[O Brasil de Aloysio Biondi Obra Vida Projeto

  A economia, cômica (e trágica)

quarta-feira 14 de novembro de 1990


Grande bate-boca entre o Planalto e os empresários. No centro do tiroteio, as taxas de juros, cujo nível escorchante e seus efeitos inflacionários foram apontados há mais de um mês pela revista Visão e outras publicações do Grupo DCI. Engraçado. A Fiesp, Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, chega a dizer que as empresas caíram em uma cilada, porque acreditaram na inflação zero prometida pelo governo, e por isso tomaram empréstimos, e agora afundam sob a carga dos juros elevadíssimos. Uai, só se o empresariado está falando de outro país. Há exatamente cinco meses, lá pelos meados de junho, o governo vinha avisando diariamente, através de todos os seus porta-vozes, que iria promover violento aperto monetário, elevar os juros, quebrar empresas, o que fosse necessário, enfim, para evitar a volta da inflação. Avisou, avisou, avisou. Falou até em “setembro negro”, de grande recolhimento de dinheiro pelo Banco Central. Onde é que estavam as cabeças empresariais nesse momento? Em Honolulu? Tóquio? Londres? Quer dizer que o empresariado foi traído, tomou dinheiro emprestado porque não previa que as taxas de juros iam subir? Uai, não dá pra entender. E a afirmação de que os empresários acreditaram no Plano Collor e na inflação zero? Como explicá-la? Afinal, as ameaças do governo em junho surgiram exatamente porque a inflação ameaçava voltar a subir, naquela época, porque as empresas estavam novamente reajustando preços ou aumentando-os brutalmente depois da sua liberação. Tudo isso sumiu da memória do empresariado, mergulhado em imenso bate-boca com o governo neste momento? Do lado do Planalto, a falta de memória também parece patente. A Presidência, a equipe econômica poderiam ter desmentido de pronto a versão de Fiesp. Em alto nível. Restabelecendo a verdade. Trazendo o debate de volta ao mundo dos homens sérios. Não fez isso. Preferiu disparar petardos contra o empresariado, falando em sabotagem e que tais. Geeente, que coisa breeega, diria La Raia. Cômico. Trágico, pelas conseqüências para toda a sociedade, resultantes desse embate governo-empresários. Mais engraçado ainda, e igualmente mais trágico ainda, é o silêncio que Planalto e empresários fazem sobre os reais responsáveis pelas escorchantes taxas de juros cobradas nos empréstimos às empresas, neste momento. Uai, o culpado não é Banco Central, que elevou o custo do dinheiro para “esfriar” a economia? Não é o governo que está querendo uma recessão para derrubar os preços e a inflação? O governo promoveu uma elevação das taxas de juros, sim – mas a níveis toleráveis. Quem está impondo juros explosivos às empresas é o sistema financeiro. Como assim? As taxas de juros não estão a até 30% ao mês puxadas pelo BC no over? Não. Quando se fala em 30% ao mês no over, como lembra o economista Joaquim Elói de Toledo, está se levando o povo brasileiro a um monumental engano. Na verdade, a taxa do over está a 1% ao dia, e por isso se diz que ela equivale a 30% ao mês. Não está certo? Não. Porque a taxa de 1% ao dia só é paga (pelos bancos) aos aplicadores no over nos dias úteis, isto é, eles nada ganham nos feriados e fins-de-semana. Assim, se o mês tem 20 dias úteis, na verdade os bancos somente estarão pagando, pelo dinheiro que captam no over, uma taxa de 20% no mês todo (isto e, 1% multiplicado por 20 dias úteis.) E daí? Bom, uma taxa de 20% ao mês significa algo como 800% ao ano. E os banco s têm cobrado, nos empréstimos às empresas, 2.000% e até 3.000% ao ano (em determinados dias do final de setembro). Taí: o sistema financeiro está pagando, pelo dinheiro que capta, algo como 800% ao ano; ao emprestar, cobra até 2.000% ao ano. Então, quem está levando os juros às nuvens? Quem está ficando com a parte do leão, provocando inflação, concordatas mais uma vez? O Banco Central? O sistema financeiro? Engraçado que a Fiesp, o empresariado disparem sua artilharia contra o governo. E não contra o sistema financeiro. Engraçado que o governo, em lugar de apontar os reais responsáveis pela situação, também prefira partir para o xingamento. Cômico. E trágico. Ainda bem que, em meio a essa tragicomédia, surgiu uma notícia altamente favorável. Em outubro, o governo conseguiu recolher mais de Cr$ 50 bilhões, com o papel-moeda em circulação caindo de Cr$ 537 bilhões para o Cr$ 486 bilhões. Ótimo. Sinal de que o Banco central ganhou algum controle sobre as emissões, sobre a política monetária – depois do escandaloso e trágico estouro das emissões em setembro. Se o controle da inflação depende também do controle das emissões de moeda, então as coisas melhoraram sob este ângulo. O Banco Central não deixou de comemorar o êxito, se bem que insistindo em fazer humorismo (trágico). Segundo um de seus diretores, foi possível recolher aqueles Cr$ 50 bilhões porque – pasme-se – houve uma mudança na “preferência do público em carregar moeda no bolso”. Entendeu? Diz o Banco Central, aos milhões de parvos que ele acredita existirem neste país, que o estouro nas emissões de setembro foi provocado por essa estranha vontade que você, sua mãe, seus amigos tiveram naquele fatídico setembro, de andar com os bolsos atulhados de dinheiro. Graças, é óbvio, aos magníficos salários, que o governo nunca, jamais, achatou. Confesse: foi isso mesmo que você, sua mãe, seus amigos fizeram. Bilhões e bilhões no bolso, que fizeram falta nos bancos, e obrigaram o Banco Central a emitir em setembro. Em outubro, você, sua mãe, seus amigos se cansaram da brincadeira, devolveram o dinheiro aos bancos – e, aí, o Banco Central conseguiu recolher o dinheiro. É isso que o diretor do BC afirma. Claro, ninguém vai pensar que o Banco Central emitiu dinheiro a rodo em setembro para favorecer aos bancos e certos grupos empresariais (contratos de câmbio). Só que é isso que os dados do próprio BC mostram. Quando é que o Planalto, a equipe econômica e o empresariado vão levar a sério o problema da economia? E a inteligência da sociedade brasileira?



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