Jornal Diário da Manhã , quarta-feira 9 de novembro de 1983
Estranho “raciocínio” – líderes empresariais paulistas estão defendendo a “tese” de que o preço da recessão está “caindo sobre os ombros da iniciativa privada”, enquanto persistem os excessos na área governamental. Dizem que as empresas vão tão mal, que as indústrias paulistas já mandaram embora 450 mil trabalhadores, nos últimos três anos. E concluem: chegou a hora de também o governo demitir em massa, “pagando um preço pelo combate à inflação”. Engraçado: as indústrias paulistas, como mostram seus balanços, vêm aumentando estrondosamente seus lucros este ano. Quer dizer: não estão “arcando com sacrifício” nenhum. E mais ainda: não precisavam, portanto, demitir em massa, a pretexto de que de outra forma quebrariam. O que está acontecendo, na verdade, é que há muita gente tirando proveito da crise. E mentindo ao País. Um tema a ser estudado pelas lideranças sindicais.
O black – vem aí a aprovação do 2.065, vem aí a entrada de dólares do FMI e banqueiros internacionais. Pela lógica, o mercado negro do dólar vai enfraquecer ainda mais. Quem tem dólares em casa vai aumentar seus prejuízos (que já existem, pois a moeda norte-americana, no black, está na faixa dos Cr$ 1.200/Cr$ 1.300 praticamente há três meses). Pela lógica, é hora de vender. Com urgência, e aplicar o dinheiro em outras áreas.
Lá fora – as vendas da indústria automobilística brasileira caíram 8%, em outubro, no mercado interno. Como as exportações subiram 50% (de 10 mil para 15 mil veículos), o resultado final acusou avanço de 2%.
Lá fora – nos dez primeiros dias de novembro, as vendas da indústria automobilística norte-americana subiram 36% em relação a 82. O resultado beneficia as filiais brasileiras de multinacionais norte-americanas, que exportam peças e componentes de determinados modelos para suas matrizes.
Soja fraca – mais dois fatores a debilitarem a cotação da soja no mercado mundial. O farelo de soja, usado como ração animal, passou a sofrer a concorrência do farelo de trigo (devido à superprodução e queda de preços mundiais), cujo uso cresceu 40%, para 9,5 milhões de toneladas, este ano, nos EUA. E o óleo de soja está ameaçado de substituição pelo óleo de amendoim, devido a uma safra recorde na Índia: 7,3 milhões de toneladas.