Revista Caros Amigos , novembro de 1999
O governo Fernando Henrique Cardoso mantém os rumos, em marcha balida, do seu projeto Avança Brasil:
INFLAÇÃO
Está de volta. Mesmo com a recessão, as empresas não conseguem mais segurar preços, diante da nova alta do dólar, acima da barreira dos 2 reais. Os custos sobem, porque as empresas do Brasil de hoje passaram a importar tudo: peças, componentes, etc. Herança permanente da desnacionalização.
DÓLAR
Disparou, desmentindo os mitos da estabilidade do real depois da queda janeiro. O país não consegue empréstimos no exterior. Os banqueiros e investidores exigem taxas de 15 por cento ao ano até para ernpréstimos ao próprio Banro Central e ao Tesouro Nacional. Taxas incríveis, para um país que tem uma dívida externa de 230 bilhões de dólares. "Quebra" pura e simples. Tudo previsível (e previsto em Caros Amigos, edição de agosto).
CALOTE
Incrível: o governo arcou com 16 bilhões de reais em juros (incluindo a correcão da dívida em dólar, em setembro). Em um mês, seis vezes a “economia" pretendida, em um ano, com a cobrança da contribuição dos aposentados. A "imprensa grande" dispara contra a decisão do Supremo. Para os juros, calculada. E os juros fazem a divida passar para 511 bilhões de reais. Mais de meio trilhão. Cresce o medo de um calote brasileiro (por isso o dólar dispara).
RECESSÃO
Em agosto, os supermercados acusaram queda de 8,7 por cento nas vendas. Basicamente, comida. Em setembro, nova queda na comparação com 1998: menos 6,7 por cento. O povo come menos. Matematicamente previsível. O oposto das delirantes previsões de "recuperação no segundo semestre", semeadas pela imprensa, parceira da grande farsa otimista do governo FHC.
QUEM MATA QUEM
Esse, o cenário económico. E seus reflexos na vida do brasileiro? Em setembro, houve um movimento de protesto dos prefeitos do Nordeste porque as verbas para socorrer a população, já cortadas violentamente na hora de elaborar o orçamento, estavam sendo retidas pelo Ministério da Fazenda. Exemplo escabroso: a suspensão, desde julho, da distribuição de cestas básicas, não só no Nordeste, mas também em bolsões de pobreza incluídos no programa Comunidade Solidaria, aquele de dona Rute Cardoso. Isso, em setembro. A imprensa noticiou. Depois, silenciou. Nos últimos dez dias de outubro, novo informe, disfarçado, sobre a situação de 1,7 milhão de famílias miseráveis: as cestas básicas ainda não haviam voltado a ser distribuídas. Só retornariam, segundo porta-voz do governo, após 10 de novembro. Isto é, 8,5 milhões de pessoas sem comida durante quarto meses e dez dias. Noventa dias sem comida. Se isso não é genocídio, não é morte pela fome, o que é então? Quanto o governo "economizou" com a retenção de verbas? Uns 30 milhões de reais (com a letra "m"). Compare-se essa "economia" com os gastos de 15 bilhões (com "b") de juros em um mês. A chamada imprensa grande? Aplaude a "austeridade fiscal". Cobrar uma tomada de posição por parte da presidenta do Comunidade Solidária, dona Rute Cardoso? Nem sonhar.
AS HERANÇAS MALDITAS
Dívida interna nas nuvens, com juros impossíveis de ser pagos. Dívida externa de crescimento explosivo, impulsionada pelos juros externos exigidos. Recessão. Fome. As heranças malditas, que a sociedade brasileira será forçada a pagar, não param de avançar. As privatizações continuam dando sua contribuição para esse comprometimento do futuro. Nao há nenhum exagero na afirmação. Cálculos realizados para o livro O Brasil Privatizado mostram que o valor recebido pelo governo (Estado e União) na "venda" de estatais foi inferior ao valor gasto pelo mesmo governo, para "prepará-las" para a privatização. Isso, num levantamento que focalizou as privatizações realizadas até dezembro do ano passado. De lá para cá, muitos fatos novos provocaram aumento do "rombo", ou diferença entre o valor gasto e o valor recebido nas privatizações. Entre eles, dois merecem destaque, por representarem a perda de bilhões e bilhões de reais, anos a fio, para os cofres do governo, isto é, para a população. Primeiro fato: a revelação, por parte do secretário da Receita Federal, de que o "ágio" (diferença entre o preço pedido nos leilões e o lance vencedor do "comprador") é devolvido peto Tesouro, sob a forma de "abatimentos" no Imposto de Renda - isto é, "perdão" da arrecadação. A anti-reforma tributária. Segundo fato, também estarrecedor: a "solução" dada pelo governo à nova etapa de privatização do setor de energia etétrica. Agora, após a venda de grande número de hidrelétricas, como em São Paulo, chegou a hora da instalação de usinas termeletricas, isto é, movidas a gás e não pela água dos rios. Os 23 projetos existentes, basicamente de grupos empresariais dos EUA, estavam "encalacrados". Por quê? Coma alta dos preços mundiais do petróleo, o custo do gás também subiu, e a energia gerada com ele ficou muito cara, anieconômica. Solução do governo, anunciada solenemente? As empresas terão gás a preços abaixo dos níveis do mercado. Como assim? O governo mandou a Petrobrás assinar contratos assim, garantindo o fornecimento a baixo custo por vinte anos. A Petrobfás, o Tesouro (seu acionista), os contribuintes vão subsidiar os grupos estrangeiros, ter prejuízos para eles terem lucro. Mais uma anti-reforma. E não é só isso: se as usinas construídas não conseguirem clientes para consumir toda a energia produzida, nem assim terão lucros menores. A Eletrobrás, isto é, o Tesouro, os contribuintes, "comprarão" a "sobra de energia"... Eis um governo que massacra aposentados, trabalhadores, funcionários, agricultores a pretexto de fazer o "ajuste fiscal" definitivo, estrutural. E, com a maior cara-de-pau, esse governo subsidia, garante faturamento e lucros, constrói um rombo, uma sangria de bilhões de reais, para os próximos vinte anos. "Rombo", genocídio, assalto ao Tesouro. Tudo às escâncaras. O governo FHC, com tanto descaramento, mostra o quanto confia na falta de reação da opinião pública, graças à vergonhosa cumplicidade dos meios de manipulação. E à total perda de dignidade de políticos que hoje estão no Congresso e nos governos estaduais.