Jornal DCI , domingo 13 de novembro de 1977
Quais os dois principais problemas que preocupam os empresários e as famílias brasileiras no momento, qualquer que seja a sua faixa de renda? A resposta, sem hesitações, corresponde à inflação, ao custo de vida, e à possibilidade de o País enfrentar uma crise de desemprego, por força da política de “desaquecimento” da economia, adotada a pretexto de combater a inflação.
Essa segunda perspectiva, para as famílias, significaria perda de renda, com todas as suas conseqüências. E, para os empresários, ela resultaria em queda ainda maior no consumo, nas vendas, com perda de receita e agravamento dos problemas financeiros, desembocando-se — na hipótese de a tendência agravar-se — em uma crise real, e falências de empresas.
Os dois temas, portanto, mereceriam cuidado extremo nas suas análises e divulgação. Mas não merecem, criando-se com isso um desnecessário clima de intranqüilidade e mal-estar na sociedade brasileira, abrindo-se as portas para o pessimismo e trazendo a ameaça de uma crise real. É sabido, em economia, que as expectativas negativas por parte das empresas e das famílias consumidoras, tendem a transformar-se em realidade. Ninguém compra, ninguém faz planos, ninguém amplia negócios — e eis a crise implantada.
OS NÚMEROS
Noticiário desta semana, em jornal respeitabilíssimo, afirmava categoricamente que estaria ocorrendo forte desemprego no País. De onde o analista tirara a conclusão? O Fundo de Garantia do Tempo de Serviço, como se sabe, é cobrado sobre a folha de salários das empresas. Assim, quando o número de empregados cresce (e aumenta o valor dos salários pagos), cresce também a arrecadação do FGTS que, por esse motivo, é tomado como um bom "termômetro" do nível de emprego no País. Segundo as análises divulgadas – e não retificadas posteriormente – a arrecadação do FGTS viria crescendo apenas 0,5% ao mês desde maio último, indicando queda na ampliação do número de empregos, e, portanto, desemprego crescente (porque não haveria novas “vagas” para as pessoas que precisariam entrar no mercado de trabalho). Antes de mais nada: somente de maio para junho o crescimento foi de 0,5%. De junho para julho ele foi de 8%, de julho para agosto de 7%, de agosto para setembro de 3%, isto é, somente no último trimestre a arrecadação do FGTS cresceu de 2,6 para 3,1 bilhões de cruzeiros, isto é, quase 20% (500 milhões representam aproximadamente 20% de 2,6 bilhões). O "argumento" aparentemente decisivo das análises alarmistas, no entanto, seria o fato de, em março, a arrecadação ter chegado a 3,5 bilhões de cruzeiros, e o resultado de setembro estar ainda em 3,1 bilhões de cruzeiros, "mostrando" o recuo. Mas não é nada disso: por uma questão de prazos de recolhimento estabelecidos pelo BNH, todos os anos, em março, a arrecadação dá um salto (aparente) para depois voltar ao nível normal. Quem tivesse cuidado, consultaria as estatísticas de anos anteriores, e verificaria esse fenômeno. Para encerrar de vez a questão: em janeiro, a arrecadação do FGTS foi de 2,2 bilhões; em setembro, de 3,1 bilhões. Uma diferença de 900 milhões, ou praticamente 50%. Aumento de 50% em nove meses. Onde o desemprego?
DERROTA COLETIVA
E a inflação? Ridiculariza-se a "campanha da pechincha", dizendo-se que o consumidor nada pode fazer contra os preços altos. Neste momento, no entanto, há mais um exemplo de que a retração do consumidor, da dona de casa pode derrubar preços, sim: os queijos, que chegaram a níveis exorbitantes, estão com suas cotações em queda. Já há supermercados e mercearias fazendo "promoções", com a redução, por enquanto, do custo da mussarella e do queijo mineiro, num claro indício de que as indústrias acabaram "engasgadas" com estoques vultosos, porque tentaram esfolar o consumidor.
O "boicote" a preços abusivos deve ser estendido, neste momento, ao consumo de carne — e com urgência. Mais uma vez, inexplicavelmente, o governo cede aos pecuaristas, aos frigoríficos, aos açougueiros, e permite que o preço da alcatra ou do coxão duro chegue aos Cr$ 40,00/Cr$ 45,00, a modesta dobradinha aos Cr$ 18,00, o ex-modesto músculo aos Cr$ 30,00/Cr$ 35,00. Há falta de carne? Não. No meio da semana, um noticiário ultra-simpático aos pecuaristas e frigoríficos dizia que o Governo resolvera liberar os preços no Rio Grande do Sul (a "simpatia" pelos especuladores era tanta que o título dizia, singelamente, "Uma Tentativa de Normalizar o Mercado no Sul”). O que dizia o último parágrafo do noticiário (virou moda, no Brasil, esconder as coisas importantes no último parágrafo das notícias?) Isto: "...Não há falta de carne no Rio Grande do Sul. Segundo informações da Federação das Cooperativas de Carne do Rio Grande do Sul" — isto é, dos próprios pecuaristas, note-se bem — "há grande quantidade de gado em condições de abate nos campos, uma vez que o inverno que queima as pastagens e emagrece os rebanhos este ano foi muito menos rigoroso do que de costume". Por que a alta dos preços, então? Porque — como já foi dito aqui — há uma situação de ditadura por parte da pecuária, dos frigoríficos, dos açougueiros, no Brasil. Já que o Governo não tem forças para impedir suas manobras, cabe à dona de casa, ao consumidor, mostrar-lhe o que é a força da mobilização coletiva. Substituir a carne por ovos, enlatados, sardinha, saladas, neste verão de temperaturas elevadíssimas. Deixar que a carne sobre. É uma lição que o setor precisa levar de uma vez por todas, para desistir de suas acintosas manobras anuais. Nenhum setor, no Brasil, desrespeitou e desrespeita tão profundamente o consumidor, a opinião pública, a coletividade, quanto a pecuária. Sua derrota seria realmente um fenômeno exemplar, na luta contra a inflação.
Como combater a disparada de preços da carne, coletivamente? Imitando o exemplo da dona de casa norte-americana. Uma dona de casa liga para três amigas, propondo reduzir em 90% o consumo de carne naquela semana; essas três amigas ligam para outras três, e já são nove, engajadas no boicote. Essas nove ligam para outras três, e já serão vinte e sete, e assim sucessivamente.
O consumidor pode vencer a inflação. Apesar das pilhérias de uns e outros analistas em torno da "campanha da pechincha" e de sua simpatia pelas informações alarmistas. E a derrota da inflação interessa também aos empresários.