Jornal Diário da Manhã , quarta-feira 14 de dezembro de 1983
Pela televisão, o anúncio mostra o pequeno engraxate deixando a sua casa paupérrima da periferia de Goiânia e, após atender a alguns fregueses, terminar o dia mendigando esmolas – recusadas pelos displicentes ocupantes de automóveis de luxo. Ao final, a tela é ocupada por uma cédula de quinhentos cruzeiros, estendida por uma mão da qual não se vê o dono, e saudada por berros de alegria do garoto – prontamente interrompidos por uma advertência: “Esse não é o caminho”. Isto é, não dê esmolas, “encaminhe sua contribuição para o Natal dos menores para tal e tal órgão oficial de assistência à infância em Goiás”.
Mais uma vez, pode-se questionar a validade desse tipo de mensagem – e de visão – para tratar dos problemas sociais, no momento atual, no Brasil. Aparentemente concebido para combater o “paternalismo” (representado pelo ato de dar esmolas), esse tipo de mensagem não teria exatamente o pecado de exacerbar o “paternalismo de Estado”, isto é, o paternalismo mor? Não seria uma forma de reforçar ainda mais um vício de comportamento presente na sociedade brasileira ao longo dos séculos, de “esperar” que o Pai-Governo resolva tudo, se incumba de tudo? Não representa mais um estímulo ao comodismo e egoísmo das pessoas, das famílias melhor aquinhoadas em termos de renda, que vêem a miséria ao seu redor e não se sentem responsáveis por nada, por absolutamente nada, com os sentimentos de solidariedade social diluindo-se cada vez mais?
Há dezenas de milhares de famílias carentes em Goiás (como no resto do Brasil), e há centenas de milhares de crianças carentes no Estado. As festinhas de fim de ano, par duzentas, trezentas, quinhentas crianças vão melhorar sua situação? Da mesma forma: umas poucas dezenas de bancas de engraxate para os “menores da Febem” trabalharem resolvem alguma coisa?
Já se disse, e é preciso repetir: o problema social em Goiás ganhou dimensões que o Estado, a centralização da assistência no Estado, não terão condições de contornar. A comunidade goiana, ao fechar os olhos a esse quadro dramático, está preparando uma “safra” de futuros “trombadinhas”, com a escalada da violência que acabará atingindo a todos.
Qual o caminho? Ele devia ser conhecido de sobra por um governo que se diz “de participação” e contra o “centralismo”. Neste momento, é pela mobilização de toda a sociedade que os efeitos da miséria podem ser abrandados, até que o atual quadro econômico melhore. Mobilização, no caso, quer dizer usar o trabalho voluntário, em larga escala, para minorar os problemas das populações carentes. “Creches” improvisadas, atendidas pelas próprias mães; “cantinas” improvisadas, para distribuição de sopas (de custo baixíssimo); “oficinas” improvisadas, para confecção de roupas, utensílios etc – tudo, sempre com o trabalho voluntário, inclusive de pessoas da classe média, são um caminho já testado em outras cidades. Até na desumana São Paulo surgiu, na última semana, uma entidade – a ser coordenada por três Igrejas – que receberá donativos, na base da “corrente” (cada participante manda uma carta a cinco amigos, e assim sucessivamente), para um trabalho coletivo em favor das populações carentes. Goiás vai despertar antes que seja tarde?