vendas está sendo logo festejada como ‘‘fim da crise’’ e ‘‘consolidação da recuperação da economia’’. Ora, um mês de resultados positivos não significa absolutamente nada. A questão que trabalhadores e empresários devem colocar ao governo é simples: como fazer a economia crescer continuadamente daqui para a frente, sem altos e baixos, deixando para trás a brutal recessão dos últimos anos? Em qualquer país, esse objetivo é alcançado quando há projetos também de longo prazo, que garantam o aumento do consumo ampliando-se sempre o mercado para a indústria, agricultura e serviços. E, para aumentar o consumo, é preciso que haja aumento no poder aquisitivo da população tanto nas cidades como na agricultura. Quais as perspectivas nessas duas frentes, neste momento?
Agricultura — Este é um dos anos mais ingratos para os produtores, prevendo-se que a renda do setor vá crescer algo como tão-somente 0,5% — e olhe lá. Os preços estão péssimos para o arroz (grande safra), café (excesso de exportações no ano passado), soja (supersafra mundial), óleo de soja (idem), laranja (idem), frango (retração no consumo), suínos (idem). Há preços compensadores ou em alta, mas o produtor está colhendo menos este ano, para a cana-de-açúcar, trigo, milho (quebra da ‘‘safrinha’’, com a seca). O quadro mostra claramente que, se depender do consumo criado pela renda dos agricultores, a recuperação não irá longe.
Nordeste — Parêntesis, para destacar uma situação regional. Pelo segundo ano seguido, há chuvas generosas no Nordeste, que colhe outra safra animadora, com crescimento previsto de 40%, repetindo o avanço do ano passado. Para a renda e o consumo regionais, isso representa um forte reforço temporário — mas o peso do Nordeste na economia e consumo nacional é modesto, incapaz de alterar o quadro geral.
Cidades — O consumo no Interior é fortemente influenciado pelo desempenho da agricultura que, como se viu, não está sendo nada brilhante neste ano. Nas capitais, as taxas de desemprego continuam na faixa de 18% a 20%, segundo os levantamentos do Dieese. A leve melhora nas vendas e mesmo no nível de inadimplência do consumidor em maio e junho foi, seguramente, conseqüência do reajuste, mesmo ridículo, do salário mínimo. No entanto, esse efeito tende a desgastar-se rapidamente, sobretudo em conseqüência das tarifas de serviços que mesmo a população pobre não pode deixar de usar: transportes coletivos e energia elétrica, além do gás de cozinha. Como já dito, o nível de emprego e de renda tende a crescer nos próximos dois meses, graças às contratações e encomendas de material de propaganda para a campanha eleitoral. Mas será um fenômeno totalmente passageiro. E depois?
O Brasil precisa de um projeto de longo prazo — que o governo FHC nunca teve.