Jornal Folha de S.Paulo , quinta-feira 6 de maio de 1982
O temário era amplo, abrangendo desde questões políticas, como "os sindicatos e o trabalhismo", a problemas econômicos, como "a reforma tributária" ou "democracia, política econômica e recessão". Os noventa minutos do programa Crítica e Autocrítica, apresentado na terça-feira, pela TV Bandeirantes, por iniciativa do Jornal Gazeta Mercantil, não se ocupou de nenhum deles, diretamente, por aparente falta de sintonia nas "faixas de onda" em que os participantes se expressavam: Luís Inácio da Silva, Lula, e Olívio Dutra, respectivamente presidente nacional e presidente do PT gaúcho, de um lado, e Mário, Gamero e César Rogério Valente, respectivamente vice-presidente da Confederação Nacional da Indústria e presidente da Federação das Associações Comerciais do Rio Grande do Sul, de outro, tendo Roberto Muller, diretor-editor do jornal, como moderador.
Para quem esperava que o debate resultasse em melhor definição da posição "Ideológica" do Partido dos Trabalhadores e do próprio Lula, a fuga ao temário, até favoreceu a que isso ocorresse: a crer nas posições defendidas pelo presidente do PT, o partido não se bate por mudanças de fundo anti-capitalista para a sociedade brasileira, buscando, antes, a correção das "distorções" do capitalismo brasileiro, ainda que "dentro de caminhos novos". Em lugar de uma proposta "socialista", mudanças na linha da "social democracia".
Desde a primeira pergunta formulada pelos empresários, ficou clara a sua intenção — perseguida durante todo o programa de forçar a caracterização do PT como um partido que prega a "luta de classes" e o fim do capitalismo, no Brasil — "isca" que, se mordida por Lula e Dutra, poderia ter sérios desdobramentos, comprometendo o próprio funcionamento do Partido, por motivos óbvios. Quase por ironia, a busca de respostas diretas, perseguida pelos questionadores, foi frustrada pela dissonância que marcou todo o programa: os empresários, por sua própria formação, colocaram as questões em nível institucional, enquanto Lula e Dutra, também por sua própria formação, responderam sempre de forma intuitiva, empírica, driblando — involuntariamente ou não—a tentativa de xeque-mate dos interlocutores.
Lula reafirmou, por exemplo, que o PT considera haver, no Brasil, "explorados e exploradores", numa visão empírica — nem por isso menos correta — de distorções apontadas, de forma intelectualizada, por PHDs em Economia que se impressionam com o "capitalismo selvagem" brasileiro. Garnero, tentando trazer o debate de volta ao nível institucional, intelectualizado, quis saber se o PT aceitava a livre iniciativa, ou "se todos os empresários eram exploradores", e Lula e Dutra encurralados? Não. Ignorando aparentemente os objetivos de Garnero, retomaram a mesma linguagem do homem comum: "pode até ter livre iniciativa", diz Lula. "mas o mal é que no Brasil ela é escravagista", caracterizada pela exploração, e assim por diante — reforçando a impressão de que sua proposta é de "modernização do capitalismo brasileiro, isto é, o caminho "reformista".
Avançando sempre dentro desse clima, de divórcio entre duas visões dos problemas, o debate pecou ainda pela rápida mudança de um tema para outro, reforçando a possibilidade de indefinições ou semidefinições, como quando Valente, sempre incisivo, colocou uma pergunta aparentemente ameaçadora: "O PT deseja uma sociedade sem classes?" A resposta dos líderes do partido veio dentro da tônica de que "o partido governaria com participação popular". Não foi, porém, tão evasiva quanto as outras: "se a maioria da população achar, sim". Sua força, no entanto.se perdeu na saraivada de réplica e tréplicas subsequentes, quando Valente quis concluir que "então seria uma sociedade autocrática", e Olívio retrucou que seria "sem direção centralizada, autoritária", seguindo-se em frente sem maiores esclarecimentos. O mesmo ocorreu quando os empresários tentaram mostrar — insistindo no nível "institucional" — que o avanço do Estado, como empresário, significaria um outro sistema econômico: Lula e Olívio não retrucaram com a eventual necessidade de socializar os meios de produção, voltando à sua linha de análise empírica contra distorções reais: "O Estado sempre foi contra nós, no Brasil, o Estado salva empresas falidas e depois as devolve à livre iniciativa, socializando os prejuízos e privatizando os lucros, o povo é quem paga, cada um de nós paga para que esses empresários tenham lucros etc." Nenhuma palavra em favor da estatização, como os debatedores desejavam.
Em resumo, o debate mostrou um PT disposto a aceitar a livre iniciativa, a propriedade privada "que não explore", o Estado "democratizado", voltado para as necessidades da maioria, e não para os interesses dos poderosos. Quem, como os empresários intelectualizados, considerar as colocações demasiado "intuitivas", e por isso "decepcionantes", não conclui precipitadamente que elas reduzem as possibilidades eleitorais do PT. É bom lembrar que o homem comum, do povão ou da classe média, enxerga — e sente — as distorções brasileiras da mesma forma que Lula e Olívio.