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  Medidas contra a recessão

Jornal Folha de S.Paulo , domingo 10 de março de 1996


Os números estão aí, para mostrar que a recessão avança como bola de neve. Em fevereiro, a indústria paulista acelerou o ritmo de demissões: foram 5.000 desempregados na terceira semana do mês, contra 6.300 nos quinze dias anteriores. Isso, depois do resultado negativo de janeiro e dos incríveis 9,2% de redução no emprego industrial em dezembro, segundo o IBGE.

Desmente-se assim a teoria otimista de que as fábricas voltariam a admitir, após esgotados os estoques de 95. Pior: o comércio da Grande São Paulo, segundo a federação do setor, que caiu 16% em janeiro, sofreu novo recuo em fevereiro, de 13%, na comparação com 95.

Vale dizer: não há perspectiva de grandes encomendas à indústria, nem do consumidor voltar às compras: ele nem sequer está conseguindo pagar suas dívidas antigas. Apenas 45 mil conseguiram limpar suas fichas no SPC, em São Paulo, contra 77 mil em janeiro _fazendo com que o número de carnês em atraso crescesse para 2,8 milhões (contra o número "normal" de 600 mil, antes da recessão).

Comércio sem vendas, indústria sem encomendas, trabalhador sem emprego e sem renda para comprar. Não surpreende que falências e concordatas batam recordes, provocando reações em cadeia dentro da economia _e das quais os bancos não escaparão por muito tempo. Classe média, povão e empresários não esboçam a mínima reação diante desse quadro alarmante. Bombardeada por um noticiário otimista, a opinião pública encara a recessão como uma fatalidade. Ou como um "preço" a pagar para "modernizar" a economia, por meio da abertura do mercado a produtos estrangeiros.

Afirma-se não ser possível uma marcha a ré nessa área. O diagnóstico, de impossibilidade de mudanças, é falso. A recessão é resultado de erros na implantação das teorias da "modernidade". Cabe ao presidente FHC revê-los imediatamente.

Privilegiados

Teoria: os produtos importados estão roubando mercado porque são mais baratos. Realidade: em 95% dos casos, a vantagem é outra: os fabricantes estrangeiros vendem com 180 dias (ou mais) de prazo para pagar. E a juros de 6% ao ano _contra 8%, 12%, 15% ao mês nos bancos brasileiros. Erro do governo: não criou linhas de crédito para os produtos nacionais.

Pés-de-barro

Teoria: a abertura do mercado forçará indústrias a modernizarem a produção. Realidade: pouca gente entendeu até hoje que o governo não facilitou apenas a importação de produtos finais, como automóveis, roupas etc.

Erro do governo: facilitar a importação de peças e matérias-primas. Com isso, pequenas e médias empresas estão perdendo seus clientes _e desempregando.

Desproteção

Teoria: as empresas eficientes serão capazes de enfrentar a concorrência externa. Realidade: para muitos produtos, os fabricantes estrangeiros têm subsídios do governo, isto é, têm vantagens que lhes permitem vender muito abaixo dos preços que cobram em seus próprios países.

Erro do governo: não montou um esquema de fiscalização para punir e impedir essas importações a preços irreais (dumping), que são ilegais.

Desgoverno

O desemprego e a recessão não são uma "exigência" da modernização. Estão sendo provocados pela improvisação, pela falta de políticas de crédito, de montagem de esquemas de fiscalização e de apoio às empresas fornecedoras e por juros altos.

PS - Até quando empresários, agricultores, classe média e povão aceitarão passivamente a destruição de seu patrimônio e fonte de renda?



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