Jornal Folha de S.Paulo , domingo 16 de janeiro de 1983
As notícias ainda freqüentes sobre falências de empresas, fechamento de fábricas e dispensa de operários nos países industrializados reforçam a impressão de que a crise mundial continua imutável, sem perspectiva de nenhuma melhora, nem mesmo a médio prazo. Na verdade, o cenário econômico mundial tem apresentado mudanças nos últimos meses, cujos efeitos favoráveis serão sentidos (se não houver novos imprevistos) ao longo do tempo – podendo-se mesmo afirmar que em alguns casos esse efeitos já estão certamente em cena, sem que as estatísticas ainda os detectem plenamente.
Juros internacionais – Após ter atingido 17% ao ano em meados do ano passado e começado a declinar em setembro, a Ilbor – taxa de juros cobrados nos empréstimos internacionais – caiu para 9% ao ano em dezembro de 82 e, neste começo de janeiro, recuou novamente, para 8,75% / 9% ao ano. O detalhe mais importante dessa queda é que, a 9% ao ano, os juros internacionais agora estão realmente a níveis muito baixos em termos reais, isto é, quando descontada a inflação mundial (medida pela inflação dos países ricos).
Efetivamente, em 1982 a inflação mundial foi de 7% (6,9%, mais precisamente), o que significa que os juros reais são de apenas 2%, equivalentes à diferença entre a Ilbor e a inflação.
Qual a conseqüência dessa mudança? Com juros reais de 2%, torna-se vantajoso, para os investidores e especuladores internacionais, tomarem empréstimos para especular nas bolsas internacionais de “comodities” (produtos agrícolas e metais), além do estímulo para a formação de estoques desses produtos, pelas empresas. Com isso, as cotações entram em alta, e os países exportadores – como o Brasil – passam a obter mais dólares em suas exportações.
Juros nos EUA
Quando a inflação norte-americana começou a cair, desde princípios de 82, ainda assim as taxas de juros entraram em alta, nos EUA, com os juros reais alcançando níveis que desestimulam investimentos das empresas, compras pelo consumidor, formação de estoques. A taxa básica dos empréstimos (‘prime’) já está em 11%, após queda recente de 0,5%, prevendo-se nova redução para futuro próximo.
Economia dos EUA
No último trimestre do ano passado, dois setores acusaram nítida reação (ambos favorecidos por reduções nas taxas de juros): construção de moradias e produção de automóveis. O início da construção de novas residências cresceu até 60% em relação a 1981, e em torno de 30% de um mês para outro. Agora, segundo o ‘Wall Street Journal’, essa reativação da construção começa a exercer efeitos multiplicadores na economia: o setor madeireiro, por exemplo, acusa rápido esgotamento dos estoques acumulados anteriormente, e há empresas do setor já utilizando 90% de sua capacidade. Também a indústria automobilística, neste começo de janeiro, conseguiu manter um ritmo de vendas sustentado, com 10% de avanço sobre igual período em 1982. O setor é o principal cliente de grande número de indústrias: metais, plásticos, peças etc, cuja produção também pode aumentar.
Queda do dólar
Já apontada aqui, em “Tendências Internacionais”, como uma das mais importantes mudanças ocorridas nos últimos dois anos, a queda do dólar (diante de outras moedas de países desenvolvidos) nos mercados mundiais tende a baratear a importação de produtos com petróleo (cobrados em dólares) e matérias-primas diversas. Cresce assim a possibilidade de intensificação do comércio desses produtos, beneficiando os países exportadores, e ativando todo o comércio internacional.
Produtos primários
As cotações dos produtos primários tendem a reagir gradativamente – e já há indícios nesse sentido – graças à somatória de todos os fatores acima: queda dos juros internacionais, dos juros dos EUA, melhora na economia norte-americana, queda do dólar.
Agricultura
Os preços dos produtos agrícolas têm sido derrubados nos mercados internacionais, reduzindo a entrada de dólares nos países produtores internacionais, também por força da superprodução mundial. O governo dos EUA – de longe o maior exportador agrícola do mundo – lançou um plano para reduzir suas safras de cereais, da mesma forma que a Comunidade Econômica Européia tenta dar compensação aos seus agricultores, para que limitem o plantio de determinadas culturas. Ainda que essas medidas só venham a reduzir as safras futuras, os preços dos mercados mundiais podem começar a reagir à medida que o ano avança, ante a perspectiva de maior equilíbrio entre produção e consumo em 1984.
Países endividados
Do começo de dezembro para cá, acelerou-se a conclusão de negociações para refinanciamento da dívida externa dos países em desenvolvimento, com a sucessão de acordos entre devedores e credores. Reduz-se assim um fator de incerteza para o sistema financeiro internacional – e para a definição de políticas econômicas por parte dos próprios países envolvidos, esboçando-se a possibilidade de um planejamento e metas com maior segurança. Deve-se lembrar, ainda que a queda da Ilbor, do “pico” de 17% para os 9% atuais (que provavelmente subirão para 10%) significa gigantesca economia no pagamento de juros sobre a dívida dos países endividados. A diferença de 8 pontos percentuais representa US$ 40 bilhões por ano, sobre a dívida de US$ 500 bilhões por eles acumulada.