Jornal Folha de S.Paulo , domingo 6 de junho de 1982
Os ministros da área econômica, em conversa com líderes empresariais, vêm pedindo que eles repitam, por aí, em entrevistas, reuniões etc., que o governo realmente criou o Finsocial (Fundo de Investimento Social) porque se preocupa com os problemas da população, e não tinha dinheiro para enfrentá-los. Mais ainda: pediram que se convença a Nação de que o atual governo só herdou dívidas, grandes projetos em andamento, e por isso nunca teve condições de fazer nada, na área social.
Mesmo que isso fosse verdade (e não é), as desculpas ora apresentadas por Brasília – as vésperas das eleições – são apenas um auto-atestado de incompetência. Antes de mais nada porque é preciso lembrar – neste País de memória curta – que, antes mesmo de assumir, o governo Figueiredo divulgou documentos chamados "Diretrizes de Política Econômica". E, nessas diretrizes, estava prevista a realização de uma reforma tributária, com o duplo objetivo de proporcionar recursos ao governo e de fazer justiça social.
Como também estavam previstas medidas para reduzir a dívida interna do governo – hoje da ordem de Cr$ 4 trilhões, tanto quanto toda a arrecadação da União, em um ano, e que custa outros Cr$ 4 trilhões por ano, em juros e correção monetária. As mesmas diretrizes, ainda, previam redução dos privilégios, com a redução de impostos concedida nas exportações – efetivamente implantada pelo ex-ministro Simonsen e cancelada pelo ministro Delfim Neto.
As distorções
Pode-se dizer que o atual governo, ao assumir, tinha um dos mais perfeitos diagnósticos dos problemas brasileiros dos últimos tempos – e suas diretrizes, baseadas nesse diagnóstico, reduziriam sensivelmente todas as distorções e pontos de estrangulamento da economia brasileira. Mas, a partir da queda de Simonsen, as diretrizes foram jogadas no lixo: a reforma tributária foi sabotada pelo ministro da área econômica: quem ganha 400 milhões por ano, hoje, continua a pagar 1,03% ao Imposto de Renda. A improvisação, a moda de "empurrar com a barriga", impediu qualquer mudança de profundidade: ao contrário, ela foi exigindo remendo sobre remendo, sempre é claro, em benefício de poucos e em prejuízos do País.
O governo não tem dinheiro? Basta abrir os jornais, de qualquer dia, e ver para onde vai o dinheiro, neste País. Por exemplo: esta semana, o governo confessou que vai "doar" US$ 170 milhões aos usineiros, ou quase Cr$ 30 bilhões. Para quê? Só para cobrir os "prejuízos" que eles vêm sofrendo nas exportações, por causa da diferença entre o custo do açúcar brasileiro e as cotações mundiais. E, não custa lembrar – neste País sem memória – que os usineiros embolsaram outros bilhões de cruzeiros do governo, conseguindo financiamentos a juros de 12% ao ano – com a diferença, entre essa taxa e a inflação, paga pelo Tesouro.
Os usineiros precisam dessas ajudas? Não há quem não saiba que, no Brasil, as usinas vêm comprando mais e mais terras, com expulsão do pequeno produtor. Quer dizer, o governo diz não ter dinheiro para planos de colonização, para resolver questão fundiária, para apoiar o pequeno produtor (um dos “alvos” declarados do Finsocial). No entanto, o governo "doa" dinheiro às usinas, para fazer uma reforma agrária às avessas, que agrava o êxodo rural – e os problemas sociais.
O "modelo"
O caso dos usineiros é apenas um exemplo de uma série interminável. Porque tudo é assim, no modelo, ou falta de modelo, da chamada Secretaria do Planejamento – que, no entanto, não é a única culpada da situação, na medida em que seus atos desastrosos estão aí, ao longo de três anos, sendo sancionados, aprovados pelo governo como um todo.
Se o governo Figueiredo não teve dinheiro para enfrentar os problemas sociais, foi por sua própria culpa, porque abandonou suas diretrizes e permitiu a permanência e o agravamento de um modelo "maldito". Admita-se, porém que a criação do Finsocial seja um "remendo" (porque as mudanças deveriam ser profundas) bem intencionado. Um desejo verdadeiro de mudar?
Para que isso acontecesse, seria preciso que, ao menos, houvesse mudanças nos critérios de arrecadação e nos critérios de captação de recursos – para que o Finsocial não se transforme em mais um excelente negócio para os negociateiros do País, e pouco ou nenhum proveito para o povo.
As mudanças - O que isto quer dizer? O Finsocial, como se sabe, concentraria investimento nas áreas da habitação popular, saúde, educação, alimentação e apoio ao pequeno produtor. Sobre este, já se mostrou a razão de seus problemas. O que se deveria fazer em cada uma das outras áreas?
Habitação — tradicionalmente, o dinheiro do governo é utilizado na construção de – caríssimos – conjuntos habitacionais, ótimo negócio para as empreiteiras, os especuladores com terrenos etc. O problema da habitação popular deveria ser enfrentado através de políticas semelhantes às que o governo Geisel tentou implantar (e obviamente foram abandonadas, depois de 1979), sobretudo o Programa de Lotes Urbanizados. Por ele, os financiamentos são concedidos, à população de baixa renda, para a compra de terrenos em loteamentos feitos por prefeituras, governos estaduais – ou mesmo por particulares.
O próprio interessado pode construir sua casa, em regime de "mutirão" – com todo o material comprado para pagamento também a longo prazo, com financiamento do governo, do BNH. O comprador gasta um mínimo para construir sua casa, resolve seu problema de habitação, e há dinheiro para atender a maior número de interessados. Lógico que isso não dá lucro aos grandes grupos, como é filosofia do "modelo" da Seplan.
(Se o governo Figueiredo tivesse adotado essa política, o mar de dinheiro aplicado pelo BNH nos últimos anos teria contribuído decisivamente para aumentar o número de moradias. O que demonstra, mais uma vez, que o problema do governo não é a falta de dinheiro, e sim o uso de recursos em benefício dos grandes grupos).
Saúde — o mesmo raciocínio é válido. O governo pode concentrar recursos no combate a endemias, na disseminação de serviços médicos, postos de Saúde, ambulatórios em instalações baratas, simples, no interior (como o ex-ministro Rangel Reis fez no Nordeste). Ou pode continuar engordando a fortuna das redes de hospitais de concreto aparente e vidro fume, erguidos nas grandes cidades com dinheiro do INPS, em poucos anos.
Alimentação — idem, ibidem. O governo pode distribuir "selos", como nos EUA, para as populações pobres comprarem alimentos básicos nos empórios, quitandas, mercearias, supermercados – permitindo que também o pequeno empresário, a pequena empresa, se beneficie com o programa. Ou pode fazer o que fez até hoje: encomendar caríssimos alimentos industrializados (leite em pó, leite de soja, conservas etc.), fabricados pelos grandes grupos e cujo valor alimentício vem sendo contestado por órgão do próprio governo.
Em conclusão: não faltam recursos ao governo. O que falta é optar entre reduzir os problemas sociais ou aumentar o lucro dos grandes grupos. Se isso passasse a ocorrer, no Finsocial, estaria havendo preocupação com os problemas sociais. Os recursos do governo estariam sendo aplicados de forma correta, nas soluções que oferecem – atenção – o menor custo.
Ainda assim, o Finsocial seria apenas um remenda. A solução definitiva é a adoção de um modelo econômico digno desse nome.