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  O ministro Delfim e os bodes expiatórios

Jornal Folha de S.Paulo , domingo 20 de fevereiro de 1983


Há poucas semanas, o correspondente da “Folha” em Nova York, Paulo Francis, resolveu ajudar milhares de economistas, homens públicos, líderes empresariais – a Nação, enfim – a entender a crise no país. No papel de analista econômico, Paulo Francis, na edição da “Folha” de anteontem, sexta-feira, decidiu repetir suas lições, tentando iluminar aqueles milhares de cérebros, que vivem mergulhados em escuridão e assim o permaneceriam sem seus ensinamentos.

Sua primeira lição: a crise econômica brasileira é fruto da crise internacional. Segunda lição: em conseqüência, o ministro Delfim Neto não tem culpa alguma dos problemas atuais – o que autoriza supor que ele deve permanecer no cargo mesmo porque, da habitual saraivada demolidora de Francis, não sobra ninguém com inteligência, competência ou mesmo caráter. A não ser, claro, o próprio Delfim.

Por que a pregação do mestre? Irritado com a ignorância de todo mundo, exceto ele, Francis admoesta: falta ao Brasil uma visão internacional dos problemas brasileiros, “literalmente (a visão) inexistente nos debates aí”. E é por isso, conclui indiretamente Francis, que agora se quer dizer que “o sr. Delfim, de repente, é o responsável por tudo”. Para concluir Francis esbraveja contra esse comportamento vulgar: “É uma reação primitiva comum, a busca de um bode expiatório, mas não é coisa de país sério.” Apesar do respeito que o mestre-escola merece em outras áreas de sua especialidade, suas pontificações na área econômica não têm fundamento, para o bem do país.

RACIOCÍNIO EQUIVOCADO
Pontifica Francis: “O sr. Delfim Neto está onde está para manter o modelo. Este foi durante um enorme tempo apoiado entusiasticamente por toda a classe dirigente brasileira.” A interpretação inocenta o ministro Delfim de todos os equívocos cometidos na área econômica, ao apelar para a surrada visão de que todos os males provêm do “sistema” e o ministro é apenas um executivo de diretrizes a ele impostas e gostosamente aceitas, claro, já que nada o obrigaria a passar a vida “puxando tapetes” para permanecer no poder. A História não confirma essa interpretação. Francis, lançando mão de sua “visão internacional dos problemas brasileiros”, relembra que desde 1964 a economia se abriu ao capital estrangeiro, e afirma que este modelo foi mantido até hoje, com Campos, Simonsen ou Delfim.

A análise é uma grosseira simplificação. O “modelo econômico” adotado pela Revolução de 64 se baseava, sim, nos princípios - corretos ou não – do “liberalismo econômico”, na abertura de mercados etc. Mas não se pode esquecer – principalmente quando se reclama uma “visão internacional dos problemas brasileiros” – que a Revolução e o modelo econômico de 64, obviamente inspirados pelos EUA, nasceram do temor de “novas Cubas” na América Latina. Por isso mesmo, não apenas no Brasil, mas em outros países latino-americanos, o modelo apoiado pelos EUA era “reformista”, previa melhor distribuição de renda, reformas tributárias, reformas agrícolas (não agrárias), combate às distorções que favoreciam os grandes grupos, para evitar “explosões sociais”. Campos e Bulhões foram executores desse modelo. O sr. Delfim Neto, já em sua primeira passagem pelo Ministério, o deixou de lado – partiu para a concentração de renda via não apenas “arrocho salarial” mas principalmente através de subsídios e incentivos aos grandes grupos. Nada disso é novidade, nem precisaria ser lembrado: o ministro Delfim Neto optou pela formação dos grandes grupos empresariais, os tão falados “conglomerados” – exatamente o oposto ao pretendido pelo modelo de 64.

A CRISE CAMBIAL
Já que o problema atual é a dívida externa, é bom lembrar que também nesta área o ministro Delfim Neto não seguiu o “modelo de 64”. Em 1966/ 67, Campos e Bulhões, às custas de uma recessão, sim, economizaram o que hoje seriam bilhões e bilhões de dólares em reservas. O ministro Delfim Neto deixou que elas fossem “torradas” com importações supérfluas em 67/ 68 (fato que Francis não ignora, pois aplaudia as críticas que a revista “Visão”, na época, fazia à aberração). Por sua culpa o país mergulhou na crise cambial de 1968, equivalente à de hoje, e que, sim, exigiu o “modelo exportador” a abertura total do ao capital estrangeiro, para que o país voltasse a conseguir o apoio externo.

