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  Protestos provocam o recuo das taxas de juros nos EUA

Jornal Folha de S.Paulo , quarta-feira 24 de fevereiro de 1982


Os principais bancos norte-americanos reduziram ontem, de 17% para 16,5%, as taxas de juros cobradas de seus clientes preferenciais (primerate), no mercado dos EUA, cancelando assim a majoração de 0,5% que haviam adotado há apenas uma semana. A medida já fora anun­ciada, na véspera por uma série de pequenos bancos norte-a­mericanos, ao mesmo tempo em que, ainda na segunda-feira, as taxas de juros no mercado de eurodólar (libor), cobradas nos empréstimos internacionais contraídos por países como o Brasil, caía de l6,12 para 15,68%.

A inesperada redução na prime (e na libor) interrompe uma escalada do custo do di­nheiro iniciada em janeiro, após as taxas de juros nos EUA terem atingido seu ponto mais baixo — 15,75% — dos últimos meses. Aparentemente, a decisão dos banqueiros norte-americanos estaria ligada a uma redução, de 3,1 bilhões de dólares, no volume de meios de pagamento do país. O movimento anterior, de alta de 16,5% para 17%, fora atribuído a um "estouro" de 11,0 bilhões de dólares ocorrido nos meios de pagamento em ja­neiro: isso, segundo os ban­queiros, exigiria que o Banco Central (que, nos EUA, é total­mente independente do gover­no) adotasse novas medidas de "aperto" no crédito, tornando o dinheiro escasso e, portanto, justificando uma elevação nos juros.

Ontem, em depoimento no Congresso norte-americano, o presidente do Banco Central, Paul Volcker, advertiu contra a importância excessiva (como ocorre no Brasil) que se tem dado a oscilações de curto prazo, seja em termos de expan­são ou contração dos meios de pagamento, como motivo para aumentar ou diminuir as taxas de juros. Lembrando que, em política econômica, o que impor­ta é a tendência, e não as variações momentâneas. Volc­ker reiterou que o Banco Central não partirá para uma política monetária frouxa, como forma de reduzir as taxas de juros, pois isso prejudicaria o combate à in­flação. No entanto, disse Volc­ker, não se deve confundir política firme, de controle dos meios de pagamento, com uma política recessiva: segundo ele, a expansão prevista para os meios de pagamento norte-americanos em 1982, estabelecida no orçamento mone­tário, "deixa espaço para a recuperação da economia". Para ele, essa recuperação deverá surgir no início do segun­do semestre do ano e — graças ao declínio da inflação resultan­te da austeridade monetária, segundo o seu entender — ela desta vez poderá ser "contínua", ao contrário do que ocorreu no passado, quando periódicos surtos inflacionários (como no Brasil) exigiam a aplicação de freios na economia, que mergulhava, assim, em ciclos alternados de recessão e "aquecimento".

A advertência de Volcker con­tra a "supervalorização" das variações de curto prazo nos meios de pagamento e taxas de juros parece refletir uma ten­dência nova, inclusive junto aos próprios banqueiros. Michael Callen, vice-presidente sênior do Citibank, em declarações à AP/Dow Jones, justificou a redução na prime afirmando: "Essencialmente, havia um am­biente psicológico no mercado favorável a uma redução significativa nas taxas de juros." Para ele, as estatísticas sobre os meios de pagamento liberadas pelo Banco Central na última sexta-feira apenas forneceram "um pequeno estímulo — para alguns, um poderoso estímulo — para tomar a decisão". Para Callen, os resultados já obtidos mostram que o Banco Central "não terá dificuldades em man­ter a expansão dos meios de pagamento dentro dos limites traçados". A partir dessa de­claração, analistas consideram que as taxas de juros poderão continuar a cair, daqui para a frente, nos EUA, refletindo-se sobre todo o mercado financeiro internacional.

A referência de Callen ao "clima psicologicamente fa­vorável", no mercado, à re­dução dos juros, é também in­terpretada pelos analistas como uma alusão à imensa reação, in­terna e externa, que o alto custo do dinheiro vem provocando. Nas últimas semanas, os gover­nos de outros países indus­trializados têm criticado duramente a política de juros elevados dos EUA, afirmando que ela veio frustrar as perspec­tivas de recuperação da eco­nomia mundial. Para este ano, os economistas previam um afrouxamento na política adotada pelos países indus­trializados, para combater a in­flação e os déficits da balança comercial. A elevação do custo do dinheiro nos EUA, no entan­to, determinou movimentos semelhantes em todo o mundo, desestimulando as empresas a investirem, e agravando-se a recessão — que, hoje, causa imensa preocupação nos países ricos, diante do nível sem precedentes alcançado pelo desemprego, entre sua população.

A queda na prime se espalhou por todos os segmentos do mer­cado financeiro, também ontem. As taxas de juros no "open" dos EUA, para financiamento das carteiras de títulos do Tesouro (as LTN de lá) recuaram violen­tamente, da casa dos 16% para os 13% ao ano. Os próprios títulos do Tesouro, que vinham pagando 14,740% ao ano (para os papéis de três meses), pas­saram a render 12,695% ao ano — um dado que certamente alegrará o presidente Ronald Reagan que, em sua mensagem anual ao Congresso, se queixara também dos altos juros vigentes no mercado, por aumentarem substancialmente os encargos da dívida interna norte-a­mericana (da ordem de 1,0 trilhão de dólares), em 1981.

A redução das taxas de juros havia provocado uma queda do dólar nos mercados mundiais, na segunda-feira. Ontem, as declarações de Volcker, rei­terando que a política monetária não será afrouxada, provo­caram nova alta da moeda norte-americana. O ouro, em compensação, voltou a cair, para 360 dólares a onça, atingin­do seu nível mais baixo em dois anos e meio.



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