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  Progresso que vem a cavalo é castigo. E agora, como curar a modernite?

Revista Doçura , maio de 1980


O povo diz: ’A pressa é inimiga da perfeição." Dito e feito.

Vira e mexe, aparece um líder dos agricultores dando entrevista:

— Ah, o café está dando prejuízo, e o arroz também. Feijão? Não compensa. — Mas leite e soja... — Leite é mau negócio. E soja, então, não paga nem a pena de plantar...

O consumidor olha espantado para o televisor. Então a comida, que está pela hora da morte, não dá lucro a quem planta? Por quê? Será saúva?

3 explicações — Em primeiro lugar, pode-se culpar a especulação dos intermediários, também conhecidos como atravessadores. Outra explicação é a mania de chorar: o empresário vive dizendo que está à beira da falência, e no fim do ano sempre lucra.

Mas há um terceiro problema, bem real no Brasil. A partir principalmente de 1970, o país foi atacado de modernite aguda.

O que é modernite — É a doença do "progresso-a-qual-quer-preço". A mania do mo-derno, do novo, sem querer nem saber se compensa aban¬donar o antigo. Fábricas despediram centenas de operários e compraram máquinas, sem ver que a produção "moderna" provocaria inflação; empresas compraram computadores caríssimos, sem olhar os custos; jogaram os bondes fora e substituíram por ônibus; cancelaram os trens e passaram a transportar tudo por caminhão; metais difíceis substituíram a madeira na in-dústria e na construção. E assim por diante.

Na agricultura — A modernização veio a cavalo, galopante, impensada, também no campo. Se alguém tentava alertar, os modernosos contra-atacavam assim:

— V. está contra o progresso! Saudosista! — V. é um paspalho.

E milhões de camponeses foram substituídos por máquinas também, sem necessidade, encarecendo a produção e provocando o "êxodo rural"; as cidades incharam, ficaram cheias de problemas.

Pior ainda, os modernosos rurais passaram a usar produtos químicos em geral, a rodo. Sem falar em rações, vitaminas, antibióticos e hormônios na criação de bois e galinhas; ou ainda produtos para "conservar" frutas e alimentos.

Alguém tentava impor um pouco de bom senso e sugeria: vamos continuar usando estér-eo de galinha, de vaca, ou adubo orgânico; vamos alimentar os animais com milho, capim, batata-doce, abóbora, mandioca — é melhor...

— Lá vem esse cara com estas idéias de índio — diziam os modernosos, gozando.

A insensatez chegou à beira da loucura.

Algumas loucuras — Milhões de toneladas de fertilizantes passaram a ser usados, por exemplo, sem que os produtores parassem para perguntar:

— Espera aí, será que esse fertilizante próprio para os Estados Unidos é próprio para o Brasil?

Alguns adubos, para fazer efeito, tinham que ser usados em muito maior quantidade: a produção ficou caríssima.

Inseticidas passaram a ser despejados às toneladas, até de avião; além de mais encarecimento, o altíssimo nível a que chegou no Brasil a contaminação química dos alimentos. (Ilustrando o exemplo: o produtor americano de soja faz em média 3 aplicações de inseticida em cada lavoura; o brasileiro faz 20 aplicações ou mais!)

E agora, tem cura? – Agora, tudo isso está sendo revisto: não foi brincadeira a inflação de 1979, ela veio comer em cima da nossa mesa; por isso, ou os produtores paravam para rever seus custos, ou não teriam mais a quem vender (enquanto quase metade da população passa fome ou vive em estado de subnutrição).

O próprio governo fala hoje em voltar ao adubo orgânico; em alimentar animais com “coisas naturais”; em combater insetos com outros insetos – como sempre aconteceu no seio da Mãe Natureza. Quando for necessário, inseticida ou adubo químico – com muito juízo.

Estaremos curados? – Pode ser que, daqui em diante, se alguma providência for tomada, a alimentação volte a ficar mais barata, como acontece em outros países.

A não ser que o Brasil tenha uma recaída de modernite. Aí, só dizendo como os antigos humanos: errar é humano, persistir é diabólico.

