Jornal Folha de S.Paulo , quinta-feira 3 de junho de 1982
Descentralizar a assistência médica prestada pelo Inamps, entregando esses serviços ao Estados, Municípios, Santas Casas e instituições semelhantes, para melhorar o atendimento ao povo, reduzir custos, impedir fraudes. Essa, a política de médio prazo que o ministro Hélio Beltrão vai adotar para resolver os problemas da Previdência Privada, no País. A curto prazo, a estratégia prevê maior controle sobre os tratamentos especializados, excessivamente caros, e a luta "dia a dia", "corpo a corpo", contra as fraudes.
Convidado especial do programa "Crítica e Autocrítica" apresentado na última terça-feira, o ministro da Desburocratização e, agora, da Previdência Social, recebeu um tratamento extremamente cordial – marcado por elogios e manifestações de confiança – por parte dos empresários convocados como debatedores: Antônio Ermírio de Moraes, do grupo Votorantim; Arthur João Donato, presidente da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro, e Wolfgang Klauss Sopher, presidente da Zivi Hercules, do Rio Grande do Sul. O tom amistoso que marcou o diálogo não impediu que o ministro rebatesse algumas das críticas à Previdência, e que atribuiu à desinformação em relação a seus problemas.
O gigantismo
Numa análise que, em outros tempos, somente os críticos do governo ousariam fazer, o ministro Beltrão apontou que o problema da Previdência, no País, é basicamente o mesmo que atinge a toda a economia brasileira: o "gigantismo", o "melhor caminho para a desumanização, a perda de controle e conseqüentes fraudes, os gastos crescentes".
Nas críticas freqüentes a Previdência, no entanto, "há muita confusão", porque as pessoas não fazem distinção entre o Inps e o Inamps, este último encarregado da assistência médica. Quanto ao Inps, lembrou, ele gasta 9,0 bilhões de cruzeiros por mês em benefícios (aposentadorias, pensões, auxílios). Ainda assim, é possível administrá-lo bem, porque é tudo previsível: "Pode-se saber antecipadamente qual vai ser a receita e qual vai ser a despesa."
Já em relação ao Inamps, a situação é outra: é difícil prever quanto se vai gastar com assistência médica, seja pelas necessidades reais da população, seja pelos abusos: "Entre contribuintes da Previdência e seus dependentes, atendemos hoje a 100 milhões de brasileiros. E isso, além da enorme carga que representa, explica também – demonstrou – a freqüência das críticas aos serviços médicos. Se conseguirmos atender satisfatoriamente a 90% dos casos, e formos imperfeitos em apenas 10% das vezes, ainda assim haverá 10 milhões (aqueles 10%) de descontentes".
Os abusos
Até 1967, as Secretarias Estaduais, as Prefeituras ("quem se lembra dos pronto-socorros municipais?"), as Santas Casas prestavam assistência médica à população. "Vamos refluir a esse canal, progressivamente.
Essa descentralização melhorará o atendimento, porque, sem gigantismo, "cada caso é um caso" e em cada comunidade o "grupo social" atua como fiscalizador, tanto em relação à qualidade dos serviços, como contra abusos. Valendo-se de alguns exemplos nessa área – "há casos em que o número de radiografias é igual ao de consultas, uma aberração que não tem paralelo no mundo" –, o ministro concluiu: "Como é possível prever os gastos do Inamps, desse jeito?" Quanto aos tratamentos de alto custo, a intenção não é suspendê-los, pois há pacientes que realmente precisam deles. "Mas vamos oferecê-los nos hospitais oficiais, na rede do Inamps, para evitar desperdícios."