Jornal Folha de S.Paulo , quinta-feira 24 de setembro de 1998
A imprensa tenta explicar: “Como é que a queda nas Bolsas mundiais afeta a vida das pessoas comuns, que nem sequer têm ações?”. E, a todo momento, as pessoas continuam a perguntar: “Afinal, por que a queda nas Bolsas está destruindo a economia mundial?.”
Resposta: na verdade, a opinião pública mundial – e brasileira – vem sendo totalmente enganada pelo noticiário, que está apresentando a queda nas Bolsas como o estopim da crise, quando o que acontece é exatamente o contrário: o terremoto nas Bolsas e mercados financeiros em geral é, na verdade, a conseqüência (e não, repita-se, a causa) da crise que se alastra.
Para entender que o problema mundial está sendo colocado exatamente às avessas, basta relembrar, passo por passo, o que aconteceu na Ásia, na Rússia ou em países latinos como o Brasil:
1) Os EUA, o FMI e o Banco Mundial, auxiliados pelos governos locais e as chamadas elites, ordenaram a esses países que abrissem seus mercados. A “abertura” da economia ocorreu em todas as áreas: desde a permissão (e vantagens) para a livre entrada e saída de capitais estrangeiros até o "escancaramento" para as importações (mais precisamente para a entrada de mercadorias, sobretudo dos EUA).
2) O “escancaramento” às importações, inclusive no caso dos chamados "tigres asiáticos", acabou resultando na compra maciça não apenas de produtos, mas também de peças, componentes e até matérias-primas no exterior. O “salto” nas importações acabou “torrando” dólares – e esses países passaram a apresentar “rombos”, déficits (importações superiores às exportações) em seus negócios com o exterior.
3) Como cobrir esse rombo? Tomando empréstimos no exterior. Ou, ainda, oferecendo taxas de juros altíssimas para os banqueiros e investidores trazerem dólares para o país – aplicados no mercado financeiro local ou na compra de títulos vendidos pelo governo, para cobrir seus próprios “rombos”. Houve, também, a entrada de dólares para comprar empresas locais – ou para comprar empresas estatais, que também passaram a ser privatizadas por ordem dos mesmos patrões: FMI, EUA e Banco Mundial.
4) No começo, foi aquela festa. Houve uma enxurrada de dólares, para aproveitar os juros altos, para comprar estatais, para comprar empresas e até, em escala mínima, para abrir novas fábricas, minas, usinas...
5) A partir de certo momento, porém, o “rombo” começou a ficar incontrolável e a dificuldade em conseguir dólares para cobri-lo foi crescendo. Mais detalhadamente: há o “rombo” da balança comercial (exportações menos importações); há o “rombo” das prestações e juros a ser pagos aos “emprestadores” de dólares para cobrir os “rombos” dos anos anteriores; e há, ainda, o aumento nas remessas de lucros, dividendos, pagamentos (vergonhosos) de “assistência técnica” às matrizes das multinacionais, que vieram para o país graças ao escancaramento do mercado.
6) O pior: os “rombos” em dólares acabam por produzir também “rombos” no governo, na moeda local (isto é, um rombo, agora em reais, no caixa do Tesouro, no caso do Brasil). Por quê? Por causa do círculo vicioso criado pelo “escancaramento”: quanto mais difícil fica atrair dólares, mais os governos aumentam os juros, e as taxas, cada vez mais altas, são pagas também pelo Tesouro, para os compradores de seus títulos.
Assim, por mais que o governo local corte as verbas para a saúde, educação, reforma agrária; ou “congele” os vencimentos do funcionalismo; ou venha com um “pacote” e aumente o Imposto de Renda só para a classe média e trabalhadores, tudo é inútil: o “rombo” do Tesouro cresce sempre, por força da violenta sangria representada pelas despesas com os juros elevadíssimos.
7) O “rombo” crescente em dólares e o rombo crescente do Tesouro assustam os banqueiros e investidores estrangeiros. Eles temem que, como já aconteceu muitas vezes, de uma hora para outra os países “encalacrados” simplesmente “proíbam” a saída dos capitais estrangeiros, isto é, “proíbam” a devolução de empréstimos contraídos no exterior ou a retirada de aplicações feitas no mercado financeiro ou mesmo suspendam o pagamento (moratória ou calote) de títulos do governo.
8) O “medo” de ficar com seus dólares bloqueados leva banqueiros e investidores a iniciar uma "retirada estratégica", isto é, levar os seus dólares de volta para fora do país, antes que seja tarde. Não se trata, portanto, de “ataque especulativo”, como uns basbaques gostam de falar, ou de “pânico”, “histeria”, como os mesmos basbaques gostam de dizer. Os banqueiros e investidores examinam os dados estatísticos que mostram a situação real da economia do país: sua dívida, seus “rombos”, sua capacidade de continuar pagando. E, aí, tomam suas decisões. Racionais.
9) Quando banqueiros e investidores decidem bater em retirada, eles precisam liquidar os negócios que tinham no país. Isto é: começam a vender os títulos, inclusive as ações que haviam comprado na época de euforia. Com essas vendas, cada vez maiores, as cotações começam a cair. O governo aumenta novamente os juros, mas não consegue vender seus títulos sem oferecer cada vez mais vantagens. A desconfiança se alastra. Banqueiros e investidores, não apenas estrangeiros, mas também nacionais, procuram sair do mercado rapidamente, aumentando as vendas de ações. Aí, as Bolsas desabam. Às vezes, têm pequenos períodos de melhoria, graças, no caso do Brasil, a (vergonhosas) manipulações do governo, que usa bancos oficiais e fundos de pensão para comprar os papéis e “puxar” os índices das Bolsas. Mas a crise volta. Porque o país está quebrado – e os credores mundiais sabem disso.
Em resumo: a queda nas Bolsas é apenas a conseqüência de toda a deterioração da economia, ela ocorre exatamente quando o país já está mergulhado em uma crise, afundado em rombos e perdeu a confiança dos emprestadores. A imprensa insiste em manter os holofotes virados para as “crises das Bolsas”. Não utiliza manchetes ou dá destaque à origem real do problema: a crise da economia daquele país.
Desde abril/maio, o mercado já sabia que o Brasil estava “quebrado”. Não por causa da “crise asiática”. Mas por causa do escancaramento do mercado, desde 1995.
PS - Pode-se perguntar: e a queda das Bolsas nos países ricos, que não estão em crise? No caso, é reflexo da crise dos países “quebrados”, nos quais bancos e investidores do Primeiro Mundo têm aplicações. E pode haver também países em que as ações subiram excessivamente – caso dos EUA, da Bolsa de Nova York.