As fábricas de tratores estão com 50% de capacidade ociosa, isto é, têm capacidade para produzir 100 e só estão vendendo 50. Os grandes frigoríficos estão na mesma situação (e, por isso, estão pressionando o governo: a pretexto de que pequenos matadouros e frigoríficos não podem funcionar em boas condições sanitárias, o que é falso, evidentemente, querem que o abate de gado seja reservado praticamente só para eles). A indústria de máquinas agrícolas cresceu 40% ao ano nos últimos quatro anos – e está em crise, também com capacidade ociosa. Grandes indústrias de móveis, como a Cimo ou a Bérgamo, preparadas para produzir em grande escala, entram em concordata. As indústrias de vagões estão produzindo apenas 30% do que poderiam. O governo é obrigado a socorrer a Riocell, antiga Borregaard, com 3 trilhões de cruzeiros velhos, porque não há mercado para sua celulose. E trata-se de uma fabriqueta, em comparação com as gigantescas fábricas de papel e celulose programadas dentro do megalômano plano brasileiro para o setor; algumas das quais entram em funcionamento este ano já precisando de socorro oficial, por falta de mercado (caso da gigantesca Aracruz). As fábricas de bicicletas investiram para dobrar a produção e só têm mercado para a metade do previsto. Indústrias de esquadrias de alumínio pedem concordata. Há excedentes de produtos petroquímicos, que é preciso exportar — com subsídios, óbvio. No setor de equipamentos para telecomunicações, o quadro é o mesmo. O setor têxtil investiu maciçamente nos últimos anos, modernizou-se violentamente — e, agora, é lógico, a indústria de máquinas e equipamentos para o setor já não recebe o mesmo ritmo de encomendas — e teme a crise. Há excedentes de produção na área de embalagem: de plástico, ou de papel e papelão. Um desastre? A grande crise? Ao contrário. Pausa para repensar o país.
O óbvio. As análises superficiais que andam por aí atribuem esse quadro ao "desaquecimento da economia". A explicação é tão "furada" quanto a tese, permanentemente vendida à opinião pública até por ministros, segundo a qual a atual pasmaceira da economia mundial é resultante da "crise do petróleo". Por trás do fenômeno da capacidade ociosa de todos aqueles setores (e a lista poderia prolongar-se indefinidamente) está um outro fenômeno, para o qual o país não despertou ainda, por um desses bloqueios mentais incompreensíveis. A economia brasileira enfrenta, pura e simplesmente, as consequências do superinvestimento, isto é, das ampliações excessivas da capacidade de produção, possibilitadas, acima de tudo, pela política de incentivos e crédito subsidiado. Não apenas a ampliação da capacidade, mas, também, a megalomania, o apoio aos gigantescos projetos, à automação, a modernização indiscriminada. Construímos, modernizamos, automatizamos fábricas para um mercado que não existe. E que não existe, exatamente, por força do mesmo fenômeno: o apoio às grandes empresas, às grandes unidades fabris, concentrou a renda, impediu o crescimento do mercado de trabalho — e do mercado de consumo. Desperdícios monstruosos? Distorções? Sim. Mas também a oportunidade de ouro para alterar radicalmente as diretrizes de política econômica — e os rumos do "modelo" daqui para a frente.
O impasse. A existência de capacidade ociosa de grande vulto em importantes segmentos industriais traz uma consequência óbvia, sobre a qual também não se falou até o momento. O quadro atual mostra claramente que as necessidades de investimentos no Brasil para atender à demanda, não apenas imediata, mas também a médio prazo, são infinitamente menores do que se apregoa. Ou, mais ainda: que, neste momento, o importante é ampliar o mercado de consumo, redistribuir os recursos nacionais, numa fase inteiramente nova para a economia nacional, com o crescimento econômico acompanhado da correção das distorções e injustiças na área social.
Sem sobressaltos. A supercapacidade de produção, resultante do superinvestimento, abre caminho para a concretização da "reviravolta do modelo, conforme proposto pelo Ipea, ou pela própria Conclap – Conferência das Classes Produtoras. O governo deve efetivamente rever a sua política de incentivos, de alto a baixo, em caráter de urgência/urgentíssima, cancelando-os em sua maior parte – já que não se justifica incentivar a capacidade ociosa. Os recursos poupados com o cancelamento de incentivos deverão ser encaminhados para as áreas negligenciadas até hoje (proposta do Ipea que coincide com a proposta da Conclap): a agricultura, a pequena e média empresa, a absorção de mão-de-obra. Lógico que essa reviravolta deve ser completa, isto é, acompanhada de uma mentalidade nova, contrária à herdada do "modelo concentrador". Como aponta Langoni, como aponta o Ipea, como aponta a Conclap, é hora de adotar incentivos não para a compra de máquinas, mas para a criação de empregos. O diagnóstico do Ipea tem idéias audaciosas (quando comparadas com a megalomania delirante que atingiu a tecnoestrutura brasileira desde a época do "milagre") nessa área. Apenas num exemplo: em lugar de gigantescas obras públicas, confiadas a grandes empreiteiras — com a utilização de equipamentos capazes de realizar o trabalho de milhares de homens — o Ipea propõe pequenas obras espalhadas por todo o Brasil. As próprias prefeituras receberiam os recursos para sua execução, evitando-se a automatização, o uso de equipamentos, e utilizando-se exatamente a mão-de-obra não-qualificada, a pior remunerada, hoje, no país. O efeito lógico dessa política, ao criar empregos em todo o país, seria gerar renda de forma esplendidamente distribuída, ampliando-se o mercado consumidor "de baixo para cima", rumo a um mercado interno de massas. E a agricultura’? Deliberadamente, foi deixada para o final. O grupo de trabalho da Fundação Getúlio Vargas que faz um diagnóstico do setor, possivelmente como subsídio ao próximo governo, está chegando a conclusões também muito distantes das soluções implantadas pelo "modelo concentrador". Conclui a FGV que fica mais barato subsidiar o produto de baixa renda, o minifundiário, os milhões de párias rurais, do que tentar "ajeitá-los" nas cidades que incham por causa do êxodo rural. Sugere, mesmo, algo como "frentes de trabalho"permanentes nas atividades agrícolas, para deter o êxodo – criando emprego, renda e mercado consumidor em todo o Brasil. O Brasil faz suas contas. E ameaça sepultar o equivocado "modelo concentrador".