Jornal Diário Popular , sexta-feira 14 de julho de 2000
A indústria têxtil voltou a desabar 25% no primeiro semestre deste ano. Os supermercados venderam 2% a menos, e indústrias de alimentos, no sufoco, só não quebram porque são compradas por grupos estrangeiros e as operações acabam disfarçando as falências e respectivas estatísticas. As montadoras de automóveis, depois de reduzirem a produção pela metade no ano passado, agem agressivamente para reconquistar o consumidor, com preços promocionais e juros abaixo dos 2% - mas já em junho, ainda 20%abaixo dos níveis de 1998, reencontram o caminho da retração, com queda nas vendas.
A produção de eletrônicos tradicionais, como televisores e aparelhos de som, não passa de uma sombra do que foi, com os níveis também reduzidos à metade. Afinal, como é possível que mesmo com esses desastres setoriais, as estatísticas do governo e de entidades empresariais apontem para a pretensa recuperação da indústria e da economia? Ou, melhor ainda, afinal, quais setores estão realmente tendo um desempenho satisfatório e tingindo as estatísticas de cor de rosa? Aqui, há duas situações diferentes a dissecar. Existem (raros) setores que efetivamente têm aumentado as vendas e a produção. Mas predominam setores em que o crescimento de faturamento é mera ilusão estatística: não estão aumentando nem a produção, nem as vendas, nem o nível de emprego, nem as exportações. Como assim? Há produtos que tiveram fortíssima elevação de preços, muito acima da taxa de inflação, tanto aqui dentro como nas exportações, principalmente por causa de disparadas no mercado internacional.
Em todos esses casos, obviamente o faturamento das empresas e seus setores cresceu violentamente apenas porque os preços das mercadorias foram reajustados. Uma ilusão estatística ou uma distorção estatística que nunca é lembrada. Por quê? Geralmente, as estatísticas já ‘‘descontam’’ a inflação. Para fazer esse desconto, porém, os institutos de pesquisa e entidades empresariais usam um índice de inflação geral, o IPA-Índice de Preços no Atacado, ou o IGP-M. Com esse critério, o valor das vendas sofre uma redução igual, apenas, à inflação de 10%ou 15% embora tenha havido, como no caso do alumínio, um aumento de preços de 60% — o que significa que uma diferença de 50% não é descontada, e cria a ilusão de que o faturamento cresceu tudo isso por causa de um aumento na produção que não houve.
Com as exportações, ocorre a mesma coisa: o governo vem trombeteando que o valor das exportações indústrias está crescendo 20% este ano, graças à maxi ou ao apoio oficial. Pura ilusão, ou mistificação. Na verdade, a disparada dos preços internacionais responde pela maior parte daquele avanço, vale dizer, o aumento na quantidade exportada é mínimo — consequentemente, é mínimo o avanço da produção e do nível de emprego. E os setores que realmente têm aumentado sua produção? Sua análise fica para amanhã.