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  A indústria reage após a desova dos estoques

Jornal Folha de S.Paulo , domingo 13 de setembro de 1981


“Estamos sendo obrigados a avisar que só podemos entregar tecidos às confecções com atraso de um mês: nossa produção de ’jean indigo’ já voltou aos níveis de 100%, e, dos demais tipos, a 80%." A revelação do gerente de mercado das Empresas Têxteis Santis, Antonio Miguel Canteras, reafirma as informações de empresários e executivos, segundo as quais a economia brasileira já iniciou um ciclo de recuperação, após as seguidas quedas sofridas nos primeiros meses do ano.

Luciano Leone, gerente de vendas das indústrias Klabin, fornecedora de papel de embalagem, admite que a retomada na produção já está chegando a todos os setores: as encomendas de papel de embalagem, que sua empresa produz, são tomadas como um “instrumento de avaliação” do desempenho nas diversas áreas industriais, já que os produtos saídos da s fábricas precisam ser embalados:

– O nível de encomendas voltou a crescer, diz Leone, numa informação que é confirmada, com dados pela Associação Brasileira de Papel Ondulado: em julho, a produção subiu 13% em relação a junho, oscilando ligeiramente em agosto, com 11% também em relação a junho. Isso indica que os diversos setores industriais esgotaram os estoques de suas próprias mercadorias, e retomam a produção, precisando de embalagem para os novos produtos.

Começou em julho
O esgotamento dos estoques que as indústrias haviam acumulado é confirmado até por setores como a petroquímica e plásticos, atingido pela segunda maior queda na produção ao longo do ano, logo depois da indústria automobilística. Segundo os especialistas, o fenômeno é ainda mais significativo, para a retomada da economia, porque essa desova forçosamente foi precedida pelo esgotamento dos estoques do comércio, que só aumenta suas encomendas quando volta a dispor de um nível normal de mercadorias.

Os dados da Federação do Estado de São Paulo mostram que, realmente, a reativação na demanda, essencial à recuperação da economia, já se esboçara em julho, isto é, há dois meses atrás. Naquele mês, o comércio da região metropolitana da Grande São Paulo vendeu 5,6% a mais que em junho em termos reais, isto é, descontada a alta de preços. Uma recuperação obtida, pois, ainda, atingiu a nada menos de nove dos subsetores do comércio, com um avanço surpreendente de quase 20% para as vendas dos supermercados, e de 17% para as lojas de móveis e decoração.

Inaugurada há dois meses no comércio, sem que se fizesse alarde da nova tendência, a reativação agora chega à indústria. Mais otimistas, ou menos pessimistas, os empresários suspiram aliviados , porque a “economia parou de cair”, afastando os temores, por ora, de que ela mergulhasse em uma recessão sem limites, com o desemprego e a crise social agravando-se de forma incontrolável. Mantendo uma atitude de cautela, no enteanto, fazem questão de friasar que “houve melhora em relação ao primeiro semestre”, mas nada indica que a economia volte aos níveis de produção de 1980. De qualquer forma, acreditam que a recuperação deve acentuar-se neste final de ano, por força de fatores diversos, entre os quais citam a redução na cobrança do Imposto de Renda na fonte, a partir de outubro, a intensificação dos gastos públicos, o aumento do poder aquisitivo de (...) categorias profissionais com (...) nesta época (...) própria atitude mais otimista(...).

Lojistas esperam vender mais
O perfil psicológico do consumidor já mudou. A crise que antes se traduzia em clima de insegurança em relação ao futuro, na (...) do desemprego e, conseqüentemente, na (...) a qualquer compromisso de ordem financeira, aparentemente, já (...) digerida. Certamente a população terá agora melhores condições para programar suas compras, que deverão ocorrer no último trimestre do ano. O que não significa que não vai manter a ponderação na escolha, verificada este ano.

Essa é a opinião do diretor de Marketing das Lojas Arapuá, Marcos Gouvêa de Souza. Ele acredita que, com a aproximação do final do ano, o mercado tende a reagir, pois o “processo psicológico” a que o consumidor foi submetido se dividiu em duas fases. Inicialmente, a população teve que aceitar a crise, convencer-se da realidade nova, para depois aprender a conviver com ela”, diagnostica.

