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  A inútil ameaça da “austeridade monetária??

Jornal Gazeta Mercantil , quarta-feira 21 de abril de 1976


A política monetária capengou de novo em março. Segundo foi divulgado em plena Semana Santa, os meios de pagamento voltaram a crescer no terceiro mês do ano, insistindo assim em contrariar o plano das autoridades monetárias. Contrariadas também, aliás, pelos teimosos da Fundação Getúlio Vargas, que acusaram aumento de 3,2% para o custo de vida (contra uma previsão de 2,5% por parte do ministro da Fazenda) e, o que é pior, quase 4,0% para a inflação (contra uma previsão de 3,0% do ministro da Fazenda).

Pode supor que, a esta altura, haja alegria entre os empresários e observadores que se horrorizaram com a volta das teorias monetárias, que pretendem combater a inflação e o déficit da balança comercial através do arrocho do crédito e da “desativação” da economia -, pois o fato é que até março nada mudara neste país tropical. Os meios de pagamento continuaram a avançar, contrariando os ensinamentos dos compêndios escolares, e a inflação foi bem obrigada, a ponto de estar saudabilíssima, exuberante, neste mês de abril, como pode se ver ouvindo as conversas no ônibus, ou indo a uma feira livre, um supermercado, uma padaria, com o feijão a Cr$ 14,00 o quilo, a batata a Cr$ 7,50, os ovos a Cr$ 7,50, e o humilde álcool, combustível queimado nas espiriteiras dos consumidores que não podem comprar um fogão a gás a Cr$ 6,00 (era Cr$ 1,00 o litro há um ou dois anos). O regozijo pelo insucesso da “austeridade monetária”, no entanto, seria precipitado, pois os sucessivos malogros no combate à inflação e ao déficit na balança comercial têm levado à adoção de medidas cada vez mais estranguladoras das atividades econômicas. Regozijo, somente poderia haver se as autoridades monetárias revissem seus diagnósticos dos problemas brasileiros, e adotassem políticas adequadas para enfrentá-los – e não para agravá-los, como vem ocorrendo. Uma revisão que se impõe quando nada porque – atenção – nem mesmo as teorias monetaristas exigem, a esta altura, a adoção de políticas restritivas de crédito.

NÓ A DESATAR

Por que os meios de pagamento cresceram em março? É essencial formular esta pergunta, para entender como a política monetária do país caminha de equívoco em equívoco, com resultados desastrosos. O “segredo” dos problemas da política monetária e do mercado financeiro do país está nas diferentes taxas de juros pagas nas aplicações: tem sido vantajoso levantar dinheiro em uma fonte, a juros baixos, e aplicar em títulos de renda fixa, ou cadernetas de poupança, a juros mais altos. Foi essa diferença entre taxas que provocou o “inchaço” do “open market” e os descaminhos da política monetária nos últimos anos. Foi essa mesma diferença que, ainda uma vez, em março último, frustrou a política monetária: segundo o noticiário da última semana, os bancos vinham aplicando mais dinheiro do que recebiam como depósitos, isto é, o crédito continuou a crescer mais do que as previsões e intenções do Ministério da Fazenda. Como isto foi possível? Se os bancos recebiam 100, em depósitos, e emprestavam 120, eles simplesmente procuravam esses 20, no Banco Central, através do mecanismo chamado de “redesconto da liquidez”. Qual a vantagem para os bancos? Os recursos fornecidos pelo Banco Central custavam apenas 18% ao ano, e, evidentemente, havia aplicações mais vantajosas no mercado (segundo o noticiário, “comenta-se que determinados bancos chegam a aplicar no “open market” o dinheiro levantado através do redesconto de liquidez”). No início de março, o Banco Central tentou “fechar” essa brecha na política de contenção de crédito: elevou as taxas cobradas dos bancos, no redesconto de liquidez, de 18% para 22% ao ano. Mas falhou, mais de uma vez, como qualquer observador poderia prever, já que, ao mesmo tempo, foram liberadas as taxas de juros pagas na compra de títulos de renda fixa. A recente “reforma” do “open market”, que tem lados altamente positivos, foi ainda mais longe, e sacramentou a distorção: os bancos comerciais foram autorizados a comprar letras de câmbio, que estão rendendo, por baixo, 30% ao ano. Fica difícil acreditar que os bancos vão deixar de tomar dinheiro emprestado no Banco Central a 22% para aplicar a 30% em letras de câmbio. Somente as autoridades monetárias, que afirmavam acreditarem em tanta coisa que-no-fim-não-era-bem-assim nos últimos anos, podem incorrer em semelhante ingenuidade.

UMA PERSPECTIVA

Se os meios de pagamento crescem, e mesmo assim as taxas de juros continuam altas, pode-se supor que isso ocorre, em grande parte em função do “clima” psicológico, de escassez de crédito, anunciada pelas autoridades. Uma política monetária “normal” – publicamente anunciada, contribuiria portanto para inverter a tendência. E isso poderia ser feito, já, pelas autoridades monetárias, sem ferir as teorias monetárias de que o exagerado crescimento do crédito provoca a inflação. Por quê? Basta ver as estatísticas de fins de outubro a dezembro, efetivamente, os meios de pagamento cresceram de 146 para 171 bilhões de cruzeiros, ou 17% em dois meses (novembro e dezembro). Esse descontrole – provocado pelos problemas de “open market” – inflacionaram os meios de pagamento. Mas, em fevereiro, eles haviam caído 6%, isto é, menos de 10,2 bilhões de cruzeiros, indo para 161 bilhões de cruzeiros. Em março houve novo avanço de 4,0 bilhões de cruzeiros, queda de 3,7% em relação a dezembro, com os meios de pagamento agora situados em 165 bilhões de cruzeiros. Isto significa que, de 146 bilhões de cruzeiros em outubro, está-se agora em 165 bilhões de cruzeiros em março, ou cerca de 15% de aumento em cinco meses. Assim, se a expansão de outubro a dezembro for exagerada e, por isso, inflacionária, estes 15% em cinco meses são modestos, isto é, compatíveis para um país que enfrentou uma inflação de 11% apenas nos três primeiros meses deste ano; e não menos que 5% nos últimos dois meses de 1975. Mesmo dentro das teorias monetaristas ortodoxas os meios de pagamento têm que crescer o suficiente para cobrir os aumentos de preços – e, a esta altura, estes já tomaram a dianteira, no período considerado de cinco meses.

Não é através do “aperto do crédito”, portanto que se vai combater a inflação (ou o déficit da balança comercial). É hora de pensar a sério nesses problemas.



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