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  Quem se opõe ao fim da “montanha-russa” dos preços mundiais

Jornal Gazeta Mercantil , sexta-feira 1º de novembro de 1974


A FAO já chegou à conclusão de que o problema da fome no mundo não encontrará solução apenas através de programas de aumento da produção agrícola. É preciso, diz o organismo ligado à ONU, rever também a estrutura da comercialização mundial de alimentos, que ora estimula o produtor a plantar (quando há alta de cotações) ora leva ao abandono de determinadas culturas (quando as cotações despencam).

Basicamente, a FAO deseja a criação de um “Fundão” de alimentos, para regularizar o mercado mundial, eliminando a “montanha-russa” das oscilações decorrentes dos desequilíbrios entre a oferta e a procura. Seu plano, é fácil ver, afetaria profundamente as atuais oportunidades de lucros remetentes do comércio de produtos agrícolas – e ela não ignora esse dado. Parte, mesmo, da premissa de que o “livre comércio” de alimentos é incompatível com o problema da fome, no mundo de hoje.

Na prática, o programa da FAO visaria à formação de imensos estoques de alimentos, que seriam utilizados para “socorrer” países pobres, sempre que suas safras fossem afetadas por problemas imprevistos, como secas ou inundações. Tal socorro não seria gratuito, isto é, os alimentos não seriam doados, mas vendidos – a longos prazos de pagamento.

Qual a diferença desse esquema, em relação aos atuais programas de “ajuda”, com vendas financiadas? Por ele, não haveria a possibilidade, em épocas de escassez, como a atual, de países “vendedores” – geralmente desenvolvidos, como os EUA – cobrarem preços estapafúrdios por seus alimentos, comprados em sua maior parte pelos países pobres.

A PRODUÇÃO ESTÁVEL

A proposta da FAO corta pela raiz o problema das oscilações dos preços dos produtos agrícolas – dando condições para que a produção mundial se desenvolvesse geometricamente, sem os recursos que hoje ocorrem no plantio de produtos cujas cotações “despencam”, ou para os quais não existe mercado, em determinado ano.

Mais explicitamente, no ano em que ocorresse uma superprodução mundial de soja, por exemplo, o natural, até hoje, seria uma queda brusca nas cotações. Com a baixa, os produtores veriam suas produções encalhadas, e, no ano seguinte, reduziriam o plantio, reduzindo-se então a colheita, com novas altas de preços num ciclo interminável.

Se adotado o esquema da FAO, a superprodução não acarretaria uma queda nas cotações. Por quê? Porque o FUNDÃO compraria os excedentes, armazenando-os. O produtor nada perderia, recebendo preços “normais” por suas safras, e o plantio se manteria a alto nível, no ano seguinte.

Numa outra etapa, quando sobreviesse uma quebra na produção mundial, por problemas climáticos ou de pragas, os estoques do “Fundão” seriam utilizados para estabilizar as cotações, impedindo a sua disparada.

Isto não significa que o “Fundão” iria vender os alimentos no mercado livre, que continuaria reservado às multinacionais. O “Fundão” atenderia aos países pobres, com a falta de divisas, vendendo-lhes a longo prazo, os alimentos de que necessitassem. No entanto, é fácil entender que mesmo essa “intervenção direta” impediria a disparada de preços atendidos pelo “Fundão”, os países pobres não colocariam encomendas no mercado livre, isto é, não se romperia o equilíbrio entre a oferta e a procura, as cotações não entrariam em alta.

O esquema estabilizaria os preços no mercado mundial, daria tranqüilidade ao produtor assegurando o crescimento uniforme do plantio e evitaria as dramáticas mortandades de fome.

Mas reduziria, em contrapartida, as possibilidades de lucros no comércio com alimentos, hoje obtidos principalmente pelos países industrializados, que são os seus maiores exportadores. E aí está a principal resistência a ser vencida pela FAO: a constituição do Fundão exigiria alguns bilhões de dólares, para imobilização na formação dos estoques, e para as vendas a longo prazo aos países pobres. Esses bilhões de dólares deveriam ser fornecidos exatamente pelos países ricos, segundo a proposta que a FAO apresentará na Conferência Mundial sobre Alimentação a iniciar-se em Roma, no próximo dia 5. Até que ponto os governos mundiais estarão preparados para aceitar o fim da especulação mundial com alimentos?



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