Da ótica empresarial, no último trimestre deste ano, será possível utilizar bases mais realistas para a avaliação do desempenho das atividades. “Até outubro de 1980, a demanda permaneceu extremamente aquecida, já que o consumidor estava sendo induzido às compras, por falta de alternativas de investimento”. Com isso, qualquer dado estatístico relativo a desempenho da economia durante os nove primeiros meses deste ano era distorcido”, pondera o diretor de marketing da Arapuá. Já a partir do próximo mês, será possível avaliar corretamente o comportamento das vendas que, para Gouvêa, se situará num patamar mais próximo da realidade, contra o “aquecimento” artificial de 1980.

A avaliação de Marcos Gouvêa se baseia num desempenho do mercado varejista do ramo durável, que inclui eletrodomésticos e artigos de mobiliário. Segundo ele, a comercialização de móveis foi extremamente prejudicada, até julho, pela agressiva estratégia de vendas das indústrias de eletrodomésticos. As sucessivas promoções de vendas de televisores e aparelhos de som, entre outros, inibiram as vendas dos móveis, que tiveram ainda seus preços elevados em níveis acima da inflação, por causa do crescimento dos custos de produção.

Para Gouvêa, a situação agora tende a se inverter, já que os preços dos eletrodomésticos estão sendo sucessivamente reajustados pelas indústrias que tentam agora compensar a defasagem causada pelo controle exercido antes sobre a sua comercialização, pelo Cip.

Marcos Gouvêa acredita que o consumidor estará, a partir de outubro, em boas condições financeiras para realizar suas compras. Para essa avaliação, ele se baseia em dados divulgados pelo Serviço de Proteção ao Consumidor – SPC – da Associação Comercial de são Paulo: embora tenha havido uma queda no número de consultas (7,9%) entre janeiro e julho últimos, houve no mesmo período uma redução d e 7,8% no número dos “novos negativos”, isto é, dos que não pagaram suas prestações em dia. Além disso, naqueles meses, houve um crescimento de reabilidtados (que pagaram suas contas em atraso) de 21%. Este fato, associado ao crescimento da renda real daqueles que permaneceram em seus empregos, “nos oferece elementos para estimar que o comportamento da economia nos próximos meses será positivo”.

Oferta e procura
A estabilização do nível dos estoques em poder das indústrias de eletrodomésticos, nos últimos três meses, é vista pelos empresários como indício de que esse setor já atingiu o equilíbrio entre a produção e a demanda por seus produtos. Segundo boletim divulgado pela Abinee – Associação Brasileira da Indústria Eletroeletrônica – , os estoques de televisores em cores em poder das fábricas era de 68 mil em maio, 50 mil em junho e de 60 mil em julho. As vendas efetivadas nos mesmos períodos foram de 90 mil (maio), 94 mil (junho) e 75 mil (julho).

O faturamento do comércio da capital paulista mostra que, na verdade, o consumidor voltou a comprar já há dois meses, em julho, sem que a nova tendência fosse oficialmente reconhecida pelos empresários e entidades de classe. Dados divulgados somente no começo de setembro pela Federação do Comércio, sobre o movimento de vendas na Grande São Paulo, revelam uma recuperação geral, com crescimento real, isto é, descontada a alta de preços, de 5,6% em relação a junho.

Dos onze setores pesquisados, nada menos que nove venderam mais naquele mês, num desempenho que poderia ser considerado surpreendente, ante o pessimismo generalizado externado, à época, pelos empresários. O maior avanço, de 21% em termos reais, foi conseguido pelo setor de supermercados, outro dado surpreendente, visto tratar-se de um dos setores que mais têm protestado contra a “crise provocada pela política econômica”.

No caso, houve aumento nas vendas, até em relação a 1980: mais 18%, em termos reais, sobre julho do ano passado.

A recuperação beneficiou outro setor que vinha “desabando”, no primeiro semestre: moveis e decorações conseguiram vender mais 17% sobre junho. Segundo o especialista (ver matéria nesta página), grande parte da queda sofrida pelo setor, nos primeiros meses do ano, decorreu da preferência do consumidor pelas compras de eletrodomésticos (sobretudo televisores em cores), ante a agressiva estratégia adotada pelas fábricas e comércio para desovar os estoques desses produtos, como a venda a prazo em oito pagamentos em juros. A “virada” em favor das compras de móveis, segundo esses analistas, deve acenturar-se, daqui para a frente.

As lojas de cine-foto-som e óticas conseguiram um resultado mais modesto, porém ainda positivo, com 4,8% de avanço sobre junho, enquanto as revendedoras de veículos acusavam uma estabilização (0,06%) em relação a junho. Neste caso, porém, confirmando a crise que o setor enfrentava e enfrenta o movimento, em relação a julho de 80, foi 42% inferior.

