A Cemig, estatal mineira da área de energia, foi parcialmente privatizada, com a venda de um terço de seu capital a um grupo norte-americano. Ela teve um lucro de R$ 390 milhões no ano passado. Vai aplicar esse dinheiro em projetos de expansão? Não. Vai entregar nada mais nada menos de 97,5% daquele valor aos seus acionistas, sob a forma de dividendos. Uma decisão do grupo norte-americano que, apesar de possuir apenas um terço das ações da empresa, passou a tomar todas as deliberações, graças a um acordo de acionistas adotado pelo governo FHC na privatização de várias estatais. Obviamente, o grupo norte-americano remeterá sua parte para a matriz.
A indústria Dako produzia há décadas fogões populares, de baixo preço, dominando esse mercado com centenas de milhares de unidades vendidas a cada ano. Foi comprada por um grande grupo multinacional, e os fogões, embora simplérrimos, sem nenhuma “sofisticação tecnológica” (sempre usada como pretexto para justificar a chegada de múltis e suas importações) passou a utilizar 100% de peças importadas. As exportações das multinacionais da área automobilística caíram 50% a 60% neste ano, enquanto as exportações do setor, no México, cresceram 20% – e, atenção, as exportações das empresas automobilísticas coreanas para os EUA avançaram de 30% a 40%.
Os casos da Cemig, Dako, indústria automobilística, meros exemplos do que acontece em todas as áreas da economia, mostram uma brutal realidade para a qual a sociedade brasileira ainda não acordou: o Brasil já se tornou um país inviável. Voltou a ser o mesmo país da década de 50, preso na armadilha do chamado estrangulamento cambial, isto é, incapaz de “produzir” os dólares de que precisa para pagar suas importações e demais compromissos com o exterior. Qualquer outra avaliação do Plano Real, a esta altura, é absolutamente ociosa: o Brasil já está com o futuro comprometido. Já foi colocado em um “beco sem saída” pela política de terra arrasada a que se deu o nome de Plano Real.
Sem futuro - há cinco anos, as multinacionais instaladas no país remetiam US$ 600 a US$ 700 milhões, como lucros e dividendos, para suas matrizes. Por ano. No mês passado, essas mesmas remessas chegaram aos US$ 580 milhões, isto é, em um único mês, tanto quanto se mandava para o exterior em um ano. Resultado: as remessas chegam hoje aos US$ 6 a US$ 7 bilhões anuais, ou dez vezes mais a cifra de épocas recentes. Um salto equivalente, de dez vezes, aconteceu com as remessas de dólares para pagar a “tecnologia” comprada pelas multinacionais, que passaram dos US$ 160 milhões para US$ 1,7 bilhão por ano. Todos esses “rombos”, note-se, somente devem crescer nos próximos anos, já que mal começou, por exemplo, a remessa de lucros das múltis que compraram as estatais do setor de energia elétrica ou telefonia... E já que a recessão reduziu por ora os lucros das múltis que compraram as Dakos, as redes de supermercados, as pequenas fábricas de rações, de salsichas, e outros produtos altamente sofisticados como esses... Enquanto economistas e líderes empresariais mergulhavam no falso debate em torno das “âncora cambial e de juros”, um fenômeno permanente, a desnacionalização e o conseqüente estrangulamento cambial, avançava tragicamente, afundando o país em problemas insolúveis. É essa questão que a sociedade, lideranças políticas e empresariais precisam discutir com urgência.
De mãos atadas - as remessas de dólares, como visto, explodem. As importações não caem, por causa das múltis que compram até as peças de fogões populares. As exportações não sobem, exatamente porque as matrizes das multinacionais determinam qual a filial, de que país, vai abastecer determinada região do mercado mundial (ao contrário das empresas nacionais, como no caso da Coréia, que vão defender os interesses do seu próprio país, isto é, brigam para exportar porque sabem que seu país precisa dos dólares da exportação...). Nunca houve um Plano, Real ou com qualquer outro nome, no governo FHC. Houve uma intenção de estabilizar a moeda, que deu certo até por motivos acidentais. O que houve, realmente, foi a brutal e estúpida adoção do chamado modelo neoliberal, com o escancaramento da economia e a destruição de todos os mecanismos capazes de proteger a produção nacional. Nem a agricultura escapou dessa política de terra arrasada, arruinando-se os agricultores com a extinção da política de compra de colheitas e garantia de preços mínimos. Neste exato momento, os preços do feijão estão 60% mais baixos que no ano passado, e, as cotações do arroz, 15% inferiores... Nem renda agrícola, nem consumo para reduzir a recessão, como o governo e os analistas Polianas previam e insistem em prever... Um otimismo delirante que, seguramente, foi uma das grandes pragas que assolaram o Brasil nos últimos anos, com previsões de resultados favoráveis que nunca se concretizaram, partidas não apenas de figuras do governo como Malan, Kandir, Gustavo Franco, mas também de líderes empresariais e políticos, absolutamente sabujos, além obviamente dos auto-intitulados “analistas técnicos”, também conhecidos como jornalistas chapa-rosa. Autênticos Polianas, por conveniência ou incompetência, que falam em resgate da “credibilidade do país”, fingindo não estar vendo que, nos empréstimos obtidos pelas empresas e governo brasileiro nas últimas semanas, os bancos estão cobrando as maiores taxas de juros de todos os tempos. Segundo os dados que o próprio Banco Central divulgou esta semana, em maio esses empréstimos arcaram com uma “sobretaxa” de 7,68%, acima das taxas de juros do governo dos EUA. No ano passado, essa sobretaxa era de 3,76%. Essa duplicação é o termômetro exato da desconfiança dos banqueiros em relação ao Brasil. Na última terça-feira, a Celesc fechou um empréstimo, com a taxa em exorbitantes 16,5%... Onde o Brasil vai buscar dólares para pagar esses níveis de juros, sobre uma dívida de US$ 250 bilhões? O Real foi um delírio otimista. Que vai virar um pesadelo. Permanente.