Jornal Diário Popular , dezembro de 1999
Os países ricos cobram altos impostos sobre produtos estrangeiros, para impedir que eles inundem seu mercado, prejudiquem as empresas locais – e provoquem desemprego. Além disso, seus governo garantem preços altos, pagando “diferenças” de custos (ou “subsídio”, como dizem os técnicos) aos produtos, principalmente agrícolas, para permitir-lhes concorrer no mercado internacional. O governo brasileiro, no mês passado, concluiu e divulgou um estudo, criticando essas “barreiras”, representadas pelos impostos e pelos subsídios, criadas pelos países ricos (v. coluna de ontem). Se eles não existissem, os produtos brasileiros seriam mais baratos do que os produtos daqueles países – e, portanto, poderiam ser exportados, conquistar os seus mercados.
Qual o prejuízo que o Brasil tem com essa política chamada “protecionismo” dos países ricos? Nos cálculos do próprio governo FHC, nada menos de 40 bilhões de dólares. Por ano. Isto é, praticamente o mesmo valor que o Brasil consegue exportar hoje. Ou, ainda: o Brasil poderia dobrar suas exportações, criar empregos em imensa quantidade, acelerar o crescimento econômico – se não fosse impedido pelos países ricos.
Você viu, há poucos dias, vasto noticiário sobre quebras – quebras de rua que tumultuaram uma reunião internacional em Seattle, para discutir o comércio internacional. Esqueça os quebra-quebras. O que importa é que, na reunião, os países menos desenvolvidos, como o Brasil, queriam exatamente que os países ricos assinassem compromissos para ir mudando essa política, e irem reduzindo, ano a ano, impostos e outras barreiras adotadas para impedir a entrada de produtos estrangeiros. A resposta dos países ricos foi um soleníssimo “nãaaaaaaaao”.
Esses comportamentos desmentem totalmente as teorias repetidas nos últimos anos, de que o mundo está em uma fase de “globalização”, e que todos os países vêm abrindo seus mercados, como o Brasil fez, de uma forma incrivelmente exagerada, chegando ao “escancaramento” das importações, que destruíram a indústria, desempregaram, “torraram dólares” e por isso provocaram a queda do Real. Quem reconheceu esse “escancaramento”, nos dias da reunião da Seattle, foi o próprio presidente FHC. Evidentemente, esse reconhecimento não é nenhum consolo para o povo brasileiro – que deseja seus empregos de volta.
Como isso seria conseguido? A intransigência dos países ricos mostra que as negociações do Brasil, discutindo o comércio com o governo de cada País, exigiram anos – e com resultados insatisfatórios. A alternativa seria o governo FHC voltar a aumentar os impostos sobre produtos importantes de países que “barram” os brasileiros, para forçar outros acordos. Isso significaria, porém, perder o apoio, romper com o FMI. Você acredita que o governo FHC faria isso? A ordem continua a ser a mesma: desempregar. No Brasil.