Jornal Gazeta Mercantil , sexta-feira 16 de janeiro de 1976
De repente, o mundo é outro. As principais publicações especializadas em economia, que desfiaram durante um ano e meio catastróficas previsões de uma “nova depressão mundial como a dos anos 30”, subitamente fazem reportagens de capa advertindo contra os riscos de um novo “boom”, como o de 1973. O que houve, afinal? Um milagre? A economia dos EUA e dos demais países industrializados deu um salto, do zero para mil? Os governos conseguiram reativar a produção com um simples toque, como quem acende a luz meramente acionando um interruptor? Nada disso. Quem se der ao trabalho de olhar qualquer gráfico, sobre fenômenos econômicos de qualquer país vai ver que a curva ascendente começou há muitos meses. Mas, como lembrou o prêmio Nobel Paul A. Samuelson, “embora os primeiros meses da recuperação americana estivessem representando uma expansão quase tão exuberante como algumas pessoas tinham desejado, sóbrios homens de negócios continuaram duvidando de que a recuperação econômica já tivesse começado. Até mesmo os “experts” (economistas, membros da tecnoestrutura) ficaram estupefatos ao saber que a produção real havia aumentado, no terceiro (note-se) trimestre, à taxa anual de 13% (ver artigo “A Depressão não veio”, publicado na Gazeta Mercantil do dia 10/1/76).
Em outras palavras, podemos dizer que os homens de negócios não sabiam que a economia “já” estava indo bem porque os economistas diziam o contrário, alimentando o pessimismo – no que, evidentemente, eram auxiliados pela imprensa de todos os quadrantes.
PESQUISA A FAZER
A psicose da “depressão mundial”, registrada nos anos de 1974/75, merecerá certamente estudos de sociólogos e psicólogos. Mas as conclusões mais importantes certamente virão dos analistas políticos que identificarão as motivações que levaram às profecias do caos. No plano político, houve países que estimularam a crença na “crise”, num esforço para jogar a opinião pública mundial contra “os árabes”, responsabilizando a alta dos preços do petróleo pelo período de recessão. Ainda no plano político, mas do outro lado da cerca, a “crença na crise” foi avidamente cultivada porque se precisava acreditar que ela representava o começo do fim da economia de mercado.
Nesse clima, os dados estatísticos atualizados, as análises sérias, não tinham influência. Imperou o maniqueísmo. A produção começou a subir? Péssimo, diziam os profetas, pois isso é apenas um sinal de recessão. Sem alternativas, a Humanidade prostrou-se diante dos sacerdotes do pessimismo.
Subitamente, o Festival de Profecias cessou.
De repente, tão de repente quanto a “depressão mundial” foi esquecida, o Brasil vai descobrir que o país mudou. A economia mudou. A visão do processo de crescimento mudou. O país já não planta mais as couves do crescimento do PIB. Busca o desenvolvimento sem distorções e sementes de futuros pontos de estrangulamento.
NADA É GRATUITO
Enquanto correntes de opinião da sociedade brasileira sustentam e apregoam que a economia do país vai entrar em um período recessivo, as vendas “estouram” em todo o país, reduzindo estoques, provocando até mesmo escassez de mercadorias. Seria isso acidental? Milagre? É incrível que as “análises” – como ocorreu na “crise mundial” – não estabeleçam relação entre causa e efeito, não se apercebam que certas medidas terão, forçosamente, que trazer determinados resultados. Se uma nova orientação econômica aumenta o poder aquisitivo da população através de reajustes salariais substanciais; se é montado um imenso esquema para defender a renda do agricultor, mesmo contra as oscilações do mercado mundial; se são dinamizados setores (como a indústria de construção) que absorvem largamente mão-de-obra, é preciso entender que política de implantação do mercado interno está em marcha. Que, por isso mesmo, as vendas têm que aumentar. Não por “acidente”. Mas por causas econômicas, implantadas por uma política econômica.
AS BASES LANÇADAS
Quem junta dados pode ter uma visão clara de que existe hoje no país uma política para evitar a concentração de renda, vale dizer, para permitir que o crescimento da renda nacional seja melhor repartido entre milhões de brasileiros, elevando seu poder aquisitivo – e ampliando o mercado interno.
Construção: o Banco Nacional da Habitação lançou um sem número de planos novos, para permitir que mesmo as faixas de baixa renda comprem sua casa (ampliando o mercado da indústria de construção), fato que continua ignorado por críticos que insistem na cantilena da falência do Plano Habitacional. Resultado: 143 mil unidades financiadas em 1975, das quais 100 mil no segundo semestre – e das quais 57 mil representam habitações populares. Construção é emprego, é renda.
Agricultura: apesar do “lobby” do poderoso setor agroindustrial açucareiro, iniciam-se projetos para a produção de álcool extraído da mandioca, produzida por milhares de pequenos produtores.
Agricultura: com o lançamento do Programa Nacional da Alimentação o governo está assegurando a compra antecipada de safras de pequenos produtores, principalmente nas regiões subdesenvolvidas. Comércio e indústria: o governo de São Paulo – num exemplo – ultima planos para fortalecimento do pequeno empresário (no caso do comércio de alimentos, estuda-se inclusive a supressão do atravessador, um elo a mais na corrente da comercialização, onerando o comerciante e o consumidor).
Empreiteiras: o metrô de São Paulo dá preferência, para certas obras, a pequenas empreiteiras nacionais.
Para quem junta dados, dezenas de exemplos poderiam ser citados para ilustrar uma tendência, uma diretriz firme. Lógico que continuará a haver “acidentes de percurso”, como eventuais desvios de rota – e mesmo porque os interesses em jogo desencadeiam pressões intensas. Mas a economia e, mais que ela, a sociedade brasileira, hoje se modelam em bases que podem assegurar um processo de desenvolvimento equilibrado, sem as distorções trazidas – até mesmo no plano político – pela concentração da renda e da propriedade.