[O Brasil de Aloysio Biondi Obra Vida Projeto

  Cadê o boi que estava faltando?

quarta-feira 4 de janeiro de 1978


O governo asfalta uma rodovia, dentro de certos padrões técnicos, que dão o limite de resistência da pavimentação. Se os caminhões começarem a trafegar com cargas excessivas, aquele limite de resistência será ultrapassado — e a pavimentação se esfarelará no espaço de meses, forçando o governo, isto é, a coletividade, a refazer, quase que a cada ano, a mesma estrada. Técnicos de todo o mundo, em suas visitas ao Brasil, se escandalizam com o altíssimo padrão do asfaltamento das rodovias brasileiras — e, mais ainda, com a sua violenta deterioração. Por quê? Porque os caminhões trafegam com cargas acima do limite previsto. Os imensos desperdícios representados pelos gastos acima do necessário, na construção, e pelos gastos antecipados, na reconstrução de rodovias, são outro exemplo simples, mas elucidativo, de como se faz a concentração de renda no país. Os fretes a serem cobrados pelas empresas transportadoras são calculados, pelo governo, com base no limite de carga que seus caminhões poderão movimentar. Ora, se esse limite não é respeitado, aumentam os lucros das transportadoras — às custas da nação. No entanto, quando o governo tenta exigir que a lei seja cumprida, respeitando-se aqueles limites, o setor reage violentamente. Surgem na Imprensa as tolas reportagens e entrevistas afirmando que, se a intenção oficial for levada adiante, os fretes terão que ser majorados, provocando inflação. E faltam, na Imprensa, as análises para mostrar que as afirmações são falsas. Ou, mesmo que sejam verdadeiras, faltam as análises para mostrar que não há outro caminho, por dois motivos: primeiro, porque a destruição das rodovias é um desperdício vergonhoso, devorando recursos que deveriam estar sendo aplicados em outras áreas; segundo, porque, do ponto de vista da coletividade, o pseudo "barateamento" dos transportes, via destruição consentida das rodovias, é um engodo — a coletividade aparentemente estaria tendo transportes 10% mais baratos, num cálculo hipotético, mas na verdade estará pagando 20% a mais, num custo "invisível", ante os gastos com a reconstrução.

A omissão. Manifesta-se, neste Brasil, grande admiração pela capacidade que os cidadãos de países desenvolvidos têm de mobilizar-se, agir em defesa do interesse coletivo — e atribui-se esse comportamento ao grau de liberdade política existente naquelas nações. Pode até ser verdade. Mas falta uma grande pergunta: de onde surge esse níve de consciência? A resposta evidente é uma só: do grau de informação e, mais ainda, da qualidade da informação recebida pela opinião pública. As lideranças intelectuais desses países, a Imprensa desses países, sabem que a oposição sistemática não leva à evolução do pensamento coletivo, do processo político: diante de cada fato, de cada dado, tentam ver onde está o interesse coletivo, para defendê-lo, e onde está a busca de privilégios, para combatê-la. É isso que está esquecido no Brasil (ver artigo anterior, "Entre Conceição e os Atallas", IstoÉ n.° 52). Como levar essa coletividade a saber de seus direitos, a combater distorções, senão através de análises claras e honestas ante cada problema e cada situação nova, por insignificantes que pareçam (como é o caso dos caminhões)?

Complacência. As lideranças intelectuais brasileiras continuam "vagabundamente acadêmicas" ou "vagabundamente oposicionistas" (ver artigo citado). Numa posição comodista, divulgam, disseminam toda a sorte de problemas que a economia enfrenta, de uma forma absolutamente equivocada: encaram sua ocorrência como problemas e dificuldades "para o governo", e não "para a nação", para a coletividade. Com essa divisão caolha, tomam sempre, ou na maioria das vezes, o partido errado. Já se citou aqui o equívoco cometido em relação ao Plano do Álcool, que, com a ajuda até da Imprensa, acabou beneficiando os grandes usineiros, os Atallas (ver artigo citado). Há outros, dezenas de outros. Um deles, recente e de clareza cristalina, corresponde à "guerra" em torno dos preços da carne, este ano. A Imprensa, como segmento da intelectualidade, jamais questiona se determinado produto agrícola deve realmente custar mais caro: toma-se, aprioristicamente, a posição de defesa do agricultor, esquecendo-se que a agricultura é apenas um segmento da sociedade e que dar-lhe vantagens indevidas é, da mesma forma, concentrar a renda em um setor, às custas do resto da coletividade. Os jornais publicaram — como publicam sempre, quando se trata de líderes empresariais criticando o governo — declarações de líderes pecuaristas paulistas e gaúchos afirmando que a alta de preços era impossível de ser contida, porque faltava gado, havia escassez de carne etc. Afirmavam ainda que nem a importação poderia conter a alta, "porque faltava carne no mundo", acrescentando que os estoques de carne congelada do governo eram mínimos, no máximo de 70 mil toneladas. Todo o noticiário da Imprensa, em resumo, serviu ao lobby, criou na opinião pública a sensação de inevitabilidade da alta — e, evidentemente, trouxe a reafirmação da "incompetência" do governo. Uma Imprensa que não fosse "vagabunda-mente oposicionista", ou lideranças intelectuais que não fossem "vagabundamente acadêmicas" saberiam que há 400 mil toneladas de carne encalhadas na Europa, por exemplo. Como saberiam que o governo estocou mais de 200 mil toneladas de carne congelada em 1977, exatamente para evitar a alta, no fim do ano. Nada disso foi dito ao cidadão, abrindo-se as manchetes apenas para a "alta inevitável". Mas isso não é tudo. Menos de um mês depois da alta de preços, os mesmos líderes da pecuária estão pedindo ao governo que antecipe suas compras de gado (para formar os estoques de carne congelada), porque sobram bois nos pastos. E o que acontece? A Imprensa, da mesma forma, começa a falar no "desespero" do produtor, a reproduzir declarações dos mesmos líderes, afirmando que o governo (a coletividade) é padrasto com a pecuária, que vai haver uma tragédia social no Rio Grande do Sul e assim por diante. É sintomático, é revelador. Se a Imprensa (e a intelectualidade brasileira) tivesse por hábito pensar no interesse da coletividade e não alimentasse o vício da oposição sistemática, estaria procurando os líderes pecuaristas para cobrar-lhes as mentiras ditas antes, em prejuízo da coletividade. Isso não ocorre. As distorções, como a concentração de renda, persistem no Brasil também devido ao tolo vício da oposição sistemática. É preciso repensá-la.



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