O povo diz: ’A pressa é inimiga da perfeição." Dito e feito.

Vira e mexe, aparece um líder dos agricultores dando entrevista:

— Ah, o café está dando prejuízo, e o arroz também. Feijão? Não compensa.

— Mas leite e soja...

— Leite é mau negócio. E soja, então, não paga nem a pe¬na de plantar...

O consumidor olha espantado para o televisor. Então a comida, que está pela hora da morte, não dá lucro a quem planta? Por quê? Será saúva?

3 explicações — Em primeiro lugar, pode-se culpar a espe¬culação dos intermediários, também conhecidos como atravessadores. Outra explicação é a mania de chorar: o em-presário vive dizendo que está à beira da falência, e no fim do ano sempre lucra.

Mas há um terceiro problema, bem real no Brasil. A partir principalmente de 1970, o país foi atacado de modernite aguda.

O que é modernite — É a doença do "progresso-a-qualquer-preço". A mania do mo-derno, do novo, sem querer nem saber se compensa abandonar o antigo. Fábricas despediram centenas de operários e compraram máquinas, sem ver que a produção "moderna" provocaria inflação; empresas compraram computadores caríssimos, sem olhar os custos; jogaram os bondes fora e substituíram por ônibus; cancelaram os trens e passaram a transportar tudo por caminhão; metais difíceis substituíram a madeira na in-dústria e na construção. E assim por diante.

Na agricultura — A modernização veio a cavalo, galopante, impensada, também no campo. Se alguém tentava alertar, os modernosos contra-atacavam assim:

— V. está contra o progresso! Saudosista! — V. é um paspalho.

E milhões de camponeses foram substituídos por máquinas também, sem necessidade, encarecendo a produção e provocando o "êxodo rural"; as cidades incharam, ficaram cheias de problemas.

Pior ainda, os modernosos rurais passaram a usar produtos químicos em geral, a rodo. Sem falar em rações, vitaminas, antibióticos e hormônios na criação de bois e galinhas; ou ainda produtos para "conservar" frutas e alimentos.

Alguém tentava impor um pouco de bom senso e sugeria: vamos continuar usando estér-eo de galinha, de vaca, ou adubo orgânico; vamos alimentar os animais com milho, capim, batata-doce, abóbora, mandioca — é melhor...

— Lá vem esse cara com estas idéias de índio — diziam os modernosos, gozando.

A insensatez chegou à beira da loucura.

Algumas loucuras — Milhões de toneladas de fertilizantes passaram a ser usados, por exemplo, sem que os produtores parassem para perguntar:

— Espera aí, será que esse fertilizante próprio para os Estados Unidos é próprio para o Brasil?

Alguns adubos, para fazer efeito, tinham que ser usados em muito maior quantidade: a produção ficou caríssima.

Inseticidas passaram a ser despejados às toneladas, até de avião; além de mais encarecimento, o altíssimo nível a que chegou no Brasil a conta¬minação química dos alimentos. (Ilustrando o exemplo: o produtor americano de soja faz em média 3 aplicações de inseticida em cada lavoura; o brasileiro faz 20 aplicações ou mais!)

E agora, tem cura? – Agora, tudo isso está sendo revisto: não foi brincadeira a inflação de 1979, ela veio comer em cima da nossa mesa; por isso, ou os produtores paravam para rever seus custos, ou não teriam mais a quem vender (enquanto quase metade da população passa fome ou vive em estado de subnutrição).

O próprio governo fala hoje em voltar ao adubo orgânico; em alimentar animais com “coisas naturais”; em combater insetos com outros insetos – como sempre aconteceu no seio da Mãe Natureza. Quando for necessário, inseticida ou adubo químico – com muito juízo.

Estaremos curados? – Pode ser que, daqui em diante, se alguma providência for tomada, a alimentação volte a ficar mais barata, como acontece em outros países.

A não ser que o Brasil tenha uma recaída de modernite. Aí, só dizendo como os antigos humanos: errar é humano, persistir é diabólico.



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