Desse “modelo exportador”, na verdade um “modelo importador”, nasceu grande parte das dificuldades atuais. Delfim é pois responsável por elas, já nas suas origens.

DISTORÇÕES EM SÉRIE
Há mais, porém. Volte-se à afirmação de Francis de que “o sr. Delfim Neto está onde está para manter o modelo”, uma melancólica insinuação de que o país não tem alternativa, não há nada a fazer. Falso. O ministro Delfim Neto, como visto, abandonou o “modelo de 64” e encalacrou o país no “modelo exportador” e “concentrador de renda” . Não foi o “sistema”, foi ele – ou a ala do “sistema” que ele representa. É fundamental entender esse ponto: saber-se que dentro do sistema existem alas que pensam e agiriam de formas diferentes abre perspectivas de mudança, esperanças de uma política econômica menos errada – e mais justa para o país.

A história mostra que essas alas sempre existiram. O Plano Trienal de 1967, do governo Costa e Silva, feito pelo então ministro do Planejamento Hélio Beltrão, pregava o “desenvolvimento auto-sustentado”, baseado no mercado interno, na redistribuição de renda. Quem o levou de roldão foi a crise cambial do ministro Delfim Neto, que desembocou no “modelo exportador/ concentrador.

Até 1973, ele predominou, intacto. Mas a partir de 74 surgiram esforços para corrigir suas distorções. O governo Geisel rompeu publicamente com a “teoria do bolo”, da necessidade de concentrar a renda, em seu PND. E, no trato com o capital externo, adotou mudanças fundamentais, a demonstrar que o “modelo” não exigia que o país ficasse de joelhos diante do Exterior, para contar com os capitais externos e equilibrar sua situação cambial. É dessa época, como exemplo, o disciplinamento das remessas de lucros disfarçadas, via pagamento de assistência técnica; o estabelecimento de uma política de reserva de mercado para as empresas nacionais de equipamentos; a concentração de investimentos nos setores básicos: fertilizantes, metais não-ferrosos, papel e celulose, que o país continuava a importar, por força do “modelo consumista” do período anterior do ministro Delfim Neto. O governo Geisel, em resumo, tentou resolver o problema da dependência externa, da dívida externa, através de programas de longo prazo e novo relacionamento com as multinacionais.

PONTO FINAL
Posteriormente, o governo Figueiredo, ao assumir em 1979, divulgou diretrizes econômicas que retomavam o “modelo reformista de 64”, desfigurado pelo ministro Delfim Neto. Previa-se a reforma tributária, para desconcentrar a renda e reduzir os déficits públicos; previa-se a redução dos subsídios à exportação, previa-se a taxação do lucro imobiliário e assim por diante. Com a queda de Simonsen foi tudo para a lata de lixo.

Hoje, não se pode dizer que o país tem o mesmo “modelo de 64”, ou “de 68”, porque simplesmente não tem “modelo”. Tem distorções. E é absolutamente injusto ignorar, como Francis faz, que as próprias classes empresariais, representadas por entidades como a Confederação Nacional das Indústrias, pediram insistentemente, nos últimos três anos, uma “política econômica”, “diretrizes de longo prazo” para o país, em memoriais, manifestos e semelhantes. Inutilmente.

E a crise cambial que está aí? O ministro Delfim Neto, hoje, pode tentar insinuar que ela é fruto da crise internacional e que ele está, como diria Francis, sendo escolhido como “bode expiatório” porque este país de ignorantes não tem uma “visão internacional dos problemas brasileiros”. Com todo o respeito, Paulo Francis poderia ter lembrado que, pelo jeito, quem nunca teve essa visão é o próprio ministro Delfim Neto que, em 1979, provocou a queda do então ministro Rischbieter, exatamente por causa do célebre relatório que previa tudo o que está acontecendo hoje com a dívida externa.

O ministro Delfim Neto lançou as bases da dependência externa brasileira em 1967/ 68. E as aprofundou em 79/ 80. É o responsável pelos problemas atuais, sim. Felizmente para o país, eles não são uma fatalidade, nem fruto da vontade do “sistema”. Podem ser corrigidos, por quem se dispuser a fazê-lo.



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