[O Brasil de Aloysio Biondi Obra Vida Projeto
data
veiculo
tema
Palavra-chave
Voltar

  Em 80, preocupação econômica

Jornal Folha de S.Paulo , quinta-feira 31 de dezembro de 1981


Pedindo a "união de esforços" e investindo contra o "pessimismo, que nada constrói", o presidente da República, em sua mensagem ao povo brasileiro no final de 1980, procurava transmitir uma confiança que seu próprio semblante carregado desmentia. Sua análise dos problemas da economia brasileira, claramente inspirada pela Secretaria do Planejamento, atribuía aos gastos com o petróleo as origens das dificuldades de então e anunciava uma estratégia para superá-las: "A trilogia do nosso desenvolvimento, nos dias que passam, é produzir mais; poupar mais: e exportar tudo o que pudermos. "

Admitindo que a dívida externa brasileira era "grande", o chefe da Nação procurava, no entanto, minimizar a gravidade da "crise cambial", afirmando que a dívida estava "sob controle" e não iria "disparar". Na verdade, a dívida já havia disparado e fugido ao controle do governo, ao ponto de os banqueiros internacionais exigirem que o ministro Delfim Neto adotasse, para 1981, uma política clássica de desaquecimento da economia.

A divida externa "confessada" pelos ministros da área econômica crescera de 50.0 para 54.5 bilhões de dólares, ou 4.5 bilhões de dólares — mas as reservas do Pais haviam caído de 10 para 7 bilhões de dólares, refletindo um endividamento de mais 3 bilhões de dólares, e a dívida de curto prazo crescera outros 3 bilhões de dólares: de 4 para 7 bilhões. No total, portanto, o País aumentava sua dívida externa em 10.5 bilhões de dólares, de 1979 para 1980, e caminhava para o impasse total, ante as perspectivas de crescimento do déficit da balança comercial, que atingiu 3 bilhões de dólares em 1980."

Segundo a mensagem presidencial, o Brasil, como "todo o mundo", teria que enfrentar as poucas alternativas disponíveis ante o estrangulamento atribuído ao petróleo: "Ou pára de crescer. Ou se endivida. Ou encontra soluções novas para suprir os combustíveis reclamados pelo progresso." O governo, dizia o chefe da Nação, rejeitava a hipótese de "parar de crescer", ante a necessidade de criar empregos, e escolhera a alternativa de produzir mais, poupar, reduzir o consumo, para gerar excedentes destinados à exportação, mantendo a criação de empregos, ao mesmo tempo que expandia as fontes de energia alternativa.

ESTILO FMI

Não se aceitava a "recessão", em resumo. As medidas adotadas para conter o consumo — seguindo o figurino das recomendações clássicas do Fundo Monetário Internacional —, voltadas principalmente para a redução do poder de compra da classe média, tenderiam, na visão oficial, a provocar uma queda temporária na produção de certos setores, derrubando também as importações de matérias-primas, peças, componentes (e petróleo), ajudando o País a reequilibrar sua balança comercial. Além disso, o estreitamento do mercado interno forçaria as empresas a tentarem exportar, conseguindo-se, após alguns meses de queda na produção, voltar aos níveis anteriores graças ao mercado externo. Aparentemente, houve um erro nos cálculos dos planejadores, que não levaram em conta os enormes estoques de matérias-primas e produtos acabados acumulados pelas empresas em 1980, para tirar proveito do crédito barato (correção monetária tabelada em 50%) e do dólar barato (correção cambial igualmente tabelada em 50%). Com a "desova" desses estoques e crescimento insuficiente nas exportações, a queda na produção e no nível de emprego superou as previsões, ampliando o clima de pessimismo e incertezas que, por sua vez. realimentaram a retração na demanda e, novamente, na produção e no mercado de trabalho.

Já a partir de setembro, o governo revia sua política, restituindo parte do poder aquisitivo da classe média, através da redução do Imposto de Renda cobrado na fonte, para finalmente adotar, neste mês de dezembro, um "pacote" destinado a reativar a economia de 1982. Paradoxalmente, o abrandamento da crise cambial, refletido no superávit de 1 bilhão de dólares na balança comercial este ano, e expectativa de um resultado ainda mais favorável (3 bilhões de dólares) em 1982, resultou exatamente da área sobre a qual o Presidente e seus planejadores não colocavam grandes esperanças: o petróleo. A estabilização dos preços decidida pela Opep, a contenção no consumo (inclusive via substituição) e o veloz ritmo de aumento da produção, pela Petrobrás, permitiram que o País gastasse apenas 9,7 bilhões de dólares nas importações de petróleo, dos quais devem ser descontados, ainda, 1.2 bilhão de dólares reexportados pela Petrobrás sob a forma de derivados.

Num balanço final, a "conta petróleo" custou apenas 8.5 bilhões de dólares ao País - contra 12.8 bilhões previstos no final de 198, explicando o semblante carregado que o presidente da República exibia ao discursar, no final de 1980.



Acompanhar a vida do site RSS 2.0 | Mapa do site | Administração | SPIP Esta obra está licenciada sob uma Licença CreativCommons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil