Jornal Folha de S.Paulo , quarta-feira 7 de outubro de 1981
Mudanças rápidas no cenário internacional e mesmo na situação da economia do País devem determinar sensível queda nas taxas de juros nos próximos dias — se o governo deixar, pois são as autoridades monetárias que vêm alimentando a especulação financeira.
Teoricamente, o motivo mais direto para a redução nos juros seria uma retração das empresas na procura por crédito — pois qualquer diretor financeiro, a esta altura, sabe ser uma temeridade (para o futuro da empresa) contratar empréstimos ao nível atual, na casa dos 150% ao ano, após a recente escalada no custo dos empréstimos.
Com a queda da inflação para o nível de 5,1% ao mês, em setembro — outro fator a permitir a redução dos juros—, os próprios ministros da área econômica fizeram questão de lembrar que, a esta altura, o País vive uma inflação “anualizada” (isto é, a taxa mensal projetada para doze meses) da ordem de 80%. Nestas condições, aceitar um financiamento na casa dos 150% ao ano significa, no mínimo, que a empresa terá que lançar, nos preços de seus produtos, aqueles 70 pontos percentuais que "excedem" à inflação — sob pena de quebrarem. Como o consumidor anda arredio, essa possibilidade é remota, vale dizer, a perspectiva de falência é certa.
Para a redução dos preços, os ventos são favoráveis também no cenário mundial, ou nas relações do Brasil com o Exterior. Antes de mais nada, os Juros no mercado norte-americano, que chegaram a 20,5% ao ano e influenciaram o custo dos empréstimos internacionais, anteontem recuaram mais 0,5%, e agora estão na casa dos 19%. O governo Reagan pediu, ainda, uma política de crédito menos apertada, ao Banco Central — o que pode levar a novas reduções nos juros. Como reflexo de tudo isso, também a "libor", a taxa básica cobrada nos empréstimos internacionais, voltou a flutuar em torno dos 17%, contra mais de 19%, em semanas recentes.
Como o custo dos empréstimos externos vinha influenciando o custo do dinheiro aqui dentro, a queda da "libor" é outro dado favorável em cena. Há mais, porém: o principal "componente" no custo dos empréstimos externos é a correção cambial, isto é, a desvalorização do cruzeiro, prevista para os doze meses seguintes. Até recentemente, falava-se em uma desvalorização de 90% ao ano. Agora, já se pode falar em até 70% ao ano — já que a correção cambial seria a diferença entre a inflação brasileira (agora na casa dos 80% ao ano) e a inflação nos países ricos (na casa dos 10% ao ano).
Queda da inflação brasileira, queda (conseqüente) na correção cambial e queda nas taxas de juros internacionais, somados, já permitem uma sensível redução nas taxas de juros internas. Não se pode esquecer, ainda, que os saldos que o Brasil vem conseguindo na balança comercial trazem menor necessidade de obtenção de recursos externos (como os saldos ainda são mínimos, seus efeitos são mais psicológicos do que reais, mas o fato é que existem). Como precisa ser lembrado que também a queda das taxas de juros internacionais têm a mesma característica: reduzem os gastos do Brasil no Exterior, na proporção de 400 milhões de dólares, para cada queda de 1% na "libor".
Um último fator, pouco citado: em algumas áreas empresariais, o -verdadeiro motivo para evitar os empréstimos externos não tem sido o seu custo, mas o temor de uma nova maxides-valorização, como a de 1979. Diante da valorização que o dólar vinha apresentando nos mercados internacionais esse ano, tais temores cresceram (porque o cruzeiro, que "acompanha" o dólar, vinha "caindo" muito pouco em relação a outras moedas. Isto, segundo os teóricos, dificultaria a exportação para outros países industrializados, que não os Estados Unidos, exigindo uma "maxi"). Agora, a tendência de valorização do dólar foi quebrada — e o recuo da moeda norte-americana poderá acentuar-se, ante as mudanças na política contencionista, propostas por Reagan.
Nada segura, portanto, as taxas de juros em seus níveis atuais. Pela lógica, elas deveriam cair. Seus níveis artificialmente altos vêm sendo mantidos pela ação ou omissão das autoridades monetárias. Pela ação, ao elevar constantemente as "taxas de juros" pagas aos compradores de Letras do Tesouro, criando um pretexto para o sistema financeiro cobrar mais pelo custo do dinheiro. Por omissão, ao fingir, por exemplo, que não estão vendo os bancos aplicarem maciçamente na compra de debêntures — títulos cujas emissões vão subir a 100 bilhões de cruzeiros, este ano — enquanto "puxam" as taxas alegando que o dinheiro anda escasso. Escassez, de resto, desmentida por dados do próprio Banco Central, segundo os quais em um ano os empréstimos dos bancos comerciais cresceram quase 100%. Para onde está indo esse dinheiro já é uma outra história...