As duas únicas quedas ocorridas em julho atingiram os setores de tecidos (menos 8,44%) e calçados (menos 18,8%). Trata-se no entanto, dos dois setores que vinham fugindo totalmente à tendência de retração (...) que se poderia supor, ante as queixas das empresas do ramo. Mesmo com o recuo em relação a junho, o setor de tecidos ainda vendeu mais, em julho de 81, do que em igual mês de 80 (mais 2,3%), acumulando uma perda de apenas 1,7%, no faturamento dos sete primeiros meses do ano, em relação ao mesmo período do ano passado. Quanto aos calçados, mesmo com a queda de 18,7% em relação a junho e de 6,7% em relação a julho de 80, eles continuam a apresentar crescimento de 2,7% em relação aos pri (...)

Jeans, de novo a todo vapor
Depois de atravessar os anos 70 com taxas de crescimento anual nunca inferiores a 20%, as fábricas de tecidos jeans vão fechar 1981 com produção 10% maior do que a de 1980. O resultado poderia parecer negativo, mas é saudado com alegria pelas empresas do setor, depois das perspectivas de grande queda que marcaram o primeiro semestre do ano.

Melhor alternativa do setor para o mercado nos últimos anos, os tecidos jeans significam 40% da produção total destinada à indústria de vestuário (exceto camisas): nada menos do que 68 milhões de calças de jeans-indigo (o legítimo) são vendidos anualmente, aproveitando os 108 milhões de metros quadrados de tecido, ao lado de outros 100 mil feitos com os demais tecidos (jeans color, brings, acetinados, veludos, etc).

Costurando uma calça completa em apenas 30 minutos, a indústria de confecção leva o consumidor brasileiro a uma agradável proximidade com o norte-americano: aqui já se compram 2,26 calças jeans ao ano por habitante, enquanto nos EUA a taxa é de 3,6/4 calças/ano/homem.

“Essa euforia permitia-nos trabalhar até o ano passado, apenas administrando sonhos, vendendo mais jeans do que se fabricava com grande disputa pelas quotas dos fabricantes. Depois de um 1980 em que compras especulativas engordaram estoques e paralisaram as vendas durante os dois primeiros meses de 1981, voltamos à normalidade – os pedidos em carteira indicam clara tendência de reação em todo o setor. Na área de indigo, a indústria já voltou aos 100% de produção, nos demais jeans, aos 80%”. A informação é de Antônio Miguel H. Canteras, gerente de mercado das Empresas Têxteis Santista, que no próximo mês colocam em operação sua segunda fábrica desse tecido (em Americana, com capacidade para atender o mercado nos próximos 3 anos).

“Estamos com atraso de um mês nas entregas de tecido aos clientes, o estoque nas lojas (6 milhões de calças) equivale à produção de apenas 30 dias. Ora, isto comprova que o setor está reagindo – comenta Canteras.

E é grande o número de novos projetos na área: além da nova unidade da Alpargatas no Nordeste (a mais antiga, desde 1972 no mercado). Sudantex retomou a produção, iniciada em 1971, mas paralisada em 1978, e a Santista dobra a capacidade atual de produção. Estão previstas também a implentação de fábricas ou adaptação de maquinário para essa produção em 4 outras empresas (Vicunha,k Matarazzo, Calfat e Germando Fehr).

Causas desse aumento? A conquista do consumidor perdendo o jeans a conotação de moda para assumir uma importante parcela do mercado e ampliando também as taxas de venda, atingindo desde o consumidor de 2 anos de idade até os de 45/50, sem se restringir ao público jovem.

“O jeans nivela, de certo modo, as classes sociais, o status de roupa está agora a cargo da etiqueta mas o tecido básico é o mesmo. Já se pretende atingir também setor rural, e os maiores problemas têm sido apenas os de distribuição”, acrescenta Gloria Durães, do Departamento de Promoção e Propaganda da Santista, lembrando que até os setores automobilístico e de cigarros estão lançando produtos na área (jeans Gol e Voyage da VW; da Fiat e da Philip Morris) para reativar o movimento de vendas de suas concessionárias ou para reafirmar sua imagem num mercado em retração.

Essas características do produto “jeans” é que o tornam uma exceção dentro do setor, afirma,k cautelosamente, o presidente do Sindicato da Indústria de Fiação e Tecelagem do Estado de São Paulo, Luis Américo Medeiros. Para ele, o setor como um todo acusará, no final do ano, uma redução de 15% na produção, na região Centro-Sul, e de 25% no Nordeste.

“Enfrentamos umas das mais difíceis crises setoriais desde os anos 66/67, quando muitas empresas quebraram.”

