Jornal Diário Popular , quinta-feira 12 de agosto de 1999
Os índices que medem a inflação superaram a marca de 1,0% ao mês. Isso significa que a ameaça da disparada de preços está de volta? Não. No entanto, não há nenhum motivo para comemorar. A inflação, agora, vai trazer novas aflições ao povo brasileiro, com queda ainda maior no consumo, mais recessão para as empresas, e mais desemprego para os trabalhadores. Por quê? A resposta é simples: a marcação generalizada de preços é totalmente impossível, diante da situação assustadora em que a economia se encontra.
Na indústria, basta lembrar a queda de 40% nas vendas de automóvel ao consumidor, em julho, e os desesperados cortes de preços nas revendas. No comércio, pesquisa da própria Federação mostrou que 90% das lojas na Grande São Paulo vêm recorrendo a “promoções”, ou redução de preços. Vale a pena, também, olhar o que está acontecendo no setor de imóveis. Em São Paulo, há quatro anos, o número de imóveis para alugar, anunciados por administradoras, não passava de 1.500. Hoje, são 28.000 (ou 20 vezes mais) apavorantes imóveis vazios. Assim, em lugar de exigirem reajustes previstos nos contratos, os proprietários fazem acordos para cobrar menos... Não é preciso esticar a lista.
Mais tarde - Em um círculo vicioso, empresas não conseguem reajustar preços e ao mesmo tempo os trabalhadores cortam suas compras porque os salários estão sendo “achatados” pelo desemprego. Ambos, trabalhadores e empresas, no entanto, estão enfrentando aumento de custos, ou um no “tipo de inflação”, no Brasil. Basta ver o que está puxando os índices para cima. São exclusivamente: produtos ou serviços de consumo obrigatório, como os medicamentos fornecidos por multinacionais e os planos de saúde, e os serviços como telefonia e energia elétrica, além dos impostos e “confiscos” combinados com o FMI. Neste caso, incluem-se os preços da gasolina e outros combustíveis, que sofrerão novos aumentos por causa do acordo com o FMI (como foi explicado nesta coluna). Quanto às tarifas de telefones e energia elétrica, o povo brasileiro está descobrindo, só agora, a verdade escondida pelo governo e meios de comunicação, na época da privatização: em lugar de prever reduções de preços, como tanto se dizia, os contratos com os “compradores” das estatais dizem exatamente o contrário. Isto é, os novos donos têm o direito a reajustes automáticos, todos os anos. O governo Fernando Henrique criou nova casta: os “marajás da inflação”, únicos setores que mesmo com a recessão podem impor aumentos obrigatórios de preços. Pagando o pato, empresas e trabalhadores, enfrentam aumentos de custos, entram em vermelho, retraem suas compras, cortam despesas, agravando a recessão e o desemprego.