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  Mais dinheiro para o consumo

Jornal Folha de S.Paulo , sexta-feira 4 de setembro de 1981


A revisão da tabela do Imposto de Renda, anunciada pelo ministro da Fazenda, mas evidentemente decidida pelo ministro do Planejamento, representa uma clara tentativa de evitar que a queda na produção industrial e o desemprego se intensifiquem, lançando a economia em uma recessão profunda, prevista por economistas e lideranças empresariais.

Seu principal efeito será – através da cobrança do imposto mais baixo – deixar “mais dinheiro” nas mãos dos consumidores, sobretudo de classe média (onde se concentram os contribuintes do Imposto), reativando ou evitando maiores quedas na demanda por bens de consumo duráveis (eletrodomésticos, móveis, automóveis), com efeitos positivos – espera o governo – sobre toda a economia.

Além desse impacto direto, não se deve desprezar o papel que a decisão pode desempenhar também no terreno psicológico, para a melhora das vendas e dos negócios. Realmente, não se pode esquecer que a atual política de combate à inflação e aos desequilíbrios do balanço de pagamentos, implantada desde o final de 1980, procurou desestimular o consumo através de medidas de redução do poder aquisitivo do consumidor. Entre elas, exatamente, houve um aumento “indireto” no Imposto de Renda cobrado na fonte, em 1981, já que todos os valores das tabelas foram corrigidos em apenas 55%, isto é, a metade da inflação de 1980: Isso fez com que um assalariado que antes recolhia, hipoteticamente, 20% de Imposto na fonte, passasse para uma taxação maior, ao ter um reajuste salarial próximo do índice de aumento de preços (110%). O empobrecimento efetivo do contribuinte através dessa cobrança mais elevada (e que se repetiu também na declaração anual do IR, quando todas as tabelas, descontos, abatimentos foram igualmente corrigidos em apenas 55%), em meio a uma inflação galopante, resultou em mudanças profundas no comportamento coletivo, criando um ambiente de pessimismo e insegurança que fatalmente se refletiria sobre as vendas. É esse comportamento que agora pode sofrer alterações, ante a primeira “correção de rumos” na política. Ela tenderá a inspirar, também, maior otimismo aos empresários, pelo simples e bom motivo de que sua adoção parece confirmar que o governo não aceita uma volta ao “crescimento acelerado”, mas, ao mesmo tempo, está disposto a fazer os ajustes necessários para evitar que o desaquecimento vá além dos níveis desejados – ou considerados necessários.

A nova escalada no nível do desemprego, anunciada pela Fiesp, certamente pesou na decisão oficial. No entanto, a redução no Imposto de Renda – que é uma medida clássica para reanimar a economia, em qualquer país, certamente já vinha sendo cogitada em Brasília desde o início do semestre, quando começaram a falhar as previsões de que haveria um grande aumento no nível de consumo no interior do País, compensando a queda na demanda dos grandes centros. Ao contrário do ocorrido em 1980, a lentidão na comercialização das safras – retidas pelos produtores diante de preços que consideraram insatisfatórios – retardou a circulação de dinheiro no Interior, frustrando-se as previsões de vendas de bens industriais à sua população.



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