Medeiros afirma que a demanda interna continua retraída, embora os dados da Federação do Comércio (ver matéria nesta página) mostrem um quadro diferente, e, “embora ainda não tenhamos falências nem concordatas em grande escala, as fábricas trabalham com grande sacrifício de sua lucratividade. As vendas não crescem, os custos financeiros são insuportáveis e a melhor saída tem sido, por enquanto, a exportação”.

De fato, o Brasil já cumpriu 24% da quota de exportação de tecidos de algodão para os Estados Unidos (durante todo o ano de 1980 só vendeu 9% do total autorizado), 12* da quota de fios de algodão (no ano passado, só 1%) e 8% da de confecções (repetindo o nano anterior) em apenas quatro dos 12 meses de acordo.

Embalagens refletem a mudança
As indústrias de bens de consumo vêm retomando suas atividades, após terem desovado os estoques de seus produtos. É isso, pelo menos, o que se deduz, diante do crescimento da demanda por papel ondulado a partir de julho último, após um longo período de retração no consumo.

O papel ondulado é consumido na produção de caixas, utilizadas pelas indústrias para a proteção de seus artigos no momento em que são transportados até os pontos de varejo e enquanto esses produtos permanecem estocados. O aumento dos volumes das vendas pode permitir, assim, a avaliação do crescimento industrial. Na verdade, uma pequena parcela da produção de papel ondulado é destinada ao condicionamento de frutas e legumes em substituição às tradicionais caixas de madeira. Isso faria com que os números relativos à sua comercialização apresentem uma pequena distorção, como indicador da atividade industrial. Para alguns empresários, no entanto, essa distorção pode ser desprezada, por ser pouco significativo.

Levantamento feito pela Associação Brasileira de Papel Ondulado - ABPO - indica que as vendas do produto tiveram uma expansão de 13,4% em julho último, em relação a junho, passando o seu volume de 58.033 toneladas para 65.862 no mês seguinte. Em agosto a procura por papel ondulado se manteve relativamente elevada: foram negociadas 64.295 toneladas, ou seja, 10,7% mais que no mês de junho, embora ainda 8,3% abaixo de agosto de 1980.

Para o presidente da ABPO, José Frugis, o crescimento das vendas pelo setor é justamente o reflexo da retomada da produção pelas indústrias de bens de consumo. Ele diz que as fábricas antes vinham procurando comercializar os estoques de seus produtos, que durante o primeiro semestre eram excessivamente elevados para uma demanda reduzida.

A mudança no comportamento do mercado de papel ondulado foi confirmada pelo gerente de vendas da Klabin, Luciano Leone, que também a atribui à desova dos estoques de produtos da indústria de bens de consumo. Leone lembra que a mudança da política econômica do governo levou as indústrias a promoverem uma redução forçada de seus estoques, o que ocorreu ao longo do primeiro semestre deste ano. "Só agora as indústrias reiniciam suas atividades em níveis que podem ser considerados como adequados ao mercado, o que se reflete na demanda por papel ondulado", acrescentou.

Ivan Salles, superintendente comercial da Toga - Indústria de Papéis de Arte José Tscherkassky S/A especializada em embalagens sofisticadas confirma que a posição de mercado também se inverteu, e retornou à posição compradora, embora em níveias mais baixos que em 80. "As indústrias vinham de uma situação de estoques elevados no semestre passado. A desova foi morosa, mas chegou ao fim". A Toga se dedica à produção de embalagens diretas de produtos. Nessa área, segundo Salles, os setores que mais sofreram com a retração do consumo por parte da população foram os de laticínios, chocolates, biscoitos e sorvetes, além dos sucos artificiais em pó. O mercado da maioria desses alimentos já apresentou alguma reação, embora eles tenham sido também atingidos por mudanças de hábito da população. A exceção corresponde às vendas de derivados de leite, que permanecem retraídas o que é atribuído ao crescimento dos preços da matéria-prima, que afastaram os laticínios das mesas da grande parte da população.

Quem se mostra otimista com o desempenho do setor de embalagens é o empresário Plínio de Paula Ramos, presidente da Associação Brasileira de Embalags. Para ele, o crescimento das vendas deverá ser observado pelo menos até o final do ano. "A população sentiu o impacto da retração da economia, o que refletiu na redução do consumo. Agora, o mercado tende a se estabilizar, e brevemente voltará aos níveis de crescimento observado nos anos anteriores", prevê.

Também trabalharam nesta reportagem Cecília Zioni e Isabel Dias de Aguiar.



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