Jornal Folha de S.Paulo , sexta-feira 29 de outubro de 1982
A dívida externa brasileira será a maior do mundo, no final deste ano, ao atingir US$ 87 bilhões, contra US$ 81 bilhões do México – que tem condições mais vantajosas para enfrentá-la pois é grande exportador de petróleo e pode contar, a cada ano, com uma entrada líquida de US$ 4 bilhões resultante do turismo e comércio da fronteira com os EUA (para avaliar a importância dessa fonte de divisas, basta lembrar que o Brasil, com enorme esforço, desejava obter um superávit de US$ 3 bilhões com suas exportações, este ano).
Superando largamente o endividamento anunciado pelo governo brasileiro, de US$ 72,2 bilhões em dezembro de 82, a cifra de US$ 87 bilhões foi publicada pelo “Wall Street Journal”, dos EUA, em análise sobre o mercado financeiro mundial feita por banqueiros internacionais, e agora reproduzida pela revista “Conjuntura Econômica”, em sua edição de outubro. É fácil explicar a discrepância entre os US$ 72 bilhões, de “uso interno”, e os US$ 87 bilhões dos banqueiros do “Wall Street Journal” (a mesma cifra, a propósito, foi prevista muito antes pela “Folha”, em sua edição de 8 de agosto deste ano, em análise sobre a dívida brasileira). Os US$ 72,2 bilhões do governo se referem – ou “se refeririam”... – apenas à dívida de médio e longo prazo, excluindo-se a dívida de curto prazo. No entanto, na ponta do lápis, mesmo os números oficiais mostram que a dívida externa do Brasil não será inferior aos US$ 87 bilhões, no final do ano: o “plano de emergência” aprovado pelo Conselho Monetário Nacional na última segunda-feira confessa que o déficit de transações correntes (isto é, o “rombo cambial” do País em 82) alcançará 14 bilhões de dólares (estimativa preliminar, que na verdade ainda deve estar subestimada). Ora, se os próprios dados oficiais desse documento mostram que a dívida no final de 1981 era de US$ 61,4 bilhões de dólares, basta somar os US$ 14 bilhões das saídas deste ano, para chegar a US$ 75,4 bilhões. Essa cifra ainda está longe dos US$ 87 bilhões, é verdade. Mas a ela devem ser somados, agora, mais US$ 10/11 bilhões da dívida de curto prazo, sobre a qual o governo não fala (e que economistas estimam em US$ 13 bi), para chegar a 85,4/86,4bilhões de dólares, isto é, os US$ 87 bilhões das estimativas dos banqueiros. Sem falar nas importações que somente poderão ser desembarcadas no ano que vem, para não entrarem nas estatísticas de 1982 e outros macetes, já comentados, para “esconder” o tamanho da dívida brasileira. (A.B.)