Revista da Fenae , fevereiro de 1999
Privatizar a Caixa Econômica Federal, o Banco do Brasil e a Petrobras. A proposta já está no ar, lançada inclusive através dos principais jornais do país, em editoriais de primeira página ’’exigindo’’ medidas bombásticas do governo FHC para reestruturar a economia brasileira. Um programa de reconstrução nacional, depois da devastação causada por quatro anos de política ’’modernizante’’ do sociólogo-presidente, que para tanto contou com o apoio incondicional dos meios de comunicação. A sugestão mostra, acima de tudo. Que os aliados de FHC ainda não desistiram da tática escapista, isto é, tentam ignorar as causas verdadeiras da explosão do Real, resultantes do escancaramento ao exterior e todas as suas conseqüências. Apontam como ’’solução’’ novas privatizações, embora até as crianças saibam, a esta altura, que a venda das estatais brasileiras devorou o patrimônio público inutilmente, incapaz de impedir o aumento brutal do endividamento do setor público, os juros adoidados e a crise incontrolável. Qual a possibilidade dessa sugestão esdrúxula ser acolhida? No caso da Petrobras, somente a mobilização popular poderia impedi-la - pois, na verdade, a ’’privatização’’ já está em marcha, com a entrega até das fabulosas jazidas de Campos a ’’parceiras’’ estrangeiras - pelo ’’preço’’ desavergonhadamente ridículo de 50 mil (é mil, mesmo) a 150 mil reais pela concessão do direito de exploração. Ventos diferentes, porém, sopram para a Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil e, mesmo, bancos estaduais de privatização já programada. O próprio presidente da República, a esta altura, deve ter aprendido algumas lições com a crise - e chegado à conclusão, prática, de que qualquer programa de reconstrução nacional vai exigir a utilização de instituições financeiras estatais.
Desde setembro/outubro, os bancos privados - nacionais e estrangeiros -, diante de deterioração dos indicadores da economia, começaram a negar financiamentos para as empresas exportarem. A venda de mercadorias para o exterior, essencial para trazer os dólares de que o Brasil precisava desesperadamente, foi duramente atingida.
As exportações só não sofreram paralisia total porque o governo - e, portanto, o presidente FHC conhece o problema - acionou o BB. Coube ao BB captar dólares no exterior, para financiar os exportadores.
Da mesma forma, coube ao Banco do Brasil vender dólares - como ’’laranja’’ do Banco Central - nos mercados tradicionais e nos chamados ’’futuros’’, na tentativa de evitar a queda do Real. Um papel - carente de regras claras, para evitar distorções e favorecimentos - cuja necessidade será ainda maior no período de reconstrução, em que não faltarão fases de grandes oscilações nas cotações do dólar, exigindo intervenções do governo para abandonar manobras especulativas. Isto não é tudo, porém. O presidente FHC certamente não se esquecerá, tampouco, do passa-moleque que os bancos internacionais aplicaram nos governantes brasileiros. Como assim? Em novembro, quando se discutia o acordo com o FMI, importantes banqueiros internacionais vieram ao Brasil, e deram como ’’favas contadas’’ um pacote de ’’socorro’’ também dos seus bancos, privados - isto é, além do apoio acertado com o FMI e países ricos. Esse ’’apoio’’, de dezenas de bilhões de dólares, não veio. Pior ainda: ele foi usado como desculpa para os banqueiros internacionais se recusarem a renovar (o que é normal) empréstimos, linhas de crédito à importação e exportação, concedidos a empresas brasileiras.
Ao exigirem o pagamento de todos esses créditos, eles aceleraram a saída, erroneamente denominada ’’fuga’’ de dólares, e a crise do Real.
A desvalorização do Real, ao contrário do que economistas dizem, não resolverá automaticamente os problemas da ’’falta de dólares’’ que levaram à grande explosão. Não haverá, como esses analistas prevêem, aumento automático, em grande volume, nas exportações, nem queda imediata nas importações.
O quadro é de chorar. O Brasil destruiu sua agricultura. De exportador, passou a importador de algodão, milho, arroz, feijão - e, pasme-se, até de coco da Bahia e cacau. O país não produz nem para o seu consumo. Não há ?sobra? de produtos agrícolas para exportar. Em todos estes casos, a reconstrução da produção nacional dependerá de uma política firme, e não mero blablablá, de apoio a empresas e produtores locais. Um papel que instituições oficiais, como a Caixa Econômica Federal e bancos estaduais, têm condições de desempenhar, cobrindo a falta de empréstimos dos bancos privados, que certamente estão dispostos a correr ainda menos riscos nessa fase de readaptação da economia. Não é hora de falar em privatizações.