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  Por que o "calote" de Covas é diferente

Jornal Folha de S.Paulo , sábado 13 de fevereiro de 1999


Carnaval, trégua para a crise do real. Boa oportunidade para reflexões mais amenas, sobre episódios aparentemente isolados, mas que fazem parte do "quebra-cabeça" do presente.

De acordo com o espírito de Momo: “Calote” paulista - A arrecadação do ICMS já caiu, por causa da recessão, e isso desde o começo do segundo semestre do ano passado. O governador paulista, Mário Covas, já chamou os empreiteiros, para comunicar-lhes que as dívidas do Estado – algo como R$ 500 milhões, segundo os empresários – somente serão pagas em dez parcelas. A imprensa noticia o “parcelamento” de forma discretíssima. E se a iniciativa fosse do governador Itamar Franco? Ora. Claro que, aí, seria “calote” ou “moratória”.

Lição paulista - Por que o tratamento tão simpático, do noticiário, ao "calote" paulista? Elementar. Afinal, o governador Covas tem dado lições aos outros Estados, dizendo que eles têm de pagar suas dívidas já, agora. Demonstração de seriedade. Então, é intocável. Porta-voz de FHC.

São Paulo, exceção?

O governador Garotinho exibiu dados comprovando que a União deve R$ 9 bilhões ao Estado do Rio de Janeiro. Todos os governadores, e não apenas os de oposição, apontam o mesmo problema, isto é, que a União lhes deve, e isso não foi levado em conta na renegociação da dívida. Principal foco dos débitos: funcionários estaduais recolheram à Previdência (INSS), até 1988 (nova Constituição), que deveria ter repassado esse dinheiro aos Estados. O governo paulista surge como exceção: diz que tudo foi perfeito na renegociação da dívida do Estado. Terá sido mesmo? Na campanha eleitoral, a candidata Marta Suplicy afirmava que São Paulo foi lesado, abrindo mão de créditos que teria junto ao governo federal. Não é hora de ao menos discutir essas contradições, para que o contribuinte paulista não alimente qualquer dúvida em relação ao governo Covas?

Alô, classe média

Estudos da própria Receita Federal mostram que as classes ricas ou milionárias estão pagando, proporcionalmente, muito menos Imposto de Renda que a classe média. É importante, por isso mesmo, a tomada de posição dos governadores oposicionistas, que em sua primeira reunião (a mais recente foi a de Porto Alegre) e posterior “Carta” defenderam uma reforma tributária que leve em conta a "capacidade contributiva" de cada cidadão. Ou, em bom português, que o país retome um princípio fundamental da cobrança de impostos, pelo qual “paga mais quem ganha mais”.

Emergência

Manchetes para a queda de 1,9% na produção da indústria paulista. Mesmo essas manchetes foram cor-de-rosa, pois aquele recuo se refere ao acumulado do ano inteiro. Quanto a dezembro, a indústria desabou, com menos 9% na comparação com 1997. Essa é a realidade de hoje, e não o índice modesto de 1,9%. A gravidade da crise ainda não se reflete no noticiário. O país já está em estado de emergência. Que exige planos de emergência por parte dos governadores, prefeitos, União.

Clinton, também

Em janeiro, o presidente Clinton ganhou manchetes, até na imprensa brasileira, ao anunciar estrepitosamente que a economia norte-americana havia criado nada menos de 378 mil empregos, recorde impressionante, em dezembro. Semana passada, o governo dos EUA divulgou os resultados da economia no mês de janeiro. Lá no meio, discretissimamente, a informação: os dados estavam errados; a revisão mostrou a criação de 298 mil empregos, ou 80 mil a menos em relação ao anunciado. Nada de manchetes, óbvio (em tempo: a entrevista triunfal de Clinton, em janeiro, coincidiu com o período de votação do pedido de impeachment...).



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