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  Entre os estouros no “open?? e a desdolarização

Jornal Folha de S.Paulo , terça-feira 9 de fevereiro de 1982


A opinião pública brasileira tem sido enganada, ao longo dos últimos anos, quanto à extensão dos prejuízos que o País sofre em conseqüência dos chamados “escândalos” do mercado financeiro, e que vão desde o célebre caso Halles, ao caso Tieppo, Independência/Decred, Brastel/Coroa, etc.

Quando há essas quebras no mercado financeiro, surgem as estatísticas sobre as centenas de bilhões de cruzeiros perdidos pelos investidores e pelo próprio Banco Central, em seus empréstimos de emergência às instituições, na tentativa de evitar que elas falissem. É evidente que esses prejuízos “visíveis” são monstruosos. Mas, na verdade, o País, a economia do País sofre perdas infinitamente maiores em conseqüência dos desmandos no mercado financeiro: recessão, desemprego, inflação são os prejuízos “invisíveis” de que não se fala, e provocados pelas distorções no “open”. Como assim? É simples: quando instituições ameaçam quebrar, por terem realizado operações especulativas, o Banco Central (além dos empréstimos diretos) começa a injetar bilhões e bilhões de cruzeiros no “open”, para ajudar os especuladores em dificuldades, pois com sua atuação, o BC provoca a redução das taxas de juros nos empréstimos que as instituições precisam tomar no mercado. Em outras palavras: tudo se passa como se o Banco Central, o governo, cortasse gastos oficiais, reduzisse o crédito à agricultura, indústria e comércio, provocasse recessão, enfim, a pretexto de que o “aperto monetário”, o controle sobre as emissões, é necessário para conter a inflação. E depois, para evitar a quebra de algumas instituições, que poderiam prejudicar o mercado financeiro, o Banco Central emitisse, jogando pela janela todo sacrifício já feito pelo País em conseqüência do “aperto no crédito”, prolongando-se a recessão, o desemprego, perpetuando-se a inflação. Para avaliar os males dantescos que as distorções no mercado financeiro têm provocado à indústria nacional: nestas últimas semanas, o Banco Central estava injetando (ou “emitindo”) Cr$ 2,0 trilhões diários no “open” – o equivalente a um quarto do valor de todo o crédito rural liberado durante todo o ano passado – apenas para ajudar instituições “em dificuldades”.

A “operação” agora montada pelo Banco Central, como foi dito em análise publicada ontem pela “Folha”, é um avanço em relação à situação vigente até hoje. Com ela, o Banco Central recompra, de uma só vez, algumas centenas de bilhões de cruzeiros em ORTNs e LTNs, reduzindo os prejuízos de instituições. Mas, em compensação, deixa de ser forçado a “emitir”, para injetar dinheiro no mercado, todos os dias, inclusive “estourando” as metas assumidas com o Fundo Monetário Internacional.

Tudo indica que a mudança de atitude é mais profunda do que parece à primeira vista: o Banco Central não está forçando as instituições a venderem os títulos. Mas fica tácito que, daqui para a frente, quem não entrou na “operação”, vai ter que andar com suas próprias pernas, isto é, o Banco Central já não injetará dinheiro no “open” para reduzir as taxas de juros e evitar prejuízos às instituições.

Fortalece-se a crença, inclusive, de que a nova “operação socorro” seria o primeiro passo para a renegociação da dívida interna brasileira: a partir dela, o Banco Central tencionaria trocar as Obrigações Reajustáveis do Tesouro Nacional com correção cambial por ORTNs com correção monetária. Trata-se, como visto, da célebre “desdolarização” da economia, defendida há muito por economistas e líderes empresariais, como essencial para romper a “ciranda financeira”. Qual o significado disso tudo? Com a existência das ORTNs que pagam correção cambial, o governo caiu em verdadeira “armadilha”: todas as vezes em que há boatos de “maxi” do cruzeiro, ou dificuldades nas negociações com o Fundo Monetário, ou qualquer problema na área cambial, imediatamente as ORTNs com correção cambial começam a ser procuradas no “open”, com seu preço subindo rapidamente – porque os compradores acreditam que poderá haver uma “maxi”, e eles realizariam imensos lucros com ela. Ante a essa valorização das ORTNs cambiais no “open”, o Banco Central procura deter a especulação, e então retira dinheiro do mercado, para elevar as taxas de juros (e tornar desvantajoso para as instituições tomarem empréstimos no “open” para comprarem aqueles títulos). Com isso, as taxas de juros disparam em todo sistema financeiro, nos empréstimos para as empresas, etc. – provocando inflação e recessão. Trocando em miúdos: a existência das ORTNs cambiais “misturou” a política cambial com a política monetária, numa armadilha infernal: quando o governo tenta consertar de um lado, provoca problemas no outro (enquanto o “mercado” realiza sempre grandes lucros com as medidas tomadas alternadamente pelo Banco Central).

Separar a política monetária da política cambial, para poder administrar melhor o crédito, as taxas de juros, os incentivos à exportação, é um dos principais objetivos da renegociação da dívida interna. Que se traduziria, no caso, na “desdolarização” dessa dívida interna – e da economia.



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