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  Menos ameaças em 83

Revista Nova ,


Quando a crise chega, as pessoas se sentem perdidas, sem perspectivas – já que não existe um prazo para a crise ser superada, e as dificuldades do presente parecem ter “vindo para ficar”. As previsões de que 83 será um ano ainda pior do que 1981 são, por isso mesmo, um assunto obsessivo para todos nós, brasileiros.

É evidente que ainda é muito cedi para prever quais os rumos que a economia tomará. Mas não custa dizer que há diferenças entre 1981 e 1982, e que elas permitem, ao menos, combater o pessimismo esmagador que toma conta da sociedade brasileira.

Erros e lições –Não há a menos dúvida, como se mostrou várias vezes, aqui em NOVA, de que a dívida externa brasileira não precisaria ter chegado ao ponto de descontrole a que chegou, provocando a crise atual. Ao longo dos últimos anos, houve várias oportunidades para corrigir as distorções do “modelo” - que os ministros, sempre otimistas, desperdiçaram. Pior ainda – como também se mostrou na época, aqui em NOVA –, os mesmos ministros otimistas não deram a menos importância a mudanças ocorridas no começo deste ano, 1982, na economia mundial – e que forçosamente trariam problemas para o Brasil. Perdeu-se tempo, muito tempo, aumentou-se mais e mais a dívida – por negligência ou incompetência.

Paradoxalmente, a desfaçatez ministerial, somada às dimensões da crise mundial, acabou deixando um saldo positivo (se bem que o preferível é que os erros não tivessem sido cometidos, claro). A falta de dólares no país é tão grave, o tamanho da dívida é tão imenso, que os ministros, desmoralizados, tiveram que colocar suas teorias e ironias de lado. Tiveram que adotar novos métodos de ação, recomendados há anos, e que sempre desprezaram. E daí? Daí que a crise de 1983, apesar da colossal dimensão dos problemas, pode ser mais branda do que a de 1981. E, melhor ainda: pode deixar frutos duradouros, para o país.

O todo e a parte – Em 1981, para enfrentar o problema da falta de dólares, os ministros adotaram os remédio clássico recomendado pelo tão falado Fundo Monetário Internacional: “esfriaram a economia”. Isto é, como já foi explicado, tomaram medidas para reduzir o consumo, para reduzir as vendas da indústria e, assim, reduzir a necessidade de importar matérias-primas, peças, componentes – e petróleo. Em outras palavras, adotaram uma política destinada a atingir a todos os setores da economia – provocando desemprego em massa e recessão. E agora, qual a diferença? O governo finalmente descobriu que é possível economizar dólares também com bom senso, sem necessidade de “tratamento de choque” para a economia.

Como assim? “Técnicos do governo analisaram as listas de produtos importados pelo país – são dezenas de milhares de tipo – e verificaram que milhares deles poderiam estar sendo fabricados aqui: de simples parafusos a equipamentos para busca de petróleo. É o que vai ser feito: empresas nacionais foram chamadas por órgãos do governo para adaptarem suas fábricas à produção desses bens, dentro de um processo de “substituição de importações”, orientado pelo governo, que dá financiamento, assistência técnica, etc., às empresas envolvidas.

(Por que isso não foi feito antes? O que Brasil não teria, hoje, uma dívida externa muito menor?)

Outra decisão adotada para economizar dólares: buscar maior aproximação com os países em desenvolvimento e os países produtores de petróleo. Objetivo dessa política: esses países, por seu estágio de desenvolvimento, são grandes importadores de alimentos – ou de máquinas mais simples, como as que o Brasil fabrica. Muitos deles enfrentam a falta de dólares. Então, o Brasil está propondo “trocas” com esses países: eles nos vendem 100 de minérios, mas compram 100 em eletrodomésticos; eles nos vendem 1,0 milhão em petróleo, mas nos compram 1,0 milhão sob a forma de usinas hidrelétricas, ferrovias, etc., que as empreiteiras nacionais podem construir lá fora. Resultado: o Brasil continua a comprar bens de que necessita, sem desembolsar dólares. Exporta seus bens e serviços, sem receber dólares – mas criando empregos e renda, aqui dentro.

Em poucas palavras: em 1981, o governo “brecou” toda a economia. Em 1983, tenta-se poupar dólares de forma criteriosa, reduzindo-se as proporções que a crise poderia atingir.

Quais as vantagens duradouras que essa nova orientação pode trazer? Antes de mais nada, é evidente que a aproximação com os países menos desenvolvidos vai criar um mercado permanente para o Brasil – mesmo depois que a atual crise passar.

O mais importante, porém, é que o governo, com a crise cambial, a falta de dólares deste ano, finalmente se convenceu de uma realidade que vinha sendo apontada, há anos, pelos críticos do modelo econômico do ministro Delfim Netto: o Brasil não pode tornar-se cada vez mais dependente do exterior, porque essa dependência provoca crises periódicas.

O que isso significa, na prática? Até 1982, a teoria dos ministros dizia que era ótimo endividar-se cada vez mais no exterior, porque os empréstimos permitiram um crescimento rápido – o que era falso. Agora, o governo estabeleceu limites para o crescimento da dívida, para a tomada de empréstimos. O que significa que o Brasil vai procurar novas formas de manter sua economia em expansão, adorando o seu modelo, sem distorções e dependência. O que é perfeitamente possível.



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