Jornal Diário Popular , quinta-feira 25 de maio de 2000
O funcionalismo público está há seis anos sem reajustes em seus vencimentos. A inflação acumulada no período está na faixa dos 50% Não adianta, portanto, dizer que o aumento do custo de vida não se compara com as taxas do passado, antes do Plano Real. Concretamente, as famílias dos funcionários públicos, dos mais humildes aos mais bem pagos, enfrentam um violentíssimo achatamento em seus orçamentos.
Os aposentados que recebem acima do piso (igual ao salário mínimo) não vão receber sequer os 11,03%aplicados ao salário mínimo. Terão só 5,8%de reajuste, índice igual ao aumento do custo de vida, segundo o governo. Mas os aposentados, por causa de sua idade, gastam maciçamente em medicamentos. E eles subiram 150% ou uma vez e meia, nos últimos dois anos.
Os agricultores paulistas e do restante da região Sudeste tiveram uma queda de 23% ou o equivalente a um quarto de sua renda, de 1995 a 1999. E o recuo prossegue, pois os preços dos principais produtos agrícolas estão a níveis baixíssimos, na colheita deste ano. Segundo o próprio IBGE divulgou ontem, a renda média das pessoas ocupadas está caindo desde dezembro de l998, despencou nada menos de 6%em 1999, e recuou mais 0,7%em março.
Diante de todos esses dados, o que diz o presidente Fernando Henrique Cardoso? Para ele, as manifestações de protesto que estão surgindo no País em escala crescente não são um sintoma de ‘‘inquietação social’’. Não. São apenas manobras políticas, da oposição. Claro. Está tudo tão bem no Brasil, com apenas 20%de desemprego segundo as pesquisas independentes do Seade, do governo paulista... Por que o povo deveria estar insatisfeito? Afinal, a abertura do mercado brasileiro às importações tornou o caviar e o champanhe francês, servidos em Palácio e nas recepções dos amigos do presidente, tão baratos... Por que o povo se recusa a consumi-los, e dá preferência às tubaínas? Falta de cultura, mesmo.
A distância que o presidente da República demonstra em relação às dificuldades que o povo vem passando é extremamente perigosa para o País. Enquanto ele continuar delirante, acreditando que está tudo azul, continuará também achando desnecessário adotar mudanças na política econômica que está devastando o Brasil, quebrando empresas, espalhando o desemprego e a miséria. Será que nem as pesquisas de opinião, que revelam o descontentamento da população com seu governo, servem para abrir os olhos do presidente antes que ocorra uma grande explosão social? Será que nem as pesquisas de opinião vão abrir os olhos do presidente?