Jornal Diário da Manhã , sexta-feira 7 de outubro de 1983
Indústrias de óleo de soja – com o apoio dos demais setores que participam das manobras para puxar o preço da soja e derivados no mercado interno – estão pressionando o governo para cancelar as decisões anunciadas na segunda-feira com o objetivo de conter a especulação. Mais uma vez, a Cacex e o Ministério de Agricultura estão defendendo os interesses do setor, contrariando assim as intenções do presidente da República, de deter a escalada dos preços da alimentação. Ontem, em Brasília, após reunião com o diretor da Cacex, Carlos Viacava, e com representantes da Associação Brasileiras das Indústrias de Óleos Vegetais, a Secretaria Especial de Abastecimento e Preços – SEAP concedeu um prazo de quarenta e oito horas para que os industriais apresentem provas de que realmente entregaram o óleo, aos supermercados, aos preços estabelecidos no “acordo de cavalheiros” firmado com o governo.
Apresentadas essas provas, as indústrias voltariam a ter acesso ao crédito nos bancos oficiais, cortado na última segunda-feira pelo governo. A possibilidade de um recuo por parte do governo é injustificável: o corte no crédito teve um objetivo muito mais amplo, de forçar a “desova” de estoques e provocar a queda de preços. Deve-se lembrar, a propósito, que quando a medida foi anunciada pelo governo, os industriais ironizaram, dizendo que ela tinha aspecto apenas “moral” e não resolveria nada, porque as empresas já haviam “sacado” todo o crédito a que tinham direito na época da safra, quando compraram a soja para industrialização. O pedido de não-estabelecimento do crédito significa, exatamente, o acerto da decisão governamental: as indústrias precisam de crédito para manter seus estoques especulativos e impor preços altos.
APOIO REPETIDO
Também ontem, a Cacex assumiu a decisão de permitir que sejam cancelados, até o próximo dia 10, os contratos para exportação de óleo de soja firmados durante a grande corrida especulativa de agosto. Ao corrente da nova orientação, a Coordenadoria de Orientação e Defesa ao Consumidor, a Condecon, do Ministério de Agricultura, previu uma ”corrida” dos exportadores para o cancelamento dos seus contratos, porque os preços dos produtos do mercado interno estão mais altos que no mercado mundial, e os exportadores lucrarão com a suspensão das exportações e colocação do produto aqui dentro. Mais uma vez o Ministério da Agricultura, desta vez através do Condecon, falseia a verdade ao afirmar que essa inversão (preços mais altos aqui dentro do que no mercado externo) ocorreu “a partir da última segunda-feira, quando o pregão da Bolsa de Chicago registrou acentuada queda”, com o “óleo de soja brasileiro despencando de US$ 710 para US$ 683 a tonelada, contra o preço equivalente de US$ 800 a tonelada, no mercado interno”. Na verdade, desde o começo da especulação os preços no mercado interno estavam acima das cotações internacionais – verdade encoberta inclusive pelo Ministério da Agricultura, que insistia em dizer que a soja e seus derivados estavam subindo para “acompanhar os preços internacionais”.