Jornal Folha de S.Paulo , segunda-feira 8 de fevereiro de 1982
Numa demonstração de que o País amadureceu, ganhando condições para tratar de temas antes espinhosos, empresários nacionais e empresas multinacionais sentaram-se à mesa, no ano passado, para definir o papel que o investimento estrangeiro deve desempenhar dentro da economia nacional. O encontro de opiniões, promovido pela Federação das Indústrias de São Paulo, aparentemente servira para sacramentar regras de convivência entre capital estrangeiro e capital nacional tentando-se deixar para trás a fase de beligerância, alimentadora de indisposições e preconceitos nem sempre justificáveis em relação as multinacionais.
Há, neste momento, clara ameaça de ruptura desse ponto de equilíbrio, numa reviravolta que poderá criar pontos de atrito que não interessam ao País, inclusive por seus reflexos na área política. O empresariado nacional volta a sentir-se ameaçado em sua sobrevivência, constatando que o País entra em nova fase de "desnacionalização acelerada" — como em 1968 — por ação ou omissão do governo.
Nas últimas semanas, sucederam-se os fatos que apontam nessa direção: duas empresas líderes em seus setores, a Cimetal (maior exportadora de gusa do País) e a Ciferal (grande produtora de carrocerias) ameaçam fechar as portas. A Equipetrol, especializada em equipamentos para a pesquisa de petróleo, foi vendida á Armco. Uma subsidiária da Petrobrás, dedicada à exploração de linhas de transporte entre as plataformas submarinas e as instalações em terra firme, foi vendida ao famoso armador Y. K. Pao. Estourou o "escândalo da Transit", poucas semanas depois das denúncias de um empresário paulista, do mesmo setor, contra a asfixia de sua empresa por órgãos do governo — e coroando, ainda, os problemas criados para a Cobra, empresa formada no governo Geisel sob controle estatal, para atuar na produção de computadores e processamento de dados.
Há toda uma série de explicações para as dificuldades enfrentadas pelas empresas: má administração, retração no mercado, corte de encomendas do governo, custo do dinheiro etc. Não cabe, aqui, analisar caso por caso, ou as circunstâncias específicas presentes em cada um deles. O que importa, para o País, é constatar que há um dado constante a ligar todas essas empresas em dificuldades: elas tinham posição de destaque na tentativa de criação de tecnologia para o País, e seus problemas abrem espaço para a atuação de multinacionais.
A apatia, ou a agressividade grosseira, com que os ministros da área econômica vêm interpretando as dificuldades dessas empresas é, por isso mesmo, altamente reveladora. O País fica mais e mais distante do período Geisel em que — embora não se queira reconhecê-lo — houve a preocupação de delimitar áreas de atuação para o capital nacional a partir da consciência — que o diga o ex-ministro Severo Gomes — de que um país comprador de tecnologia importada poderá ser uma potência, "nas estatísticas", mas não passará nunca da condição de republiqueta dependente, na realidade.
Por isso, houve na época tantas brigas com indústrias internacionais de equipamentos, com as multinacionais produtoras de computadores, que acusavam o Brasil de fazer "reserva de mercado" para suas empresas e "discriminar contra o capital estrangeiro". Ocultava-se, no governo Geisel, que não há tecnologia nacional sem empresa nacional. E que a ausência de tecnologia nacional condenaria o País à posição de eterno importador de equipamentos mais e mais sofisticados.
A orientação hoje é inversa: basta ver que, na transferência da Equipetrol e da subsidiária da Petrobrás, houve protestos de empresários nacionais do mesmo setor, contra o sigilo em torno da venda a empresas estrangeiras. Se a intenção de venda tivesse sido divulgada, também eles, grupos nacionais, se candidatariam à operação, numa atitude que aparentemente deveria merecer o apoio de um governo que diz estar "nacionalizando o Jari" (pelo jeito, só o Jari...). A Fiesp já descobriu que, enquanto o País discute problemas de curto prazo, como a inflação ou o custo do dinheiro, temas que determinarão o futuro do país permanecem esquecidos.
Os entraves tecnológicos
O "caso Transit”, deixando-se de lado aspectos policialescos, dá bem uma idéia de como uma empresa nacional pode ser esmagada pela ação ou omissão do governo, deixando o caminho aberto para as multinacionais: a Transit, única fabricante brasileira de determinados microcomponentes eletrônicos, ofereceu seu produto a uma indústria de televisores pertencente a um grupo nacional, porém associada a um grupo multinacional, que fornece toda a tecnologia de fabricação — inclusive, é evidente, as peças e componentes sofisticados.
A indústria de televisores brasileira avisou que "por ela" estava tudo bem, mas que o microcomponente deveria ser enviado ao país de origem da multinacional, para ser testado nos laboratórios de lá – uma exigência contida no "acordo de acionistas" entre a multinacional e a nacional. Uma prática — comum nos "acordas de acionistas" — para impedir que surjam indústrias nacionais nas áreas de tecnologia sofisticada, para eternizar a dependência em relação aos fornecimentos do exterior. Como ocorreu no caso da Transit, que logicamente não conseguiu fornecer à "indústria brasileira".
As multinacionais estão defendendo os seus interesses. Os interesses do Brasil estão nas mãos dos ministros da área econômica.