Jornal Folha de S.Paulo , sábado 1º de maio de 1999
Aproveitando-se de um momento de distração dos colegas, o jornalista Daniel Lobato conseguiu aproximar-se do senador Antonio Carlos Magalhães, no momento em que ele saía de seu gabinete no Congresso: – Com licença, senador. Tenho visto suas declarações contra a interferência do Fundo Monetário Internacional nas decisões do governo brasileiro... E, além disso, tenho lido também que freqüentemente o presidente Fernando Henrique Cardoso convida vossa excelência para trocar idéias em momentos importantes e... – O que o sr. deseja, afinal? –... Bom, eu não incomodaria vossa excelência se não considerasse realmente importante para o país... O sr. chegou a ver que os preços do petróleo já subiram mais de 80%, isto é, praticamente dobraram de US$ 10 para mais de US$ 18 o barril, de janeiro para cá? – E daí, rapaz? – Bem, como o sr. sabe, o Senado e a Câmara dos Deputados aprovaram o fim do monopólio de exploração do petróleo, em 1995. Agora, já no próximo mês de junho, a Agência Nacional do Petróleo, presidida pelo sr. David Zylbersztajn, vai realizar um leilão para “vender”, principalmente a multinacionais, o direito de explorar petróleo em áreas que foram “tiradas”, tomadas da Petrobrás, que as havia descoberto... – Ihhhh, rapaz. Já sei: lá vem você com essa história de defender a Petrobrás e a conversa toda contra as privatizações... – Não, não, senador. Juro que não é isso. Vamos esquecer a Petrobrás. Eu quero falar, juro, é dos interesses da sociedade brasileira... A questão, senador, é outra: o problema não é a privatização, mas a forma como ela está sendo feita... O senador refreia a impaciência e dispara: – Desembucha rápido... –... Bom, senador, eu fiquei animado com suas declarações sobre “soberania nacional” e achei que o sr. poderia conversar com o presidente Fernando Henrique, que tanto dialoga com o senador... – Ora, meu filho... Para falar de petróleo? Ele tem assessores especialistas no assunto e... – Pois é, senador. Eu resolvi falar com o sr. exatamente porque nem sempre os assessores fornecem todas as informações ao presidente – e, às vezes, eles parecem estar até mal-informados... Eu fiquei preocupado exatamente porque tenho visto umas entrevistas do sr. David Zylbersztajn nas últimas semanas... – Como assim? O jornalista Daniel Lobato hesita um momento, mas prossegue: – Como o sr. sabe, entre as áreas que vão ser leiloadas, há até algumas que ficam em regiões que são absolutamente fantásticas, como a bacia da plataforma submarina de Campos... – Sei muito bem. Em Campos existem poços que produzem até 10 mil barris de petróleo por dia. Cada poço! Fabuloso, igual aos poços fantásticos da Arábia, Iraque, Kuait... – Pois é, senador. Acontece que os lances iniciais para o leilão, apresentados pelas multinacionais, são ridículos: ficaram entre R$ 50 mil e R$ 150 mil. Tostões, pelo direito de explorar campos petrolíferos que valem fortunas... E onde a Petrobrás gastou bilhões de reais ao longo de duas ou três décadas... – Eu sabia: lá vem Petrobrás... – Não, não, senador. Ninguém está querendo defender a Petrobrás. É isso o que eu quero deixar claro: se a exploração do petróleo também for privatizada a preço de banana, quem perde os bilhões e bilhões de reais já gastos é toda a sociedade brasileira, não a Petrobrás... É isso o que tem sido esquecido nas privatizações: é o patrimônio coletivo, pertencente à classe média, trabalhadores, empresários, agricultores, que está sendo "doado", a multinacionais ou grupos privilegiados. Perde-se uma dinheirama, que poderia ser utilizada para o “ajuste da economia”, para reduzir a recessão... Para o bem da sociedade, enfim... Menos impaciente, o senado interrompe Daniel Lobato: –... Mas por que eu preciso conversar com o presidente FHC? – O próprio presidente da Agência Nacional do Petróleo, o sr. Zylbersztajn, tem dito em entrevistas que de fato os preços oferecidos estão muito abaixo do esperado... Mas, ao mesmo tempo, diz que está tudo certo, porque o valor do petróleo está caindo no mercado mundial... O sr. entende? Acontece que a cotação do petróleo já subiu 85% e o governo brasileiro diz que o negócio é aceitar “preços de banana”, mesmo... Aparentemente, o sr. Zylbersztajn está mal-informado. Será que não está acontecendo o mesmo com o presidente FHC? É essa informação que eu gostaria que o sr. levasse a ele... a tempo de obrigar as multinacionais e grupos brasileiros a pagar um preço justo no leilão... – Vou pensar. Agora... O jornalista Daniel Lobato faz um gesto de pedido de paciência, com as mãos e finaliza: –... Só mais uma coisa, senador. Até na Inglaterra de Margareth Thatcher, a “Dama de Ferro”, a privatização não foi feita com a venda das estatais a poucos grupos. O governo inglês vendeu ações a milhões de cidadãos, para evitar a concentração da renda, o enriquecimento de poucos. Um “capitalismo” em benefício de toda a sociedade... – Ah, retruca o senador, mas aqui o brasileiro não gosta de comprar ações... – Pois é, senador. Mas na Inglaterra (e em outros países), exatamente pra vencer esse preconceito, o governo arrumou soluções. Com Thatcher, o governo inglês se comprometia a recomprar as ações, depois de algum tempo, de quem não quisesse ficar com ela. Para “conquistar” os investidores, dispunha-se a pagar juros acima das taxas internacionais na hora da recompra. O êxito foi total. Por que não faz isso aqui? Por que a privatização no Brasil está privilegiando multinacionais e poucos grupos – que geralmente nem sequer têm dinheiro para honrar suas dívidas? Despedindo-se, o senador prometeu pensar no caso.