[O Brasil de Aloysio Biondi Obra Vida Projeto

  E há os tecnocratas da comunicação

quarta-feira 28 de dezembro de 1977


O Sindicato dos Jornalistas de São Paulo publicou em seu jornal interno, há alguns meses, uma mesa-redonda em que vários profissionais debatiam, de forma ampla, a posição do jornalista, e da Imprensa, ante os fatos e a sociedade — ou, mais precisamente, a ética no jornalismo. O ponto de partida para a discussão foi a cobertura dada por alguns jornais aos jogos-treino da seleção brasileira de futebol, e na qual houve a divulgação de notícias, inclusive distorcidas, que provocaram uma crise no selecionado, em benefício de certos interesses políticos. A discussão não se limitou, evidentemente, ao jornalismo esportivo, transbordando para um tema mais amplo: com quem a Imprensa tem compromissos, isto é, que interesses ela deve representar? É com a sociedade que ela tem compromissos, são os interesses da sociedade que ela deve representar, é a resposta acaciana. Mas, neste país radicalizado, ela anda tão esquecida, que a iniciativa do sindicato paulista foi um dos acontecimentos mais importantes dos últimos anos, em termos de questionamento da posição da intelectualidade brasileira diante da realidade nacional.

A amnésia. Já se procurou demonstrar, em artigo anterior ("Entre Conceição e os Atallas", IstoÉ n.° 52) que a intelectualidade brasileira, e a Imprensa dentro dela, tem-se esquecido exatamente de, diante de cada situação, diante de cada medida governamental, diante de cada dado, perguntar-se se eles são benéficos, se eles interessam à sociedade, ao cidadão — ou representam privilégios para pequenos grupos dentro da sociedade. Afinal, a vida política, traduzida em linguagem clara, se resume exatamente numa luta eterna para ajudar a sociedade a oferecer as melhores condições de vida a todos os seus elementos — e cada um daqueles dados contribui para a soma final. E é aí que, como foi levantado no debate promovido pelo sindicato, que entra em cena o problema da ética profissional. Se o compromisso da Imprensa é, realmente, com a sociedade, ela deveria fornecer, à sociedade, as informações, os dados destinados a ajudá-la a compreender a realidade. E, não, "selecionar", dar destaque, abrir manchetes, apenas e maniqueisticamente, para certos temas. Quando assume esse comportamento, a Imprensa, os .profissionais de Imprensa, que tanto batalham pelo diálogo e pela plenitude democrática, estão tendo um comportamento antidemocrático — e trabalhando contra a democracia. Estão impedindo que a sociedade, a opinião pública, evoluam, ganhem novas condições de análise, continuando portanto confusa — e presa fácil de apelos antidemocráticos.

Implicância. Até a modesta, ou aparentemente modesta, "campanha da pechincha", serviu para demonstrar a confusão de propósitos que grassa na Imprensa e na chamada intelectualidade brasileira. Hoje, a grande temática do debate político brasileiro é o fato de não haver participação coletiva nas decisões, o fato de as decisões serem "impostas de cima para baixo" e essa cantilena toda. Ora, quando o governo convocou o cidadão a participar da luta contra a carestia, todas as baterias foram acionadas contra a medida. O argumento mais usado foi sempre o mesmo: o governo, impotente para conter a especulação, "transferia" a responsabilidade para o cidadão. Está aí a contradição fundamental, cega, dessas críticas: pede-se tanto o diálogo, a "participação coletiva", e, quando esta é proposta, o que é que se pede? Que venha a decisão "imposta de cima para baixo", isto é, a ação oficial contra os preços altos. Do próprio ponto de vista da inflação, é evidente que a crítica é "furada": sempre haverá especulação, abusos, enquanto o consumidor não souber reagir, defender-se. Mas é do ponto de vista político que a contradição é gritante: quando se estimula um cidadão, os cidadãos, a defender seus interesses, a defender seus direitos, há mobilização coletiva, há o início de um aprendizado de atuação, de reivindicação. Detona-se um processo de exercício do poder de cada um, e, portanto, de poder da opinião pública. Quem não tem os olhos tampados pelo sectarismo já terá concluído que, numa análise mais ampla, a "campanha da pechincha", ainda que visasse à inflação, poderia e deveria ter sido vista também como uma etapa de um processo de conscientizacão política.

Puerilidade. Há coisa de um ano e meio, o prefeito Olavo Setúbal, de São Paulo, foi intensamente provocado por um repórter, que negava a validade do metro, das ruas de lazer, dos calçadões, da arborização da cidade, da política voltada para a melhoria da qualidade de vida, em resumo, porque — é óbvio — a coletividade não participava, e — é óbvio — tudo era decidido por "tecnocratas". O prefeito paulistano devolveu a provocação de forma sutil, indagando, ao repórter, se o fato de a coletividade não “participar”, não avaliar corretamente, não apreender o significado dessa política, não era culpa de uma deficiência dos "tecnocratas da comunicação". O prefeito pôs o dedo na ferida: uma sociedade só pode participar, saber o que é bom ou ruim para ela, opor-se ou aprovar, quando é corretamente informada. E ela deixa de ser corretamente informada, ela deixa de saber, quando os “tecnocratas da comunicação” decidem, fascistamente — não há outra expressão — que não devem divulgar certas informações, e devem dar destaque a certas informações, porque é sua "justificativa política" — só assim se conseguiria mobilizar a opinião pública — na direção escolhida por ele, tecnocrata da comunicação, é evidente. A posição é tão totalitária quanto a da censura de direita: não se quer formar opinião pública, não se quer melhorar seu nível, não se quer elevar o nível de informação política do cidadão. Mas manipulá-lo. Na semana, o governo Geisel tomou a decisão de promover a descentralização industrial do país, proibindo a concessão de incentivos às indústrias que queriam se instalar na Grande São Paulo. É uma decisão histórica, um marco na vida da sociedade brasileira, com toda a sorte de implicações para o futuro da coletividade. É uma medida para redistribuir a renda, em grande escala. E é um ousado desafio aos poderosos grupos econômicos e políticos de São Paulo. No entanto, os maiores jornais de São Paulo dedicaram à decisão "pálidas" notícias de primeira página, e sob um prisma absolutamente insignificante: foi apresentada como mais uma medida para combater a poluição. Estarão certos, os tecnocratas da comunicação?



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