Jornal Diário Popular , sexta-feira 26 de maio de 2000
E o noticiário econômico continua a ser o avesso da verdade:
* Recuperação — Reportagens cor-de-rosa dizem que a ‘‘recuperação da indústria’’ é tão forte, que alguns setores estão utilizando quase toda a sua capacidade, e se o consumo continuar a subir, as fábricas não terão como atendê-lo. Conversa para enganar trouxa, ou para justificar empréstimos a juros baixos, do BNDES — banco estatal que trabalha com o dinheiro dos trabalhadores e no qual, aliás, esses mesmos setores sempre ‘‘mamaram’’, década após década. Onde está a enganação? Realmente, os setores de papel e celulose estão utilizando 90% a 95% de sua capacidade. Mas isso não ter nada a ver com a ‘‘recuperação da economia’’ brasileira. Trata-se de setores que têm imensa oscilação, verdadeiro rodízio de períodos (ou ciclos) no seu faturamento e preços: há uma alta de preços no mercado mundial, as empresas executam projetos de expansão, a oferta aumenta, os preços caem, os projetos de expansão são até suspensos, surge novo período de alta, e assim sucessivamente. Há dois anos, o setor estava de rastros, no chão, com queda de até 50% nos preços da tonelada. Agora, é o período de alta e escassez. Nada a ver com a ‘‘recuperação’’ brasileira. Apenas um ciclo de alta mundial. A maioria dos demais setores industriais e empresariais continua com imensa capacidade ociosa. Na semana, a Sanyo fechou (fechou, mesmo) sua fábrica de televisores de Manaus, seguindo o exemplo da Sony e da Sharp.
* Hipocrisia — É claro que, se as empresas começam a fechar suas fábricas, e elas saem da relação de indústrias existentes do IBGE ou federações das indústrias, a ‘‘capacidade de produção’’ fica automaticamente reduzida — e as estatísticas não mostram quanto o setor e‘‘encolheu’’ e, por isso, as fábricas restantes estão com mais encomendas.
* Juros — O consumidor nunca consegue entender toda a onda que o noticiário faz em torno da tal taxa de juros que o Banco Central revê de tempos em tempos, para reduzi-la ou aumentá-la, e que seria capaz, segundo os analistas, de aumentar ou diminuir o consumo no País, ‘‘esfriando’’ ou ‘‘esquentando’’ a economia. Afinal, pensa ele com seus botões, por que tanto barulho em torno dessa tal taxa de 18,5% ao ano, se os bancos continuam a cobrar de 10% a 13% ao mês, no cheque especial? E as lojas cobram 8% ao mês no crediário (reduzindo-a para 3% a 4% apenas no caso de algumas promoções — e, ainda assim, esse nível de 4% ao mês equivale a, no mínimo, umas três vezes àquelas taxas de 18,5% ao ano). O consumidor tem toda razão. A taxa de 18,5% só vale, exatamente, para operações de ‘‘empréstimos’’ que o Banco Central faz a bancos, ou como ‘‘ponto de partida’’ para as taxas de juros que o Tesouro paga para os compradores de seus títulos (‘‘papagaios’’).
O consumidor continua a depositar seu dinheiro sem receber juros nos bancos — que emprestam a esse mesmo consumidor a até 200% ao ano. (Você se lembra quando o Banco Central concedeu um monte de vantagens aos banqueiros, dizendo que era um ‘‘pacote’’ para os juros cobrados pelos bancos caírem? Esta coluna apostou que eles não seriam reduzidos... Brasil de FHC).