Jornal Folha de S.Paulo , terça-feira 23 de outubro de 1984
Nos últimos anos, em várias oportunidades, o governo brasileiro adotou mudanças radicais em sua política econômica sem anunciá-las à Nação, e muitas vezes negando, mesmo, essas “viradas” – inclusive para evitar reações da sociedade (uma postura típica de regimes totalitários). O último exemplo radical desse comportamento foi o “pacote” do final do ano passado, acertado com o Fundo Monetário Internacional, que representava autêntico “tratamento de choque” para a economia brasileira, sem que fosse anunciado como tal, tanto que, nos últimos meses, ainda havia economistas “ortodoxos” pedindo aquele tratamento radical, ignorando que ele já fora posto em prática. Agora, neste momento, e também sem anunciá-lo oficialmente, o governo dá início ao processo de extinção da correção monetária, no País, na tentativa de reduzir rapidamente as taxas de inflação, daqui para frente. O silêncio está errado. A decisão de extinguir a correção monetária está certa – e não vai prejudicar a ninguém, nem mesmo aos aplicantes de cadernetas de poupança (principal preocupação existente no país, quando se fala em mexer na correção).
De onde se pode tirar a conclusão de que o governo deu início ao processo de extinção da correção monetária? Do próprio encaminhamento das conversações com os empresários, para a contenção da inflação – como se explicará, adiante. Antes, é preciso justificar a afirmação de que o fim da correção monetária seria, hoje, um bem para o País.
A esta altura, pode-se dizer que a inflação brasileira é um “estado de espírito”. Não há nenhum “psicologismo” na afirmação: ela é uma constatação. Como assim? Com anos e anos de altas taxas inflacionárias, e sua escalada vertiginosa dos três últimos anos, todos os segmentos da sociedade passaram a “raciocinar”, “reagir instintivamente”, em termos de “compensação pela inflação passada”. Mais claramente: um fabricante de calçados, que enfrente um aumento de custos de 5% na produção desse bem, em um determinado mês, deveria reajustar seus preços apenas nessa base. Mas não é o que ele faz. Se, naquele mês, a taxa de inflação – e a correção monetária – forem de 10%, ele aumenta seus preços em 10%, porque não quer “ficar para trás” dos demais preços. Há um raciocínio invisível, “embutido” nesse comportamento: o fabricante quer que o valor de seus sapatos acompanhe o valor dos demais bens, pois do contrário ele precisaria vender mais sapatos para consumir a mesma quantidade de bens. Da mesma forma, um agricultor quer reajustar os seus preços, todos os meses, de acordo com a inflação do mês anterior (equivalente à correção monetária), e não de acordo com o aumento de seus custos – porque acha que, “se tudo subiu 10%”, ele não pode ficar para trás, pois poderá comprar menos bens com o valor de venda de suas safras. Da mesma forma reagem os médicos, as lanchonetes, os comerciantes etc.
Qual é o grande engano desse comportamento coletivo adotado, hoje, pelo povo brasileiro? Acontece que a taxa de inflação sempre foi, obviamente, a “soma”, ou mais precisamente a “média”, dos aumentos de preços ocorridos em todos os setores da economia de um país. Isto é: em alguns setores, há aumentos (porque seus custos subiram) de 10, 20 ou 30%; em outros, aumentos de apenas 5% - e, em outros, pode até haver, mesmo, queda de preços – sempre por circunstâncias de mercado. Com isso, há períodos de taxas de inflação em alta, e taxas de inflação em baixa.
No Brasil, como se disse, a inflação virou “um estado de espírito”: todos procurando reajustar seus preços de acordo com a “inflação passada”, a “inflação velha”, do mês anterior. É lógico que a inflação futura não tem chance de cair: a “inflação velha” passa a ser um “piso”, que não se consegue romper.
As novas iniciativas oficiais de combate à inflação partem claramente dessas constatações – levantadas, possivelmente, pelo Fundo Monetário Internacional. É esse o sentido das afirmações do ministro Delfim Netto, de que agora o que vai valer é a “inflação nova”, isto é, os reajustes de preços não devem mais ser feitos com base na correção monetária do mês anterior, e sim dos aumentos de custos previstos, para cada setor e segmento da sociedade, no próprio mês corrente.
A possibilidade de êxito dessa orientação é maior do que possa parecer, à primeira vista. Deve-se lembrar que, hoje, as indústrias já reajustam seus preços continuamente, da mesma forma, a renda dos exportadores é “reajustada” permanentemente, através das minidesvalorizações do cruzeiro, enquanto o comércio também reajusta preços livremente. Quer dizer: não haverá prejuízos, para indústria, comércio e exportadores, com os reajustes de preços com base apenas em seu aumento de custo, ou com a “inflação nova”, pois não há “perdas” velhas a repor. Para eles, não há motivos para a sobrevivência da correção monetária. E os assalariados? Para eles, continuará a haver reajustes de acordo com a “inflação velha”, ou com o custo de vida “velho”, como sempre aconteceu – mesmo quando ainda não havia sido inventada a “correção monetária”. Idem para os reajustes de aluguéis. E as cadernetas de poupança? Por exemplo, o processo de extinção da correção monetária apenas começou, e nada mudará para as cadernetas. Quando – e se – a inflação cair verticalmente, haverá um rendimento compatível com a inflação, para os poupadores, como ocorre em qualquer outro. Não haverá prejuízo para eles.