Jornal DCI , segunda-feira 6 de março de 1978
Há não mais que três anos, o Brasil comemorou o “Dia da Árvore” da forma mais hipócrita possível: na própria semana das comemorações, o Congresso Nacional aprovou um grande projeto de reflorestamento para o norte do Espírito Santo e Sul da Bahia. Onde a hipocrisia? Pouca gente sabe que o tal do ”reflorestamento” no Brasil é, na verdade, fachada para o desmatamento. Ou, mais precisamente: o Governo, isto é, a Coletividade, isto é, todos Nós, permitimos que as empresas deixem de pagar uma parte do Imposto de Renda, a cada ano.
Cada empresa, então, vê o que deseja fazer com esse imposto perdoado: ou comprar ações de empresas do Nordeste e Amazônia, ou comprar “ações” ou “quotas” de empresas com gigantescos projetos de “reflorestamento”. Assim, com bilhões de cruzeiros do Imposto de Renda, perdoado pelo Governo, é que se fazem grandes plantações de “pinus” e eucalipto.
Não, porém, com o fim de reflorestar — mas com a finalidade de, mais tarde, com as árvores crescidas, derrubá-las, extrair madeira, a ser usada principalmente como matéria-prima para a produção de papel e celulose. O “reflorestamento” de que tanto se fala no Brasil, portanto, é uma balela: seu objetivo é econômico, industrial, visa a fornecer matéria-prima às empresas, e nada mais. Essa distorção deu origem à outra, ainda mais terrível: matas seculares, matas nativas, até de milhares de anos, são cortadas, para serem substituídas por eucaliptos e “pinus”. Por quê? Porque, para as fábricas de papel e celulose, ou para as serrarias, interessa um só tipo de árvore, um só tipo de madeira — e as matas nativas, é óbvio, reúnem dezenas ou centenas de espécies diferentes. E é aqui que entra o Congresso Nacional: no fatídico mês de setembro de 1975, ele autorizou a derrubada de imensas reservas florestais — últimas com jacarandá, segundo os técnicos — do norte do Espírito Santo e da Bahia, para um projeto de reflorestamento — com pinus e eucalipto. O dono do projeto? Nada mais nada menos do que uma empresa do próprio Governo: a Vale do Rio Doce.
FINS AOS CRIMES
Como é possível que o próprio Governo e o próprio Congresso dêem esse exemplo de destruição da natureza e do meio ambiente, em meio, ainda, à indiferença da opinião pública? É simples. Os historiadores ainda vão mostrar que a época do “milagre econômico” brasileiro foi cheia de trevas, com os objetivos econômicos colocados acima de tudo, sem nenhuma contemplação para com outros tipos de consideração — inclusive a qualidade de vida do brasileiro, ou a destruição predatória de recursos naturais do País. Dentro dessa mentalidade falava-se, na época, que o Brasil poderia virar o maior exportador mundial de papel e celulose, graças às suas condições de clima, e, por isso, bilhões de cruzeiros eram entregues aos projetos de “reflorestamento”. Como, por isso mesmo, se fechava os olhos à destruição de matas, em nome da pressa de executar os projetos, exportar logo, e obter dólares no Exterior.
O irônico é que o sonho era um sonho, já está desmoronado. Sobra papel e celulose no mundo, a indústria do setor enfrenta uma crise sem precedentes (a Suécia chega a queimar volumes fabulosos de cavacos de madeira, que usaria para produzir celulose, da mesma forma que o Brasil queimou café, na época da superprodução). E, mais ainda: a celulose brasileira feita com eucalipto é considerada de má qualidade (“fibra curta”) pelos países importadores, que não pretendem compra-la. Assim, vários gigantescos projetos brasileiros de reflorestamento (abrangendo as plantações e as fábricas de papel) foram simplesmente “congelados”, incluindo o da Vale do Rio Doce. Segundo a Vale, o projeto será agora executado em ritmo lento, devendo ficar pronto pra lá de 1990. Mesmo porque vai-se estudar, agora, o plantio de outro tipo de árvores, em substituição ao eucalipto, para obter a fibra (longa) desejada pelo mercado mundial. Está aí, pois, a chance de o Congresso Nacional rever sua vergonhosa autorização, de dois anos e meio atrás, e salvar as matas da Bahia.
BORREGAARD, BRASKRAFT
A própria Borregaard (hoje Riocell), que poluía o rio Guaíba, Rio Grande do Sul, e foi vendida pelos noruegueses a um grupo brasileiro (Montepio da Família Militar), está esmagada por estoques, e tão endividada, tão endividada, que o Governo teve que emprestar-lhe quase 2,0 milhões de cruzeiros (2,0 trilhões de cruzeiros velhos...), e, agora, ainda vai ter que assumir seu controle, para evitar sua falência. Se não há mais pressa, se a indústria brasileira de papel está num beco sem saída, então já não existe o pretexto — a pressa — para destruir as últimas matas seculares da Bahia/Espírito Santo (ou para instalar a Braskraft na região do Paranapanema). Esses e outros projetos podem ser revistos — e cancelados, ou transferidos para outras regiões, como o Nordeste. O dinheiro do Imposto de Renda deve passar a ser aplicado em projetos que, efetivamente, visem ao reflorestamento, isto é, visem a corrigir os males da devastação feita no País séculos a fio. Há quem pense que a preocupação com a devastação, com a ecologia, seja coisa de “hippie”, ou de poetas. Não é nada disso. A devastação tem conseqüências econômicas — e traz tragédias. Esta mais do que provado que as imensas inundações em todo o Brasil, os desabamentos de terra (como em Tubarão, em Santa Catarina), as secas são conseqüência das alterações do clima e do solo, provocadas pelo desmatamento. Seus efeitos no Brasil hoje são mais do que visíveis, oferecem até exemplos dramáticos como o “entupimento” de gigantescas represas, como Três Marias, que estão sendo “aterradas” velozmente pela terra trazida pelos rios, alimentados pelas enxurradas que varrem regiões sem nenhuma cobertura florestal.
O Congresso Nacional, o Governo, o Brasil, podem comemorar sem hipocrisia o próximo Dia da Árvore. Para isso, é preciso alterar profundamente a atual legislação que destina o Imposto de Renda a atividades de reflorestamento, deixando de ver a árvore como matéria-prima. As mudanças deveriam prever a destinação de uma parcela dos recursos do IR para equipar, realmente, os órgãos oficiais incumbidos de fiscalizar e combater o desmatamento, no Brasil. Hoje, continua-se a derrubar matas nas barbas de todos: a 20 quilômetros do centro de São Paulo, ou no litoral norte; a 20 quilômetros de Brasília, ou na Rio-Santos. Ou, até, dentro da reserva florestal do Parque do Iguaçu, no Paraná, onde foram “descobertas” vinte fazendas, em pleno funcionamento, com serrarias e tudo. Dentro de uma reserva florestal. Em 1978. É muita hipocrisia.