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  Não façam “lobby??. Façam as contas, senhores

Jornal Gazeta Mercantil , segunda-feira 14 de julho de 1975


Não é preciso ser Sherloque Holmes. Basta ser um colecionador de trechos retirados do noticiário diário da imprensa para identificar, com facilidade, os focos de resistência contra as novas diretrizes adotada da política econômica no país – e aos quais o governador Paulo Egydio fez menção, recentemente. Não apenas identificar, mas, e evidente, também avaliar a procedência de suas pretensões, e, mais ainda, ver até que ponto as pressões por eles desencadeadas, inclusive através dos meios de comunicação, não contrariam os interesses do país.

Nem sempre as pressões, ou o “lobby”, na expressão norte-americana, se manifestam claramente, procurando, ao contrário, atingir seus objetivos por caminhos indiretos. Um setor econômico pode declarar-se “em crise”, mostrar-se preocupado com a perspectiva de “desemprego em massa” e com a “queda no ritmo de crescimento da economia”. Usando, em resumo, uma linguagem empolada que leve à impressão de que ele está preocupado com o bem-estar da coletividade, quando, na verdade, ele estará apenas querendo a manutenção de privilégios – ou distorções.

Estão enquadrados nessa categoria os ataques que são feitos, no momento, à construção da “ferrovia do aço”. Páginas e páginas de jornais estão sendo gastos para dizer que a ferrovia custará muito mais que o previsto. Que as obras foram iniciadas sem a existência de um projeto definitivo. Que os prazos previsto não poderão ser cumpridos. A partir de todos esses dados insinua-se textualmente, e não por meias palavras, a “incompetência” ou a “incapacidade” da máquina oficial incumbida do setor ferroviário.

AS MEIAS VERDADES
As análises do programa ferroviário são inconclusivas, não propõem nada, deixam ao leitor a tarefa de raciocinar em torno do problema. Tudo isso, apenas na aparência. A tática do “lobby”, no caso, é vestir a roupagem de defensor dos interesses nacionais, empenhado em evitar desperdícios em obras que estão entregues a órgãos oficiais “incompetentes” ou “incapazes”. Tudo isso, apenas na aparência. Na realidade, induz-se sutilmente a opinião pública a acreditar na necessidade de interromper as obras ferroviárias, para um “melhor planejamento” e um “menor desperdício”.

Obtido esse adiamento, o que sucederia? Os recursos destinados ao setor de transportes voltariam a ser jogados na “fogueira rodoviarista”, na política de desperdício em todos os níveis adotada nos últimos anos. Não é preciso ser Sherloque Holmes para chegar a essa conclusão: basta dar atenção a este trecho do noticiário desta semana, ligado aos “problemas” que as empreiteiras de obras públicas estariam enfrentando: “O Sindicato Nacional da Indústria de Construção e Pavimentação de Estradas está, ainda, preocupado com a decisão do ministro dos Transportes, general Dirceu Nogueira, de limitar a execução de obras de pavimentação, permitindo, apenas, que sejam concluídas as obras de conservação das estradas. Espera que o ministro dos Transportes promova um reestudo nessa área, o que permitiria a duplicação das rodovias São Paulo-Curitiba e Rio-Santos, entre outras”. O trecho, no noticiário original, não foi colocado ao fácil alcance do leitor, e sim no final de um longo arrazoado sobre a “crise” das empreiteiras. No entanto, é ele que importa. É exatamente o “rabo de fora”, deixado pelo “lobby”.

AINDA OS FARAÓS
Diz-se que o governo (federal e nos Estados) abandonou o setor rodoviário. Não é verdade. Não pretende, apenas, construir estradas só para engordar o lucro das empreiteiras. Deseja-se atacar as vias prioritárias, e, principalmente, consolidar as grandes vias abertas aos trancos e barrancos, e ao custo de bilhões de cruzeiros, como a via dos Imigrantes em São Paulo, ou a Rio-Santos. A conclusão de “obras de conservação”, a que o noticiário faz referência, não abrange, assim, meros trabalhinhos de manutenção de estradas, como o mesmo noticiário tenta fazer crêr.

“Obras de conservação” são, na verdade, “obras de consolidação”, que consumirão, igualmente, bilhões de cruzeiros, para evitar que montanhas inteiras desabem na via dos Imigrantes e na Rio-Santos, que aterros imensos sejam tragados pelas enxurradas, que quilômetros de asfalto desapareçam sob o peso dos primeiros veículos.

“As obras de conservação” são, na verdade, as obras de “construção” das rodovias, abertas a toque de caixa, aos trancos e barrancos, devastando e triturando a paisagem, e sem condições de tráfego. Mas essas obras, embora rendam bilhões de cruzeiros, não utilizarão plenamente determinados equipamentos comprados por determinadas empreiteiras, para “rasgar terrenos” (expressão que as transformou em realidade cruel no Brasil) e “pavimentar”. Por isso, as empreiteiras querem a duplicação Rio-Santos, ou da Imigrantes. Não interessa a essas empreiteiras o fim da política de “terra arrasada” que vigorou nos últimos anos.

AS CONTAS A FAZER
Se há obras de consolidação a fazer, no valor de bilhões de cruzeiros, lógico que haverá trabalho para o setor de construção como um todo. Ele não estará em crise, não promoverá dispensas em massa. Mas, e as empreiteiras que se julgam prejudicadas? Terão que “reciclar-se”, e, em lugar de fazerem “lobby” para a “volta ao passado”, procurarem atuar nas demais frentes de obras abertas pelo governo: usinas hidrelétricas; usinas atômicas; saneamento e até ferrovias, somente as obras de engenharia civil da “ferrovia do aço” renderão 9 bilhões de cruzeiros (9 trilhões velhos) às empreiteiras. Para quem se adaptar, poderá restar um único problema: o destino de meia dúzia de máquinas de pavimentação. Mas, através do diálogo, o próprio governo poderá montar esquemas para a “desativação” dessas máquinas, evitando prejuízos às empresas.

Isso não ocorre ao “lobby”, possivelmente porque, dando apoio às empreiteiras rodoviárias, estão interesses mais altos. Os defensores da “mentalidade rodoviarista” dos últimos anos. Os defensores do “modelo concentrador de renda”, que abria mercado para a venda de automóveis – e se apoiava nela, exigindo a abertura de rodovias e a reformulação dos sistemas viários das cidades, enquanto o transporte de massas era negligenciado. Não ocorre ao “lobby” fazer, igualmente, algumas contas que realmente serviriam aos interesses nacionais: mesmo que a “ferrovia do aço” fosse construída sem projeto definitivo (como foram as rodovias), com “desperdícios” de recursos (como ocorreu com as rodovias), o país estaria lucrando.

As rodovias não trazem desperdício apenas na construção: elas são um desperdício permanente (no transporte de grandes tonelagens de carga, frise-se).Um caminhão consome sete vezes mais combustível que um trem, por tonelada-quilômetro transportada. Em outras palavras, consome sete barris de petróleo por cada barril que um trem consumiria. Por causa da mentalidade rodoviarista, o Brasil desperdiça diariamente bilhões de cruzeiros, dezenas de milhões de dólares em combustível. Com as ferrovias, o desperdício cessaria.

É talvez por pudor que o “lobby” rodoviário não conclui as análises que vem divulgando em alguns veículos de comunicação. Pois a única conclusão possível seria esta: se há atrasos, se faltam recursos para a “ferrovia do aço” e as demais obras ferroviárias, há que tirar o atraso, há que destinar ainda mais recursos ao setor. E não adiar obras. Não é isso que interessa ao Brasil. Nem à economia, e nem às empresas do País.



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