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  O Brasil vítima da chantagem

Revista da Fenae , dezembro de 1998


Vêm aí menos recessão, menos desemprego, menos quebradeira de empresas, menos impostos com a aprovação do FMI e do governo Clinton. Não se entusiasme, porém. Tudo isso é verdade, sim. Mas, não para o Brasil.

Quem conseguiu aquele tratamento favorável, nos primeiros meses desse semestre, foram a Tailândia e a Coréia, os primeiros “tigres asiáticos” a mergulharem na crise, no final de 1997. Nos dois casos, o FMI reduziu as metas previstas no “pacote de ajuda” - entre elas, a redução do “rombo” do Tesouro -, que havia exigido para montar uma operação de “socorro” na época da explosão. Estão confirmadas, portanto, as previsões (feitas por esta coluna na edição de setembro de 1998) sobre as conseqüências do debate sobre os males provocados pelo neoliberalismo e os remédios errados impostos aos países “emergentes”. Há mudanças importantes, em marcha na economia mundial. Infelizmente, o Brasil não tirou proveito dessa “virada”, embora tivesse todas as chances de ser o maior beneficiário da nova tendência - pelo fato puro e simples de sua “quebra” ter ocorrido no auge do debate (veja a coluna citada, “Os (bons) frutos da crise”).

O FMI, governo Clinton, os credores internacionais impuseram um “pacote” duríssimo ao povo brasileiro e que, o que é pior, na verdade agravará problemas que levam o país à falência. Como explicar que o FMI tenha sido tão “compreensivo” com a Coréia e a Tailândia, abrandando exigências, e tão duro, mantendo o “receituário amargo”, com o Brasil?

Resposta: o governo Fernando Henrique Cardoso curvou-se, manteve o país como a (possivelmente) última vítima da “onda neoliberal”, e todas as suas conseqüências. Um caso de chantagem.

Qual é o jogo de quebra-cabeça? É lógico que Camdessus, do FMI, e Clinton, daqui a alguns meses abrandarão as exigências feitas ao Brasil - mesmo porque, repita-se, elas tenderão a agravar os problemas, e não solucioná-los. Até lá, porém, o Brasil será forçado a manter o “modelo neoliberal”, garantindo dois objetivos principais de Camdessus e Clinton. O primeiro, e mais importante: a manutenção da política de privatização, incluindo-se aí, mesmo que de forma parcial, a Petrobras (se você duvida, é só esperar para ver). O segundo objetivo, essencial para os EUA: a manutenção da política de “escancaramento” do mercado às importações, vital para as empresas norte-americanas (principalmente à medida em que, como também previsto, a crise da economia dos EUA avança, explicando assim as sucessivas reduções nas taxas de juros implantadas pelo Banco Central norte-americano).

A chantagem é clara. O FMI/EUA exigiu a manutenção das altas taxas de juros no Brasil - apesar de saber que elas são as principais responsáveis pelo rombo do Tesouro, da União e estados. Hipocritamente, exigiu também metas ambiciosas para a redução desse rombo. Ao mesmo tempo, o FMI/EUA proibiu o Brasil de estabelecer controles sobre as importações/capitais especulativos, como outros países estão fazendo - apesar de o FMI/EUA saber que essas importações são devoradoras de dólares, isto é, agravam o rombo do Brasil em moeda estrangeira. Vale dizer: além de agravar a recessão, o desemprego, a “quebradeira”, o pacote não reequilibrará a economia brasileira, caminho apontado para reconquistar a tão-falada confiança dos investimentos estrangeiros.

Nesse quadro, os problemas se agravarão. Aí - raciocinam Camdessus, Clinton e beneficiários do neoliberalismo, o governo Fernando Henrique Cardoso terá argumentos para justificar a manutenção de políticas desastrosas aos interesses nacionais - como as privatizações a toque de caixa e em condições marcadas por aberrações.

Exatamente como, neste final de ano, a deterioração da economia brasileira foi explicada como “conseqüência da crise mundial” - permitindo que a rendição incondicional ao FMI/EUA fosse aceita passivamente pela opinião pública. Vitima de chantagem, a sociedade brasileira vai perder a oportunidade de rediscutir seus caminhos, em busca de um projeto nacional como empresários, sindicalistas, classe média e povão tiveram no passado. Um quadro desalentador. A menos, óbvio, que o Congresso Nacional, alertado pelo caso das “fitas do BNDES” se encha de brios e retome o seu papel de representante dos interesses nacionais - e, não, dos interesses do Executivo. Um papel que entidades representativas, inclusive sindicais, podem exigir dos congressistas.



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