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  A campanha contra os sonegadores

Jornal Folha de S.Paulo , sexta-feira 21 de maio de 1982


A prisão (suave) de Sophia Loren pode ajudar a entender as diferenças que existem entre o Brasil e outros países do mundo — ou, melhor ainda, por que é que se afirma que o povo brasileiro é desnecessariamente sacrificado pelos tecnocratas de Brasília.

Tudo começou por volta de 1979, quando os países da Opep elevaram novamente os pareces do petróleo, agravando os problemas em todo o mundo. Como outros países importadores, a Itália entrou em crise, porque os gastos com importações cresceram violentamente, a inflação disparou, o déficit do governo também cresceu — um quadro multo parecido com vivido pelo Brasil (embora, aqui, os erros cometidos pelos tecnocratas em 1979 e 1980 tenham tido um papel até mais importante, no agravamento dos problemas, do que o próprio petróleo.

Voltando a Sophia Loren ou à Itália: o governo decidiu que era preciso “apertar os cintos” para enfrentar os problemas: para conter o consumo e arrecadar recursos para o Tesouro (combatendo o déficit), foi criado um empréstimo compulsório sobre os salários, isto é, os trabalhadores tinham reajustes iguais à inflação — mas um terço, ou a metade desse reajuste, era entregue ao governo, como “empréstimo compulsório”, a ser devolvido anos mais tarde, quando a crise estivesse superada. Os sindicatos de trabalhadores, diante da crise nacional, concordaram com o sacrifício — protestaram violentamente contra a decisão de só apertar os cintos do povo, iniciando-se uma campanha nacional para que o governo combatesse os grandes sonegadores, cobrasse mais impostos dos poderosos e, principalmente, apurasse o “desvio” de dinheiro para o exterior, os depósitos nas contas nos bancos suíços.

“Se o governo quer cortar as importações para economizar dólares, então chegou a hora de recuperar as centenas de milhares de dólares remetidos ilegalmente para o exterior”, foi o brado de protesto. O governo italiano foi realmente forçado a voltar os olhos para as distorções — e acabou atingindo celebridades como Sophia Loren. No Brasil? É só olhar ao redor: preferiu-se o corte nas importações, a recessão, o desemprego, o imposto de renda aumentado para os assalariados, etc, etc.



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