[O Brasil de Aloysio Biondi Obra Vida Projeto

  Brasília, os erros e os acertos

quarta-feira 19 de dezembro de 1990


Em meados do ano, a equipe da ministra Zélia Cardoso de Mello defendia negociações para um pacto social, admitindo até uma semivolta à indexação da economia. Aceitava-se esse retorno através da prefixação, ou estabelecimento de limites para os reajustes de preços e salários. Hoje, a equipe da ministra Zélia rejeita as propostas de prefixação, alimentando as críticas segundo as quais “o governo nunca quis negociar e a proposta de pacto é mera encenação” Para explicar as mudanças de atitude de Brasília, no entanto, basta fazer uma comparação entre a tendência da inflação em junho/julho e nos dias de hoje. Em meados do ano, a taxa de inflação estava estabilizada em torno dos 12% ao mês e o governo dava início ao processo de total liberação dos preços. Era importante, naquele momento, dispor de um limite para a remarcação de preços (acertado dentro do pacto, entre empresários e trabalhadores, e não imposto pelo governo), evitando-se que as empresas partissem para aumentos totalmente injustificáveis, na faixa dos 30%, 40% e 50%. Com prefixação, existiria esse limite: como foi feito em outros países, os participantes do pacto fariam uma previsão sobre a inflação do mês e fixariam um limite abaixo dessa estimativa: se a inflação estava em 12%, ele poderia ser de 10%, ou dois pontos percentuais abaixo, por exemplo. O pacto não veio. As lideranças sindicais passaram a reivindicar antecipações e reposição de perdas salariais – e os empresários, sobretudo de São Paulo, começaram a atender em parte essas exigências. Não é difícil supor que, àquela altura (e é bom puxar pela memória) os empresários ainda não acreditavam que o combate à inflação era para valer e sonhassem com a volta ao passado... Brasília avisou que, sem o pacto, adotaria uma política dura, para evitar a volta da indexação, da correção monetária, dos reajustes automáticos de preços e salários que começavam a grassar na economia. Foi o que começou a ser feito, sobretudo a partir de outubro (em setembro, houve erros grosseiros do Banco Central e o anunciado aperto virou uma festa para os bancos). No meio tempo, de agosto para cá, houve vários choques: do petróleo, da especulação agrícola, das tarifas e dos juros. Agora, por causa exatamente da política de aperto, as taxas de inflação entram em declínio (como antevisto por esta coluna há três semanas). Os efeitos dos choques estão passando. Na visão do governo, seria um contra-senso jogar fora todos os avanços já feitos – no exato momento em que surgem condições para vigorosa queda da inflação. Por isso mesmo, Brasília descarta até mesmo a prefixação, neste momento: ela poderia brecar a tendência baixista dos índices. Neste caso, é compreensível o raciocínio do governo. No entanto, era impossível engolir a contraproposta apresentada pela equipe econômica nas negociações do pacto, de oferecer um abono de apenas 3%, uma decisão equivocada que só provocou irritação e desgaste do governo. O mais grave dessa proposta não era o percentual ridículo, em si: o inaceitável é que, mais uma vez, o governo Collor desmente suas próprias intenções de dar início a um processo de redução das desigualdades na distribuição da renda no país. Por quê? O próprio abono concedido em agosto tinha esse efeito positivo: como ele tinha um valor fixo, de Cr$ 3 mil, beneficiava enormemente os trabalhadores que ganhavam menos. Ele tinha um caráter “progressivo”: para quem ganhava Cr$ 6 mil representava um acréscimo de 50% na renda daquele mês. Para quem ganhava Cr$ 100 mil representava um ganho extra de 3%. Não é preciso dizer mais nada para entender a aberração representada pelo abono de 3%, indistintamente, inicialmente proposto pelo governo. Neste caso, a chuva de críticas foi totalmente procedente. Da mesma forma que era e é totalmente injustificável a ladainha, que já virou moda nas análises econômicas, sendo repetida todos os dias, segundo a qual o governo “dormiu” no ponto, quando estourou a crise do Golfo Pérsico, e Brasília não reajustou imediatamente os preços dos derivados do petróleo. Há até piadas e ironias contra a equipe econômica, por causa disso. Ora, no primeiro momento, o barril de petróleo foi a até US$ 40, declinando depois para US$ 30 – e despencando, nas últimas semanas, para US$ 25. Se o governo tivesse reajustado os combustíveis com base naqueles US$ 40, de chofre, a inflação teria explodido – mesmo porque, naquela época, agosto, a mentalidade dos reajustes automáticos de preços esta ainda a todo vapor nó país. Alega-se que a demora em reajustar preços provocou um choque em outubro/novembro – mas o fato é que ele teria sido muito pior, antes. O governo ganhou tempo, corretamente – mesmo porque não se pode administrar a economia de um país de forma histérica, olhando apenas os fenômenos e tendências de cada dia, ou cada mês. No exemplo dos preços do petróleo, ficou patente que é preciso trabalhar em cima da média de preços de um período mais longo – um trimestre, por exemplo. (E os prejuízos da Petrobrás? O mesmo raciocínio vale: se ela teve perdas em determinado momento, elas podem ser compensadas ao longo do tempo – sem que a taxa de inflação decole). Uma realidade esquecida também por empresários e trabalhadores brasileiros e pelas análises econômicas no Brasil, que defendem apenas “mudanças já”, sem sequer tentar avaliar se o quadro inflacionário oferece hoje contornos mais favoráveis para as próximas semanas.



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