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  Reativação mundial e efeitos no Brasil

Jornal Folha de S.Paulo , domingo 30 de janeiro de 1983


É evidente que os estragos causados pelos dois últimos anos da recessão mundial exigirão muito tempo para serem consertados, da mesma forma que não se nega a necessidade de um novo relacionamento econômico mundial. Mas, deixadas de lado essas preocupações, obsessivas para os “tratadistas” não há a menor dúvida de que a economia internacional começou a subir a ladeira – com vantagens e desvantagens para o Brasil. O mesmo processo de “bola de neve” que a puxou para o fundo do poço está em cena – atuando, agora, em sentido inverso. Não há nenhum milagre nessa reviravolta, ainda pouco detectada pelas estatísticas: o cenário para a recuperação foi sendo montado a partir do último trimestre do ano passado, como se procurou mostrar anteriormente em análises publicadas pela “Folha” em Tendências Internacionais.

Matérias-primas
As bolsas internacionais de produtos primários – minerais e agrícolas – estão em plena efervescência, embora os “tratadistas” ainda não o tenham descoberto. Na semana que passou, o cobre atingiu sua cotação mais alta dos últimos 17 meses, avançando quase 10% em cinco dias de negociações. O alumínio subiu 10% na semana – e 40% em quatro meses, alcançando seu preço mais alto desde maio de 1980. Para encurtar a história: todos esses produtos, as chamadas “commodities” entraram em rápida alta de preços na semana, com a exceção óbvia do petróleo, diante do fracasso da reunião da Opep.

Comércio Internacional
É claro que a alta dos preços dos produtos primários vai engrossar as receitas em dólares ganhas pelos países exportadores, principalmente países em desenvolvimento. Ficará mais fácil, para eles, alcançar os superávits na balança comercial exigidos pelo Fundo Monetário Internacional – isto é, eles não precisarão cortar tanto suas importações. Todo o comércio internacional lucrará, poderá crescer mais. Efeitos em cadeia, portanto.

Inflação e Juros
A alta das cotações internacionais é resultado direto da redução das taxas de juros internacionais (quando elas estavam altas, não compensava fazer estoques) e conseqüente queda do dólar no mercado internacional, e conseqüente ainda, esboço de reação na economia dos EUA.

Nas ultimas semanas surgiram indícios claros – como foi previsto em Tendências Internacionais – de que as autoridades monetárias dos EUA e outros países desenvolvidos interromperiam o processo de puxar as taxas de juros para baixo. Já há muita gente assustada com a mudança, afirmando que “os juros altos vão impedir a recuperação mundial”. Não é assim. Acontece que, como os preços internacionais das matérias-primas entraram em alta, isso significa que, forçosamente, os custos de produção das indústrias que as compram subirão. A inflação mundial que (nos países desenvolvidos) caiu para 75% ao ano em 1982, certamente (ou forçosamente) crescerá nos próximos meses. A decisão de não reduzir ainda mais os juros internacionais (e talvez aumentá-los um pouco) tem, portanto, dois fundamentos: de um lado tentar “graduar” a recuperação econômica, impedindo uma aceleração a um nível capaz de puxar violentamente a inflação.

De outro, se os bancos fizerem empréstimos, agora, a juros ainda mais baixos, eles poderão ser surpreendidos, amanhã, com taxas de inflação superiores aos custos dos seus empréstimos – que levarão os investidores a exigirem juros mais altos, na compra de títulos e aplicações através das quais as instituições captam os recursos que emprestam. Em poucas palavras, os bancos poderiam ver-se daqui a alguns meses recebendo juros mais baixos do que o que eles terão que pagar. A suspensão do processo de redução dos juros, por enquanto, é uma medida de cautela, e não uma volta à política de provocar recessões.

Preços do Petróleo
Sua possível queda poderá contribuir para compensar a alta dos preços de outras matérias-primas, reduzindo seus efeitos sobre a inflação mundial.

As previsões pessimistas de que a queda poderá agravar a crise financeira mundial são “caolhas”, olham só um lado do problema. Como assim? Tem-se dito que são os petrodólares recebidos pelos países produtores que vão para o mercado financeiro internacional, permitindo aos bancos conceder empréstimos aos países endividados. Assim – prossegue o raciocínio caolho – se houver menos receita do petróleo, menos dólares, haverá menos dinheiro para atender os países endividados. Vesgueira. Falta de percepção de que os países endividados, por sua vez, se gastarem menos com o petróleo, precisarão também de menos recursos externos, menos empréstimos. Óbvio.

Fala-se muito, também, que países como a Venezuela, o México e a Nigéria enfrentariam problemas para pagar suas dívidas, se os preços do petróleo que exportam caírem dois ou três dólares. A Venezuela tem uma dívida ridiculamente pequena, reservas imensas (US$ 10 bilhões) e saldos positivos na balança comercial (importações menos exportações) de US$7/ 8 bilhões ao ano. Teve que renegociar sua dívida somente porque ela era toda constituída de empréstimos a curto prazo, que os bancos internacionais deixaram de fazer. A situação do México é bastante parecida: ele se encalacrou por causa dos empréstimos a curto prazo e de uma orgia de importações, já cortada no final de 81. Basta ver a facilidade com que ele conseguiu, este mês, mais US$ 7 bilhões em empréstimos novos para 1983 junto a 600 bancos e governos de países desenvolvidos. Ele tem petróleo, não é o Brasil. Resta a Nigéria – em grave crise desde o ano passado, porque seu petróleo sofre a concorrência do petróleo do Mar do Norte.

Mas seu governo, que não sofre do otimismo que campeia em Brasília, cortou drasticamente todos os seus gastos, projetos e orçamentos de 1983. Já previu, em outras palavras, uma receita ultrapessimista para o seu petróleo. A queda não o surpreenderá.

Economia dos EUA
Em janeiro, a produção de automóveis subiu 40%, de 260 mil para 440 mil veículos. A General Motors anunciou que tenciona recontratar 22 mil empregados. São apenas novos indícios de uma reação em marcha.

E o Brasil?
A recuperação da economia internacional pode reduzir as imensas dificuldades para rolar sua dívida externa. Em compensação, deixa uma pergunta no ar:

- O ministro Delfim Neto não conseguiu reduzir a inflação brasileira, na casa dos 100% também em 1982, quando a inflação mundial, em queda, o ajudava, (pois as importações não encareciam); quando as matérias-primas apresentavam seu preço mais baixo dos últimos trinta ou cinqüenta anos (barateando o custo de produção da indústria brasileira); quando o próprio petróleo estava em queda. O que vai acontecer agora, com a alta de matérias-primas, produtos agrícolas nos mercados internacionais e inflação maior no mundo? Sem nada disso, a inflação brasileira caminhou, em janeiro, para a faixa dos 10% ao mês. O que acontecerá daqui para frente?

Desemprego de 14% no Uruguai
O nível de desemprego no Uruguai atingiu a marca de 13,77% no ultimo trimestre de 1982, elevando o índice do segundo semestre para 12,7%, com uma expansão de 1,7% em relação aos primeiros seis meses do ano. Este índice semestral aproxima-se bastante do recorde de 13%, registrado no segundo semestre de 1976.



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